Dançámos, gritámos e fizemos cardio. O MIL foi uma miríade de emoções, reflexões e músicas que nos fizeram relembrar que a música emergente está cá e tem muito a dizer.
Estava calor e o ar vibrava com o som que saía da Casa Capitão na passada quinta-feira, dia 9. Ao chegar, questionamo-nos se não haveria uma batalha de bandas de que não estivéssemos a par, tal era a intensidade do que vinha de cada uma das salas desta edição do MIL Lisboa.
A intensidade, o pesado e a energia abundante foram conceitos que se mantiveram presentes naquele e nos restantes dias deste festival de música nova. Embora o conceito da edição de 2025 se tenha mantido inalterado – trazer artistas emergentes dos quatro cantos do mundo para fazer showcases de 45 minutos – a novidade este ano foi a localização. Desde a pandemia que a convenção MIL, uma espécie de websummit do mundo da música, já acontecia no Beato mas este foi o primeiro ano em que a outra metade do evento, os concertos, se mudaram também de armas e bagagens do Cais do Sodré para a recém inaugurada Casa Capitão.
Se, por um lado, ter as salas todas do festival a curta distância umas das outras nos pareceu uma vantagem inegável, sentimos algumas saudades da qualidade de som que nos era assegurada quando o festival funcionava nas várias salas de concertos do Cais do Sodré. Se antes tínhamos música em espaços feitos para receber música, agora encontrámos um grande contraste entre as salas desenhadas para ter concertos (salas sótão e rés-do-chão, por exemplo), e os espaços aproveitados para o efeito (palcos praça e fornos). Sentia-se, também, um vazio nos espaços comuns e nas salas de concertos, vazio esse que se foi desvanecendo com o aproximar do fim de semana. Se nos primeiro dias sentimos que o público presente era sobretudo composto por artistas e profissionais da área do espetáculo vindos diretamente da convenção, na sexta e no sábado vimos crescer em número um público mais diverso e mais disponível para testemunhar todas as showcases, tanto as desconhecidas como aquelas que os tinham feito comprar o bilhete, o que é, afinal, o propósito deste evento.
Rock is the new black

Estreamos o festival com Travo, a banda bracarense que começa, não por tocar notas musicais, mas accionar uma explosão de decibéis que nos empurram o peito para dentro e nos obrigam a expirar qualquer ar que os nossos pulmões teriam guardado. Socos no estômago e outras aflições à parte, a energia dos Travo é inegável. Entre o baixo hipnótico e as guitarras distorcidas em loops analógicos, deixam o público a suar ao fim da primeira música. Abrindo a terceira música do alinhamento, tivemos direito a laivos de Led Zeppelin, faltando só os berros de Robert Plant para nos enganarem. Uma belíssima demonstração de hard rock se alguma vez vimos uma. Seguiram sem parar praticamente o concerto todo, maratonistas e sprinters. Os Travo tocaram músicas novas e antigas para um público sedento por mais.
Igualmente pesados foram os 800 Gondomar, banda de Rio Tinto, que também veio marcar presença no campeonato do rock, desta vez, na sexta-feira. Não sabemos qual foi o critério por trás da escolha de palco para cada banda mas não pudemos deixar de notar a ironia de ter o rock sujo e desbragado dos 800 Gondomar a ressoar pelas paredes do palco Praça, que mais não era do que um restaurante com aspirações finas, localizado mais longe do recinto principal. Sem se incomodarem muito com as condições de som sub-ótimas, a banda entregou, desde o início do concerto, uma energia (perfeitamente) mal contida que rapidamente contagiou a plateia. Tivemos moches e crowd surfs que fizeram abanar de forma preocupante os candeeiros do teto do restaurante e sentimos mesmo estar ali a presenciar a depuração do rock-diy. Este palco, que parecia pequeno visto de fora, acabou por ser gigante com eles.
Já os Veenho tocaram cedo na quinta feira, numa sala cujo tamanho fazia notar a ainda tímida plateia, pormenor que não pareceu perturbar a banda. Dá ideia que os Veenho tocariam da mesma forma, estivesse o espaço a rebentar pelas costuras ou completamente vazio. Ensimesmados, os quatro elementos falam pouco e deixam o seu rock lo-fi energético contrastar com a sua timidez. Todo o concerto foi pautado por um constante ruído de distorção, entrecortado por refrões rápidos e letras difíceis de discernir. Ao olhar desatento, os Veenho podem parecer caóticos mas, a verdade é que a energia despreocupada e algo awkward que emanam exige uma certa precisão e sensibilidade. As canções são curtas e sucederam-se rapidamente, a maior parte vindas do excelente Lofizera, de 2023. A exceção foi “Sentimental”, canção nova com data de lançamento prevista para Novembro, também ela lo-fi-rock-urbano-sensível, tudo certo. O concerto acabou numa jam mais longa em que o baixo guiou o caminho por entre a distorção das guitarras, tendo-nos guiado a nós também para a paragem seguinte.
Não podemos falar de um festival virado para o rock e para guitarras distorcidas sem falar também de Cortada. Tocaram no sábado, também demasiado cedo, mas tiveram a vantagem que não calhou aos Veenho de ter para si um espaço mais pequeno e íntimo, onde a intensidade e o calor rapidamente nos fizeram esquecer que lá fora o sol ainda brilhava. Autores de um dos discos portugueses do ano, a banda lisboeta fez questão de mostrar no Mil que merece o burburinho de que anda a ser alvo. O concerto foi, portanto, intenso e suado, intensidade e suor esses claramente notórios no incansável baterista e no vocalista que acabou o concerto a cantar deitado no chão da sala (sem desprimor para os restantes membros que, apesar de se encontrarem mais longe de nós, acreditamos que estariam em igual esforço). Quanto à setlist, foi um gosto voltar a ouvir canções já conhecidas, como “GP de Everywhere”, “1234” ou “Cortada” mas também uma nova, da qual não temos a certeza do nome mas cujo refrão era algo como “faço cosplay de straight edge”, um conceito que nos pareceu muito alinhado com a restante obra.
Finalmente, no campeonato do rock, falta uma mui honrosa menção aos Marquise. Estes eram uma das bandas que mais queríamos ver nesta edição do Mil e portanto foi com algum desconsolo que constatámos os problemas de som, não percebemos se da sala, se da montagem, se de um pouco das duas. De uma coisa tivemos a certeza, a culpa não era da banda, que entregou uma excelente performance apesar das interrupções. A voz límpida de Mafalda Matos serviu de farol no meio da distorção e guiou o público devoto cada vez mais entusiasmado pelas canções de Ela Caiu, de 2025. Foi bonito assistir ao moche que começou pequenino mas foi abrindo e acabou por ocupar quase a primeira metade da plateia. Com a exceção do entusiasmo que testemunhamos na apresentação de AJULIACOSTA (que muito nos surpreendeu) esta foi das poucas vezes durante todo o festival em que sentímos a energia de fãs que foram até ali para ouvir aquele artista em particular, completamente movidos pelo amor à música.
O cartaz contou ainda com o rock pesado dos suecos Family Man e dos portugueses Hetta, talvez os que melhor trabalham o género de momento em Lisboa e arredores, e com o noise distópico e inflexível dos Hirahira Violence Club mas temos de confessar que os nossos ouvidos já desejavam alguma diversidade (e descanso).
A electrónica que abanou paredes

Do lado da eletrónica o assunto não foi mais leve, talvez com a excepção de Pedro da Linha que surpreendeu com a formação live act com dois instrumentistas. Fora de um simples DJ set (nada contra, somos grandes fãs), fomos surpreendidos com beats construídos no momentos em parceria com os seus dois camaradas de palco, onde se tocaram guitarras, pandeiretas e trompetes. Foi o primeiro contraste do festival com a restante tonalidade. Pedro da Linha apresentou uma sonoridade que é como quem diz MPTS mas com um toque diferente, ainda mais trabalhado. Tivemos ainda direito a um remix com a voz de Manel Cruz, que embora menos dançável, não foi menos impressionante. Dançámos e lavamos o paladar com algo diferente pela primeira vez no festival.
Ainda dentro do âmbito de dançar a ouvir algo diferente, foi no palco Fornos que pudemos ouvir os jovens da linha de Sintra, RS Produções. Já os conhecíamos de outras andanças e foi feliz ver este grupo de tanto potencial num palco novo. Apesar de ainda ter um longo caminho pela frente, o grupo já põe a plateia a dançar com um novo som de afro-beat, mas bastante mais eletrónico, um afro-byte, com ritmos mântricos que impelem o movimento.
Tivemos também Yard, o conjunto irlandês que mais se assemelha a tecno que a punk, um filho ilegítimo de ambos. Sempre com uma intensidade de prego a fundo, letras imperceptíveis mas poderosas e um ritmo que nos fez sentir no piso de baixo do Lux num sábado à noite, se fosse a noite punk. Com laivos de Prodigy e sem nunca pararem, os irlandeses transformaram a purga em dança e movimento, fazendo-nos esquecer por momentos que estávamos numa sala no beato e não numa discoteca berlinense.
Afinal, havia outra

Como quebra deste mood que parecia dominar sobre o festival, aparece Roy Borland, o músico e compositor espanhol que proporcionou um dos concertos mais bonitos do festival, um dos poucos em que os pés tiveram o seu merecido descanso e pudemos sentir o chão frio da Sala dos Fornos, o palco mais interessante do evento com pinturas de azulejos nas paredes, demonstrado o trabalho de campo da apanha do cereal que viria um dia dar o pão. Roy Borland encantou-nos com uma voz celestial e um domínio de guitarra que fazia com que parecesse fácil. Além da sua voz, também tinha um excelente sentido de humor e cedeu tempo de concerto para criar empatia com o público, contando histórias e dando contexto ao seu trabalho, uma troca mais que justa, falando do ponto de vista de quem gostou muito de o ver. Uma dessas histórias foi a de Canto a la luna, cujo título original era Canción de las Setas devido a um incidente envolvendo cogumelos e passeios na floresta à noite. Deixamos a imaginação fazer o seu trabalho com esta.
O Mil Lisboa foi também uma das paragens da dupla brasileira Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro na sua mini tour portuguesa, tudo com o propósito de mostrar o novo disco, Handycam, editado este mês e distribuído por cá com a ajuda da Cuca Monga. Sem grandes pretenções e indo diretos ao assunto, os dois artistas apresentaram-se: “Eu sou a Sophia Chablau. E eu sou o Felipe Vaqueiro. E juntos somos Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro”. Mais uma vez, foi para nós um alívio depararmo-nos com um concerto mais calmo, sem ser, obviamente, menos interessante. Foi com gosto que nos sentámos nas primeiras filas e ouvimos as canções de intervenção que Sophia e Felipe fizeram juntos, deixando-nos levar pelo diálogo das suas duas guitarras enquanto eles nos falavam de amores e desamores, indo do pequeno e quotidiano, até ao universal, ao político, ao urgente. É sem dúvida um disco importante, que surge numa altura em que é crucial não nos esquecermos que a cantiga (ainda é) uma arma.
Não falaram muito (“para caber no tempo”) mas ninguém na sala Unicórnio, que ficava cada vez mais cheia, parecia ligar a isso, embalados que estavamos todos, ora pelas harmonias destes dois nomes grandes da nova música independente brasileira, ora pelos dotes na guitarra de Felipe, ora pelos teclados brilhantes de Sophia.
O nosso último concerto foi o de Romeu Bairos e que forma de fechar em chave d’ouro. O açoreano com A maiúsculo deu tudo naquele que até agora tinha sido o palco mais difícil do festival, o palco Praça. Juntava-se a multidão antes da hora do concerto à porta para ter lugar para ver e ouvir o fenómeno de São Miguel. Este concerto presenteou-nos com tudo, desde uma referência a Bad Bunny no fim de Braços onde o cantor admite que deveria ter tirado mais fotos até ao seu mais recente lançamento, o cover de Bebe & Dorme de David Bruno, “O John Snow português” como disse Romeu – “Ele não morreu, só o mandaram lá para fora da muralha”.
Sempre intimista e com grande conexão com o público, Romeu desce do palco com o seu acordeonista, pede para “abrirem uma rodinha” e tocam em conjunto, sem amplificação, baixinho de forma a que todos ouçam. Voltou ao palco porque se iam tocar notas importantes. Ouve-se Os Bravos de Zeca Afonso, que o público acompanhou de pulmão cheio.
Fechou com uma “introspectiva para vos mandar embora”, já fora de tempo de concerto mas a pedido de muitas famílias. Cantando para dentro da guitarra, fez-nos reflectir sobre aquele momento. Acompanhado de palmas e assobios, grita “Fuck the police comin’ straight from the underground” e sai.
Conclusão
Fechamos o MIL com várias reflexões e sentimentos sobre o estado da música na atualidade, em especial a música emergente. Desde o primeiro dia que temos uma mensagem muito clara presente, há revolta no coração de quem cria. Gritos que podem ser subtitulados com “Muda de vida!” ecoam em todas as salas que passámos. Será este um reflexo correcto do que é esta música nova, estes músicos novos, actualmente? Será esta música uma consequência directa da pressão da precariedade nas suas vidas, da indústria? Não deixa de ser uma daquelas infelizes coincidências que todos estes espetáculos estejam a acontecer longe do centro da cidade e na terra de unicórnios de Carlos Moedas, cujas medidas tanto contribuem direta e indiretamente para essa mesma precariedade e, infelizmente, são só uma direção municipal que segue tantas outras por este país e mundo fora. Por outro lado, sempre se viu que música pesada aparece em tempos pesados, tempos de inquietação. Será esta curadoria também um sinal inevitável das guerras a que somos testemunhas e pelas quais passamos? Será que a melancolia amorosa não tem espaço quando há crianças a serem mortas impunemente? Citando Carrie Bradshaw, I couldn’t help but wonder… Será o cantautor um conceito para tempos de paz?
Texto por Ana Lúcia Tiago e Mak
Fotografias por Felipe Kido





























