A noite passada, um trio maravilha levou-nos ao céu por uns momentos. Yan-Gant Y-Tan, Gregg Kowalsky e Jon Porras tomaram controlo da Galeria Zé dos Bois durante duas horas e meia para a levar a níveis estratosféricos.
Noite sensasónica na ZDB. Para ambientar os tímpanos, o português Yan-Gant Y-Tan fez uso de guitarra e pedais para tecer uma malha de texturas líquidas e apaziguadoras, a fazer lembrar William Basinski no seu genial Watermusic II (2003). Brechas de luz, vislumbres sombreados, o som respirado e sereno de um verão calmo. Vento, água, lentamente as partículas se agitando num uníssono luminoso. Yan-Gant Y-Tan maravilhou e brilhou, fazendo-nos entrar num caldeirão tranquilo de memórias esbatidas e esvoaçantes.
Na apresentação do recente L’Orange, L’Orange (2017), Gregg Kowalski synthonizou os nossos ouvidos, apresentando-nos diferentes propostas de sons e silêncios ambientalmente unidos. Calmos drones eram pontuados por ocasionais ruídos e interrupsons cor-de-laranja, essa cor tão própria do género fundado por Brian Eno. “That’s the color I started to hear when I mixed these tracks”, diz-nos Kowalsky na apresentação do seu último trabalho. E pelas linhas turvas da sinestesia vimos e ouvimos esse laranja.
Por fim, a John Porras coube a tarefa de nos dar a estalada final. Um drone antropológico iniciou a viagem, pontuado por notas madeiradas, vindas de uma marimba perdida numa floresta tropical. A chuva na floresta foi-se intensificando até chegar a um apocalipse gentil e lentamente desolador. A água que pacientemente aguardava em cima das folhas das palmeiras caiu e fez estrondo, fez estrilho e reverberou. Torrentes de um rumor gentil faziam também estremecer e vibrar as paredes da sala e dos corpos presentes. Completamente absortos nos sintetizadores que nos rasgavam, reminiscentes das construções modulares de M. Geddes Gengras, Porras suspendeu-nos no som com um vibrato ruidoso que oscilava ora mais rápido ora mais lento, até alcançar a calmaria.
Coros digitais futuristas trouxeram-nos finalmente ao mundo real, no qual tentámos digerir tudo aquilo que nos tinha sido oferecido durante duas horas e meia. Saímos gratos, inevitavelmente contemplativos e serenos. Que bonita noite.
Fotos gentilmente cedidas por Laís Pereira.