Amoroso é um disco perfeito. Se julga que exageramos, é porque nunca se apaixonou. Nem por ele, nem por ninguém. Agora imagine o que anda a perder…
Os exageros, as hipérboles, sejam elas mais ou menos poéticas, fazem parte do discurso dos amantes. Amar é fundamental e eleva-nos a patamares supremos, que só se atingem quando alma e pele entram numa espécie de lenta ebulição. Daí ao incêndio final, nada há a fazer. Felizmente, até porque quem anda nas nuvens não deseja terra firme. Assim, pela soma de todos estes fatores, não há que ter receio de qualquer representação exagerada que por aqui possa vir a ler. Quem ama reconhece a verdade que o coração dita, mandando às urtigas impedimentos racionais que tudo turvam. Como dizia o mestre pessoano, “sei a verdade e sou feliz”.
Não há quem se sinta de outro modo ao ouvir Amoroso, de João Gilberto. Não pode haver. É impossível. É um disco que parece ter sido feito para unir o mundo, os corações do mundo, para que o mundo, se o ouvisse ao mesmo tempo, unisse mãos e outras vontades físicas e assim ficasse, nesse delírio, até à eternidade. E se julgarem que tudo isto não passa de um enorme exagero, fique a saber que não, que é a mais pura das verdades. E se Amoroso nunca lhe passou pelos ouvidos, prepare-se: a sua vida irá mudar.
Amoroso foi gravado em 1976, nos Estados Unidos, onde João Gilberto vivia, em poucos dias. Orquestrado por Claus Ogerman, que faz aqui um trabalho sublime, o disco é composto por oito temas. Na negra rodela original, no Lado A constam quatro temas, equilibrando-se o Lado B com outros tantos. Curiosamente, nas primeiras quatro composições ouvimos João Gilberto cantar em quatro línguas distintas, a sua e ainda em inglês, italiano e espanhol. Nas restantes, a língua lusa – com aquele sotaque doce que mistura embalos e dicções que quedam bem com a ideia de paraíso – faz-se ouvir em composições do (outro) “mestre soberano” Jobim. Que repasto de sons, meu Deus! Que júbilo! Que alegria!
Amoroso é um disco perfeito. O melhor que João Gilberto alguma vez deu ao mundo. Esqueçam os históricos álbuns, aqueles primeiros em que revolucionou a música brasileira. Este é mais bonito, mais terno, mais amoroso, encaracolando-se em nós a cada audição, adotando-nos para sempre e mais além. “É tempo de se pensar, / Que o amor pode de repente chegar”, e sempre chega quando ouvimos “Caminhos Cruzados”. Até porque “sua beleza é um avião”, como João canta em “Triste”, penúltima composição de Amoroso. E já que estamos a referir as canções que dele fazem parte, desafio qualquer um a deixar-se comover com o algodão doce sonoro que é “`S Wonderful”, dos irmãos Gershwin, num inglês que comove por ser deliciosamente imperfeito na pronúncia carioca de João. Que se enterneça com “Estate”, juntando ainda mais mel à guloseima anterior, num italiano mais belo que a bela língua de Dante. E que se emocione ao ouvir esse suspiro apaixonado chamado “Besame Mucho”, percebendo que nunca a língua castelhana nos pareceu tão bela como nesse instante que dura quase nove minutos. E ainda há “Tin Tin por Tin Tin” e as eternas “Wave” e “Zíngaro”, título original da canção mais conhecida por “Retrato a Branco e Preto”.
Por fim, uma última e derradeira pitada enfática, bombeada por um coração rendido a tanto encanto: ouvir Amoroso é como respirar, respirar para que nos mantenhamos a salvo das feiuras deste tempo, em que a comunhão é uma expressão cada vez mais apartada dos gestos e das vontades comuns. Pode ser que aconteça algum milagre – é assim que os apaixonados pensam, não é verdade? -, alguma insólita necessidade que nos coloque, de novo, no caminho da harmonia e do deslumbramento. É que a vida seria melhor, bem mais satisfatória, bem mais amorosa, fosse ela vivida no embalo bom de Amoroso. Era bom que aprendêssemos isso com João.