Se eu, na última década evitei ouvir Godspeed You!, Black Emperor, não foi por desdém, mas sim por, pura e simplesmente, receio.
Era o inicio do milénio e eu encontrava-me no Garage, se bem me lembro discoteca horrível em Alcântara, para ouvir os GY!BE. À minha volta, a fauna intelectualóide de Lisboa, com livros do al berto nos tira-colos, miúdas de franja a 1/5 da testa, uns brancos de rastas – mas tudo ainda que sem vestígios de tatuagens. Havia malta impaciente a ir buscar cerveja ao bar – algo que achei não ir ao encontro da dignidade do concerto que íamos experienciar. Depois, imagens de Super 8 foram projectadas, cheias de grão e interessantes, muralhas industriais sónicas ergueram-se – a banda tinha imensos músicos, incluindo dois bateristas. Foi circular e intenso.
Desde então não os procurei muitas vezes, subconscientemente preferindo os menos pessimistas Do Make Say Think ou até os, por comparação radio-friendly, Mogwai. Não encontrei diferenças fundamentais entres uns e outros, todos utilizando uma espécie de fórmula pós rock: melodia simples (2 a 4 notas), começa discretamente, acrescentam-se camadas, o noise da distorção das guitarras adensa, metem-se uns violinos, o crescendo atinge um climax, regressando à calmaria inicial, como quem, após a ejaculação, retorna ao telemóvel à procura de notícias do Ruben Amorim.
É precisamente assim que começam as primeiras faixas do último álbum chamado “NO TITLE AS OF 13 FEBRUARY 2024 28,340 DEAD”, título inacreditavelmente pós-moderno ainda que usando estatística do Hamas, e inicialmente fiquei decepcionado. As faixas iniciais caíram na memória que tinha de todas as outras dos discos anteriores. Não levem a mal, prefiro isto a Lewis Capaldi, mas ainda assim irritou-me a petulância de tentarem fazer algo tão grandioso, com tantos músicos, mensagens políticas corajosas, imagética crua, títulos impossíveis de memorizar etc para acabarem numa obra indistinguível das anteriores. Se há coisa que procuro sempre na música é novos horizontes, e este disco começou por me soar a deja vu.
Foi então que cheguei à “PALE SPECTATOR TAKES PHOTOGRAPHS” (que basicamente engole a anterior “BROKEN SPIRES AT DEAD KAPITAL”, paisagem sónica de algo que correu muito mal). A frase melódica desta peça é simples mas mais longa que o costume, na verdade reminescente de melodia arábica, e estruturada num ritmo 7/8, sendo que a pesada percussão inicial entra em 3/4, uma arritmia irresistível. A peça adensa mas de maneira muito menos previsível que as outras deles, com pequenas variações da frase principal, os vários instrumentos que se juntam parecem tocar coisas diferentes, ainda assim de alguma maneira encaixando perfeitamente. Estamos no território de Madmax, se tivesse sido escrito por August Strindberg, onde nos escombros de um apocalipse, nas praias de Gaza, um ancião demencial toca, em loop, um acordeão estragado.
A valsa “GREY RUBBLE GREEN SHOTS” é igualmente potente, evocação de melodia infantil dotem po do Salazar, orquestrada por um Marquês de Sade em delírio febril. É por estas 3 faixas que a obra vale mesmo a pena. Esta merda é aliás tão boa que revisitei as outras obras dos Godspeed. São brutais. A minha memória estava errada. Se eu na última década evitei ouvir Godspeed You!, Black Emperor, não foi por desdém, mas sim por, pura e simplesmente, receio.