Durante três tardes e três noites a grande sala de estar da Bota encheu-se de gente! Durante três dias e 18 concertos houve tempo para tudo. Para bailar, para sentar, para cantar as letras e gritar a plenos pulmões, para o mosh e para o silêncio! Tudo para ouvir, ver e testemunhar o talento de outra gente … gente bonita, que encheu o palco, os nossos ouvidos e os nossos corações.
emergir
(e·mer·gir) | verbo intransitivo
- Sair de onde estava mergulhado.
- Despontar, elevar-se, como se saísse das águas.
- Assomar, manifestar-se.
- Acontecer; ocorrer; resultar.
- [Física] Sair (de um meio depois de o ter atravessado).
“emergir”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/emergir.
Com o objetivo de nutrir a nova geração da música independente portuguesa, a sétima edição do Festival Emergente recolheu ao ninho da Bota para dar palco (e todas as condições técnicas e emocionais) aos doze projetos musicais selecionados a partir de um total de 134 candidaturas recebidas no open call Super Emergentes 2025. Respeitando o desígnio de promover a diversidade estética, o júri do Emergente escolheu 12 propostas muito diferentes entre si, desde o Rock alternativo à hyper pop, passando pelo alt country, pelo R&B e pelo Hip Hop. Em cada uma das seis sessões do Festival, uma banda convidada apadrinhou um par de super emergentes, garantindo um fantástico equilíbrio entre jovens e super jovens e estimulando ainda mais o interesse do público, ao ponto de esgotar a lotação da Bota ao longo de praticamente todo o certame.
Dia 1 – Sessão da tarde
Foi precisamente na Bota, há mais de 2 anos e meio, que a Inóspita entrou no nosso radar. Ficámos logo encantados e desde aí devoramos o seu segundo disco e voltámos a encontrá-la no Lux. Inóspita inicia a sua atuação sozinha em cima do palco, mas basta a primeira canção para percebermos o quão ela parece ter crescido desde a primeira vez que a vimos. Ao invés, a timidez foi encolhendo e a guitarrista parece cada vez mais solta, tão solta que a momentos jorra pela sua guitarra fora com os dedos ao sabor da alma e da garra. Na segunda parte do concerto, José Anjos (voz e guitarra) e Pedro Antunes (bateria) sobem ao palco e tudo cresce ainda mais, sobretudo a magia! Destaque ainda para “Asas de borboleta” – um diálogo super intenso entre guitarra e bateria, ou terá sido entre almas gémeas?
Seguiu-se a primeira proposta a concurso, RT-FACT é o nome do projeto de Francisco Dias, um produtor musical oriundo do Barreiro, que anda a rodar pelo subsolo desde 2012. Eletrónica ambiental com muito sentido de ritmo (reforçado pelo drumpad e pelos timbalões e pratos orgânicos) que o músico vai malabarizando com os teclados e demais parafernália eletrónica. Como que aproveitando o ambiente chill preparado pelas atuações anteriores, Bernado Ramos entra em palco de roupão de banho rosa, mas atenção, o clima vai mudar … até porque o líder dos canalzero também transporta uma boneca insuflável. Já estávamos avisados, mas nem por isso preparados para o que se seguiria. Se me permitem o exagero, os canalzero propõem-nos o equivalente sonoro do símbolo da Levi’s, com a estrutura clássica do pop rock a fazer as vezes das famosas calças de ganga, esticadas para um lado pela cavalaria disruptiva da distorção e para o outro por criaturas pop sobrealimentadas a bebidas energéticas e algodão doce! Escrever que o concerto foi interessante seria quase insultuoso. Intrigante parece-me o adjetivo mais indicado. É espreitar “popstar” e demais singles disponíveis nas plataformas para tirar teimas ou para ficar agarrado.
Dia 1 – Sessão da noite
Voltamos do jantar retemperados e um pouco mais calmos, nem damos conta que no palco, às escuras, Monika Cefis aguarda deitada pelo início do concerto. E é mesmo assim, na horizontal, que dá início à sua atuação. Mokina (nome artístico) e companhia apresentam-nos um blend doce e cheio de groove de jazz, soul e música alternativa muito apoiado na beleza da voz. Segue-se a primeira enchente de fãs. Os Mão Cabeça andam por aí a cativar ouvidos e corações desde 2021 e assim se explica uma sala cheia a cantar em uníssono os refrões … e não só! É que é, precisamente nas letras e nas melodias vocais que o quarteto chama primeiro à atenção. Apoiada sobretudo no EP Mão Quente, editado em maio de 2025, a atuação dos Mão Cabeça foi crescendo em intensidade e envolvência.
Para fechar o primeiro dia de festival, a organização do Emergente convidou os Divã e essa aposta revelou-se vencedora. Solto das trelas de banda suporte e com mais um ano e tal de estrada do que na primeira vez que os vimos, o quinteto sediado na Amadora pegou nos temas do seu EP de estreia, Filho Pródigo (2024) e foi tecendo uma atuação com doses reforçadas de poesia suada e de libertinagem introspectiva. Um prazer para os ouvidos, um chocolate para a alma … venham mais dois dias assim!
Dia 2 – Sessão da tarde
O segundo dia arrancou com o intimismo promovido por Malva, vencedora do Emergente de 2023. O público sentou-se para num silêncio monástico, apenas interrompido por rajadas de aplausos, contemplar a belíssima voz, e já agora, pelo fantástico recém adquirido assobio. Acompanhada pela super emergente Beatriz Madruga (guitarra elétrica) e por Catarina Estácio (guitarra acústica), mostrou-nos canções dos seus dois discos, vens ou ficas (2023) e, principalmente, de poros (editado no início de 2025), em que alia os seus atributos vocais a letras super inspiradas e algo humorísticas!
O primeiro super emergente de sábado foi o rapper MARKZS, nome de artes de Marcos Júlio, um lisboeta de gema e rima. Muito nervoso, pela estreia no festival e, adivinho eu, pela diferença de contexto, foi-se soltando à medida que percebia o entusiasmo causado na plateia. Baseando-se nas faixas do ainda fresquinho EP Sir Noir (2025), os andamentos foram variando até à saturada em groove “Na minha mente”! Com o público já conquistado, MARKZS finalizou o seu set com um tema feito de propósito para o Festival.
Reincidindo na atualidade, mas guinando na estética, seguiram-se os roadkill, um quarteto cujo som vai passeando entre o shoegaze e o indie folk de tonalidades contemporâneas, onde encaixa ainda muito bem o contraste de texturas causado pela utilização de vários efeitos sintéticos. Destaque muito positivo para a belíssima voz de Nia Fernandes.
Dia 2 – Sessão da noite
Confesso que andava convencido que as Lesma seriam uma das bandas convidadas pela organização e só no próprio dia é que percebi que faziam parte dos super-emergentes. Eu tenho desculpa, atenção! O mais-do-que-power trio de moças, cuja origem é explicada (… ou não) numa das suas canções mais conhecidas, foi só a banda que mais vezes vi em 2025. Esta foi a quinta! A evolução desde fevereiro é imensa. A crueza, a irreverência e a energia juvenil continuam lá, se é que não foram reforçadas, com o aumento de rodagem em estrada. Punk rock no seu melhor, ou seja, na atitude sem freios, na pica desbragada e na ausência de vergonha (xiii, que palavra feia)!
Na que terá sido, muito provavelmente, a sessão mais explosiva de todo o festival, os Mangualde agarraram o testemunho da (boa) maluqueira deixado pelas Lesma! O trio do Porto eleva a agressividade sónica mais uns graus e dá-lhe com tanta força nos instrumentos quanto no conteúdo lírico! Há provocação na forma como se comportam e há sarcasmo e revolta no conteúdo. Para além dos temas do seu primeiro EP Época de Caça, editado já no último trimestre de 2025, a banda mostra-nos alguns que farão parte do primeiro longa duração, esperado para 2026, deixando-nos já de ouvidos aos saltos.
Chat GRP foi a banda escolhida para encerrar a noite e … perfeição! O ano a acabar como começou, uma das minhas bandas preferidas em cima dos palcos … mesmo que insistam em matar o meu primo Pedro (é muito afastado, não se apoquentem) de cada vez que tocam. Com a transferência milionária (ouvi dizer a um engenheiro) de José Rego para os Máquina, Micas (Reia Cibele, Throwness, Deathclean, e sabe-se lá mais que outras bandas fantásticas que ainda hei-de descobrir) assumiu as quatro cordas e o papel de rastilho da banda de forma para lá de espetacular. Com o depósito da 4L atestado de combustível a jato, demos uma volta até ao espaço e arredores. É difícil aterrar depois de um concerto destes … mas tem mesmo de ser, que amanhã há mais!
Dia 3 – Sessão da tarde
E lá peguei voo outra vez, assim sem aquecimento e com pouco aquecimento. Quando a tarde arranca com os bbb hairdryer, não há outro remédio! Não há outra solução! Cada concerto desta banda é uma celebração … uma missa para quem a santíssima trindade é constituída por guitarra, bateria e baixo! Independentemente da velocidade com que Chinaskee acaricia a bateria ou dos decibéis que vão saindo dos amplificadores – e acreditem, tanto uma coisa quanto a outra variam entre o 8 e o 8000 – a intensidade está sempre lá nos vermelhos e eu posso jurar que se ouve sempre os batimentos cardíacos de Elisabete Guerra. E é sempre devastadoramente bom!
Roda o palco! A primeira super emergente do dia é a açoreana Inês Falcão, ou melhor, Falcona e o seu pop que podemos decorar com os prefixos que preferimos electro, dance, synth, hyper … é escolher! Apoiada na eletrónica por Lucas Sousa (dos roadkill), Falcona embrenhou-se pelos temas que compõem MCFalcona9500, o seu EP de estreia editado há poucos meses, e foi derretendo o público das filas da frente. Sweet!
E no doce ficámos! Mas agora sem aditivos, leia-se sem efeitos sintéticos. Só uma guitarra e um amplificador. Denoto aqui um padrão. Beatriz Madruga senta-se em palco e o público senta-se à sua frente – já tinha acontecido ontem, durante a atuação de Malva e repete-se hoje no seu próprio concerto enquanto super-emergente. Não é caso para menos, precisamos mesmo de conservar toda a energia dentro de nós para apreciarmos a beleza das suas composições e deixarmos a alma vaguear com elas. Para a última prometeu barulho e uma pista para direções futuras. Barulhinho bom, já diria a Marisa, do qual ficaremos à espera.
Dia 3 – Sessão da noite
Quando, no passado mês de maio, os vi pela primeira vez no Vortex, fiquei com a forte sensação de que haveria de os voltar a ver em breve. Não estava era à espera que fosse tão cedo e, principalmente, com um estrondo tão grande. Os Adoro Protocolo arrasaram a sétima edição do Emergente, levando para casa o prémio de Melhor Projeto Musical e de Melhor Concerto de 2025. Há uma enorme componente cénica que nos transporta para um filme noir sobretudo ao colo da voz rouca de Carolina Rebelo e do saxofone de Bruno Tavares. É nesse cenário que a tensão se vai acumulando para depois ser libertada em jorros sónicos que fundem post-punk, rock, jazz e noise. Estes moços merecem e precisam de atenção, de emergir … e é isso que farão no futuro próximo! Estejam atentos!
Seria pouco honesto convosco, no entanto, se não vos contasse que a atuação super-emergente que mais me impressionou foi a dos Parque Império! Não terei sido o único, pois a par da Beatriz Madruga, foi-lhes atribuída uma merecidíssima Menção Honrosa. O meu primeiro instinto foi mergulhar-me nas lembranças, no post punk versão tuga dos Sétima Legião ou até do pop iluminado do António Variações. A bateria grave e sincopada, o acordeão e as letras vociferadas até ao milímetro mais imo dos pulmões do Chico Apolónio traz-nos essa portugalidade, essa coisa que transcende bandeiras ou outro qualquer símbolo de valor subjetivo, e que se concretiza na nossa vida terrena, nas agruras da luta, numa herança cultural difícil de catalogar. No entanto, rapidamente emerjo ao presente … à forma muito própria, super personalizada, como o quarteto do Porto tritura, assimila e nos devolve as correntes mais atuais do mesmo post punk com arranjos viciantes e cavalgadas antémicas que colocam o público a cantar em uníssono. Juro que depois de “Educação Flop” sonhei que a Bota seria o ninho da próxima revolução!
Infelizmente, foi apenas um sonho! Não podendo fazer a revolução lá fora, façamo-la dentro de nós! E quem melhor que os Máquina para nos torcermos, para baralharmos as entranhas, fecharmos os olhos e deixar-nos levar pela maré pulsante da multidão em êxtase. Com a rodagem que este trio maravilha tem, não é à toa que deverão ser a banda que mais passou pelas páginas virtuais do Altamont nos últimos dois anos. Cada concerto é uma festa, cada parágrafo uma tentativa de descrição do delírio. Venham cá espreitar quando vos apetecer, mas não podem mesmo é perder a oportunidade de se perderem num concerto!
Texto: Rui Gato || Fotografias: Gonçalo Nogueira e Rui Gato













































































































