Reeditado muito recentemente, The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp merece a nossa atenção. Um disco histórico, que a história nunca considerou devidamente.
Giles, Giles & Fripp foi uma banda de curtíssima duração. Nos finais dos anos sessenta, os irmãos Peter Giles e Michael Giles juntaram-se a Robert Fripp e gravaram um disco. Sobre esse documento sonoro, o mínimo que sobre ele se pode dizer é que se tratou de um álbum bizarro. Bastante, até. Nele encontrávamos canções e, um pouco à maneira de Monty Python, digamos assim, momentos cómicos de spoken word nos interlúdios. O nome que o trio deu ao projeto é bastante revelador do seu conteúdo: The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp. Dá para ficar com uma ideia, certo? Eram outros os tempos, e uma coisa parece clara, acima de qualquer outra. O disco foi um fracasso de vendas e tal coisa não se alterou até hoje, mesmo tendo sido feitas algumas reedições ao longo dos tempos. No entanto, The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp tornou-se um álbum de culto. Por falar em reedições, é fresquinha aquela que nos leva a estas linhas, desta vez com um pequeno pormenor inusitado. A edição de 2025, da DGM Panegyric apresenta-nos apenas as canções, o que favorece a audição deste classic that never was, ou que, melhor dizendo, se foi tornando.
Um ano e um mês depois de The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp ter saído (13 de setembro de 1968), um dos irmãos Giles e Robert Fripp lançavam In The Court of the Crimson King, que muitos consideram ter sido o primeiro álbum de rock progressivo da história da música, mas aí a conversa é já outra. Voltemos, então às canções de The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp. O disco está dividido em duas partes, sendo que o lado A se intitula “The Saga of Rodney Toady”, e o lado B “Just George”. O primeiro comporta 8 temas, o segundo apenas 5. São, ambas as partes, uma mistura de muitos ingredientes sonoros. Há rock psicadélico, há pop, jazz, folk e até algumas passagens que dão ao álbum um tom mais clássico, de música clássica, entenda-se. Nada de espantar, tendo em conta o disco dos King Crimson que viria a seguir. O que é curioso, nesta autêntica amálgama de estilos, é o facto de se perceber que o trio Giles, Giles e Fripp ouvia atentamente o que se fazia na altura, por isso não é de estranhar influências distintas, que vão dos The Beach Boys (menos) a Syd Barrett (um pouco mais), passando inevitavelmente pelo famoso quarteto de Liverpool (plenamente). Há, em The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp, canções de finíssimo recorte melódico, como são os casos de “One In a Million”, “North Meadow” ou “Thursday Morning”. Nestes casos, a pop dos Beach Boys e dos Beatles transparece. Em “Call Tomorrow”, “The Crukster” e “Elephant Song”, por exemplo, é o génio excêntrico do louco de Cambridge que vem ao de cima. “Suite Nº1” é música clássica pura (mais lá para o meio do tema até Bach nos vem à cabeça), terminando o álbum com a bela “Erudite Eyes”, em que Robert Fripp mostra os seus dons de guitarrista, como aliás vai fazendo em todas as 13 canções de The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp.
The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp é um trabalho curioso. Bastante datado (e o que acabámos de mencionar é tudo menos um juízo de valor), não deixa de ser verdade que nos deu um enorme prazer ouvi-lo. Ouvi-lo e vê-lo, uma vez que a capa encerra, em si mesma, um imaginário que, de algum modo, reflete muito bem o seu interior. Por vezes, sabe bem regressar ao passado.