Canção do dia

“Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)” – Marvin Gaye

Em 1970 e em 1971, como já tão bem o Ricardo Romano explicou numa crítica publicada aqui no Altamont, Marvin Gaye estava agastado. É verdade que tinha uma carreira estupenda, que a sua voz maravilhava o público há uma série de anos, mas Marvin Gaye estava furibundo como a porra: com o racismo, com a guerra do Vietname que lhe levara o irmão para longe, com a América. Vai daí fez What’s Going On, a sua libertação dos espartilhos do que a editora queria que fizesse, daquilo que andava a fazer, das histórias que andava a cantar.

O disco, saído há 50 anos, é um pináculo da música negra, um álbum cheio de romantismo, sensualidade, espiritualidade e crítica social, tudo misturado, tudo fundido num caldeirão cozinhado por um cantor e músico espantoso que estava cansado de se desencontrar do mundo fugindo dele.

Se a canção que dá título ao disco foi um dos grandes hinos de um ano marcante para a música popular, esta “Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)” é portentosa, na melodia e na denúncia de um país que conseguia pôr gente na lua e que tinha dinheiro para torrar em armamento usado numa guerra que tanta gente não compreendia, mas que não conseguia ao mesmo tempo  dar condições dignas de vida aos seus cidadãos, que não conseguia dar casas dignas às pessoas e que não conseguia evitar que nas suas cidades se formassem guetos de pobres, andrajosos e de negros carenciados.

Rockets, moon shots
Spend it on the have nots
Money, we make it
Fore we see it you take it
(…)
This ain’t livin’, this ain’t livin’
(…)
Bills pile up sky high
Send that boy off to die
Make me wanna holler
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