As fantásticas rãs da música vêm salvar o verão (e o resto do ano…).
Canções simples, todos precisamos delas. Todos precisamos de nos sentarmos numa simples cadeira e, de vez em quando, pôr uma simples canção. Porque, sem “la-la-las” ou “I love you so muchs”, qualquer pessoa dá rapidamente em maluca e, sem dar por isso, começa uma vida de pequenos delitos que passam, sem dar por isso, a crimes violentos e logo a seguir à morte.
Se nos enchermos de música demasiado interessante e multifacetada, acabamos por cair na forte convicção de que somos burros, porque não compreendemos tudo, e isso é normal. O problema é que a nossa autoestima pode fazer as malas. Todos precisamos de nos sentir seres omniscientes de vez em quando. Precisamos de ABBA, Jack Johnson e Paulo de Carvalho para que, quando ouvimos uma peça de música, não tenhamos de estar sempre em modo sudoku, a tentar desvendar mistérios e aliterações.
Precisamos de músicas como as que nos servem aqui estas senhoras de nome HAIM. Quinze músicas do melhor pop de dois a três acordes e muito bom gosto. A base é básica (eu sou demais), porém está tudo nos pormenores: uma harmónica aqui, um sintetizador ali, uma samplezinha só para dar gosto, etc. O trabalho de produção de cada música reflete um aguçado sentido estético, porque nada parece estar a mais. Tudo é essencial e permanece uno como um bloco de cimento. Mas um bocadinho mais interessante.
O som das HAIM, apesar de aparentemente simplório, é muito peculiar. Pelo facto de se encontrar perfeitamente sentado em cima do muro que separa o mainstream do alternativo. “Talvez até nem haja muro nenhum, mas uma ponte por onde passam de um lado para o outro alegremente”, seria a resposta para uma ovação fácil na ONU. Parece-me, no entanto, (pouso o cachimbo e retiro a lupa da algibeira do meu sobretudo) que as vozes tendem para o pop mainstream e o instrumental para o alternativo. E tudo vive feliz num harmonioso ying yang para todo o sempre – pronto, pronto, pronto, sentem-se. De facto, funciona e isso intriga-me. Tanto poderiam dar um bom concerto numa cave em Chelas como em Wimbledon. Aliás, o seu próprio sucesso posiciona-as – veja-se a coincidência – num lugar dúbio, pois não é tal para serem consideradas mainstream nem moderado o suficiente para pertencerem ao alternativo. São uma espécie de anfíbios. São as rãs da música. Obrigado e boa tarde.
Bom, mas do que nos vêm falar desta vez estas fortes e imponentes madames, que têm crescido como um dos proeminentes nomes da música (alternativa e mainstream) atual, após terem deixado o mundo boquiaberto com o magnífico “Girls In Music Pt.III”? De desistir.
Calma. No bom sentido, claro. Desistir de maus hábitos. Como roer as unhas e deixar copos na beira da mesa. Esse tipo de coisas que estão tão dentro das rodas dentadas da vida que a sua maleficência passa despercebida. Por exemplo, deixarem-se de rodriguinhos (por mais que odeie a expressão) quando se trata de amar as suas caras-metades – “All over me”; o videoclipe que o diga. Desistir de ter razão para se ser feliz – “Down to be wrong”. Desistir de se olhar sempre para a frente e de se ignorar as saudades do passado – “Take me back”. No fundo, desistir de todos os preceitos e preconceitos que parecem ter vindo com o big bang, mas que, muitas vezes, não têm razão de ser e acabam por contaminar a nossa rotina e, discretamente, a nossa felicidade.
O álbum é isso. Uma rendição à felicidade, que no caso das HAIM está em fazer música simples, sem metáforas shakespereanas nem experiências sonoras black country, new roadianas. Fazer música fácil e agradável. Sim, só isso. Eu sei que parece uma ideia completamente esgrouviada, saída de um paciente em solitária na Júlio de Matos, que não sente o toque de outra pessoa há quase dez anos. Porém, foi aí que a música começou. Quando um homo erectus bateu com uma pedra numa caveira de um mamute (provavelmente um antepassado direto de John Bonham) e pensou: “Sons que faz sentir bem”. É reconfortante encontrar, nos dias de hoje, um álbum que seja só isso.