A propósito do lançamento do seu novo álbum e do concerto de apresentação marcado para a ZDB no fim do mês, o Altamont sentou-se à conversa com Éme para falar da beleza de falhar, de escrever canções e para perceber se afinal dá ou não para viver na Lisa.
Não parece, mas já foi há quase 12 anos que saiu Último Siso, o disco de Éme que nos deixou a todos a cantar “Viver na Lisa não dá, não dá não”. Desde então, discreto, mas seguro, João Marcelo tem-nos mantido bem saciados de canções com refrões gulosos, desde a sua primeira aventura com banda no estupendo Domingo à Tarde, até ao concetual Disco Tinto, passando pela doce maravilha que é Éme e Moxila, o disco pandémico que fez a meias com Mariana “Moxila” Pita. Colegas de Trabalho, lançado a 30 de janeiro, vem agora juntar-se à lista e, não estivéssemos já conquistados pelas primeiras audições do novo disco, a conversa que tivemos com o artista numa chuvosa tarde de terça-feira só nos deixou com mais vontade de ouvir e difundir o novo trabalho de Éme.
Não é preciso entrarmos muito em Colegas de Trabalho para percebermos que este é um disco um pouco diferente dos últimos – “42”, a canção que o abre, já é representativa o suficiente. Mantém-se Éme, em excelente forma, narrador omnisciente que canta sobre personagens que podem ou não ser reais, mantém-se o apoio indispensável de Moxila, mas os arranjos são mais cheios, dando à canção uma força que nos leva de volta a Domingo à Tarde. O cantautor explicou-nos que foi mesmo esta a canção que esteve na génese desta nova banda, ou destes novos “colegas de trabalho” – Nós já andávamos a tocar com a Francisca [Aires Mateus] mas não tínhamos secção rítmica, de todo. Por isso, eu congeminei uma linha de baixo para a “42” e no iPad fiz um bombo e umas tarolas, uma emulação de bateria. Depois montei aquilo toscamente e a ideia original era o [João] Oliveira (que misturou os discos anteriores) tocar. Também temos o nosso estúdio, o estúdio da Cafetra, então surgiu a possibilidade de gravar uma coisa sem ser em casa, e pelos nossos próprios meios. Já tinha visto o Kellzo trabalhar numa sessão da Maria Reis e, como ele é residente lá no estúdio e muito do material é dele, chamei-o. Depois lembrei-me que ele também é um grande baterista e quando ele começou a tocar aquilo que eu tinha montado ficou fantástico logo à primeira, ficou outra coisa completamente diferente. Aí eu toquei o baixo e ficou uma secção rítmica, e eu e a Mariana pensamos que isto tinha de ser a ideia do disco, seria um disco de banda. Entretanto, ganhámos a GDA, o que nos deu algum dinheiro. O Romeu Bairos, com quem já tínhamos tocado, gravou espontaneamente uma linha de baixo para a “La Feria” e para a “Até para falhar tenho um plano” nessa mesma primeira sessão, e ficámos assim, connosco os quatro a tocar e o Oliveira a gravar, ficou o esqueleto. Entretanto o Romeu, ocupado, não conseguia estar a tempo inteiro, portanto pensei na Carol Rodrigues, que é o do Colectivo GRAVV.. Portanto o Romeu só gravou aquelas duas na primeira sessão, e a segunda sessão, que foi bastante tempo depois, já foi com a Carol, que gravou os outros baixos quase todos.
Perceber que teria de ser um disco de banda, com arranjos completos para todas as canções, mudou a ideia original do conceito que Éme tinha pensado para o disco – No início era para ser um álbum emo, sobre losers, falhados, mas o conceito acabou por se tornar muito mais musical, um álbum de uma banda pop-rock. Aliás, isso até é o que me leva ao título, o meme «co-worker music», música genérica, tipo Coldplay. Eu pensei que gostava de fazer um disco de «co-worker music».
Embora nos pareça que a escrita de Éme tem humor a mais e tragédia a menos para fazer boas canções emo, a verdade é que o fio condutor do falhanço não deixa de ser notório. Em “42” a personagem é claramente um falhado embora pareça haver um certo retirar da culpa nos versos “há sempre uma desculpa p’ró que um gajo faz, contra o destino até eu sou incapaz”. Em “Pendente” ouvimos “Eu tento, eu juro que tento, mas ultimamente o meu melhor é insuficiente, sinto-me o falhado-mor das ilhas e do continente” e na saga em duas partes narrada em “Colega de Trabalho #1 e #2”, o herói da canção falha até no simples intento de ser despedido, acabando com uma promoção. O narrador de “Até para falhar tenho um plano” parece ser o mais em paz com a ideia de erro quando diz que “errar é bacano, dá aquele ar humano”, mas não será isto apenas uma estratégia para lidar com a inevitabilidade do falhanço?
Éme confirma o seu “falhanço” em evitar fazer um álbum concetual – Eu não fiz de propósito, ao contrário do disco anterior, este álbum não era para ser um álbum concetual, temático. Eu pensei, desde o início, numa espécie de ideia de determinismo, porque há uma inerência de culpa no falhar e eu gostava de tirar essa ideia e substituí-la por uma ideia de causalidade. É que as pessoas não têm culpa, elas são o que lhes foi atribuído à nascença e são também as circunstâncias em que estão. É como se não tivessem agência, no fundo. O que eu percebi com a “42” é que, de facto, aquela personagem não tem remédio, mas também não tem um problema assim tão grande, é o que é. Parece que as escolhas dele não são muito importantes no que lhe acontece. Na “Pendente”, ele não sabe se está doente ou se é uma falha de carácter, há sempre essa dicotomia escolha/não-escolha.
Há um outro fio condutor em Colegas de Trabalho, que, na verdade, é comum a todas as canções de Éme. Todas elas contêm histórias contadas com a proximidade de quem as observou de perto, fazendo uso de uma simplicidade quotidiana que é bonita por ser verdadeira. O músico continua, assim, a aprimorar neste disco o storytelling que já tinha começado a praticar nos anteriores. “Cruzeiro” ou “Coiote” levam-nos de volta ao amor relaxado de Éme e Moxila com versos como “Olá, queres casar? Perguntaste-me a seguir ao jantar, loiça toda por lavar. Claro que sim, enfim, passas-me o comando?”. Já em “Bullies” ou “La Féria” comovem-nos as duras observações introspetivas que nos deixa a cantar alegremente no refrão – “e tenho imenso medo de acabar assim, alegre pra todos e triste pra mim”.
Quando perguntámos o que motivava a sua escrita de canções, se a prática diária ou a inspiração momentânea, Éme explicou-nos que considera a escrita o seu principal ofício – tenho tido uma prática que é todos os dias, num mini-caderninho, escrevo whatever, não importa a duração, qualquer coisinha, e fica no caderninho pequenino até encher. Depois passo para um caderninho maior as coisas que eu gosto mais. Eventualmente, quando tiver uma ideia para uma melodia, tenho lá no caderninho algumas ideias que podem ser acendalhas para outra ideia. Depois é tentar avançar e ser consequente. Uma coisa que eu percebi nos últimos anos é que escrever músicas não é assim tão difícil, ou seja, podem não ser as melhores canções de sempre. No início, com o Último Siso e com o Domingo à Tarde, era muito «tenho de fazer a melhor canção de sempre» e com o Éme e Moxila, um bocado por causa da atitude da Mariana perante a arte no geral, percebi que «pá, está tudo bem», não é assim tão difícil, é só levar as coisas a cabo.
Embora nos tenha dito que lida bem com os percalços do passado, percebemos que outra coisa que pode servir de acendalha no processo criativo é alguma ponta solta que tenha ficado do disco anterior e que agora lhe pareça menos bem conseguida. Quando lhe perguntámos se se sentia mais próximo de conseguir um “disco perfeito” e se já não tinha medo da página em branco, Éme respondeu simplesmente – Eu estou bué confortável com ser uma merda. Sendo ou não sendo, a eventualidade de ser uma merda não me assusta nada. Não tem mal nenhum. Quem me dera que as pessoas estivessem ok com fazer coisas merdosas e publicá-las, acho isso bué fixe. Então, tu não tens medo da página em branco quando não tens problema que não saia bem. Já fui bastante perfecionista, mas isso não me angustia mais porque, por um lado já não quero fazer uma canção assim tão perfeita, e por outro lado também estou a acreditar que o volume e as experiências de escrita vão-me levar eventualmente a conseguir criar melhor as coisas mesmo boas, e as não tão boas.

Também na produção este disco continua um percurso iniciado em Éme e Moxila e continuado em Disco Tinto. Ao contrário dos primeiros, que eram produzidos por B Fachada, este volta a ser produzido por Éme e por Moxila. Sobre essa experiência e sobre como é que ela difere de ter um produtor, o artista falou-nos da sua insegurança mas também do seu entusiasmo com os lugares (em termos criativos, uma vez que nos garantiu que não tem grande interesse em produzir discos de colegas, pelo menos não sozinho) onde a cadeira de produtor o pode levar – essa questão marca uma diferença muito grande porque o [B] Fachada é uma pessoa que sabe imenso de música, que tem uma visão artística mesmo muito firme e que tem um olho clínico para as falhas e para como é que tu consegues fazer melhor. É um grande produtor e ele ajuda-me desde o início, eu levo-lhe o esqueleto da canção. Então, quando sou eu e a Mariana a produzir, é uma sensação gigantesca de insegurança. Quando eu produzi com o Fachada ele conseguia ver os defeitos todos, o que até é uma coisa que pode custar um bocado, mas depois quando tu voltas para trabalhar e para melhorar vês o efeito e tens a sensação de que as coisas ficam mesmo impecáveis. Quando sou eu próprio e a Mariana sinto que o outcome fica muito diferente, embora a Mariana também tenha um olhar clínico. Sinto que podemos abrir alguns caminhos que eu não conseguiria abrir se fosse sempre o Fachada a produzir. Ou seja, se for ele a produzir eu sei que vai ficar bué bom porque ele é um produtor genial, mas lá está, se eu fizer merda vou aprender com ela e vou conseguir fazer um outcome diferente e encontrar outros tipos de voz.
Foi uma mistura entre escolha e circunstâncias, a razão que levou o duo a assumir a produção deste disco em parceria. Falámos também da paz de trabalhar em grupo, coisa que teve de fazer bastante nesta que foi uma produção bastante mais exigente do que os seus dois últimos trabalhos – Eu não sou bom crítico, não sou bom a encontrar o defeitozinho. Preciso sempre de muita ajuda, gosto muito mais de trabalhar em grupo, sinto-me muito mais tranquilo do que trabalhando sozinho. Como eu e a Mariana produzimos juntos, é um esquema que está montado. Acho que nós já estamos a fazer arranjos fixes e a conseguir pensar nas coisas dessa maneira.
Sobre influências, começámos por falar na admiração de Éme por Bright Eyes e em como, no início do processo de escrita de Colegas de Trabalho (quando ainda ia ser um álbum emo), pensou em fazer algo nesse comprimento de onda, coisa que acabou por não se verificar – estava a ouvir muito Bright Eyes e estava a ficar reminiscente daqueles 20s, finais da adolescência, «quero bué fazer este ambiente», mas depois chego lá e não. Mais uma vez, eu já escolhi montes de coisas para fazer e depois aquilo que eu acabo por fazer, não tem nada a ver o que eu de facto gostaria. Acho que até é fixe. Se eu conseguisse imitar Bright Eyes teria sido muito mau.
Um pouco mais tarde na conversa, Éme chamou a atenção para o facto de, pela primeira vez, ter ido buscar inspiração não só a bandas que admira e colegas mais velhos que fizeram coisas antes dele, mas também a músicos bem mais novos que estão a fazer coisas contemporâneas – por exemplo, no final da “Colega de Trabalho #1”, aquilo sou eu a tentar imitar uma dinâmica que eu vi em c-mm, de as coisas irem super abaixo e criar essa surpresa. A “Colega de Trabalho #2” vem de eu ter feito um concerto no Barreiro com a Anaís, ela é mesmo muito boa. Reparei na afinação que ela estava a usar e como já tinha usado aquela afinação nos tempos do Gancia, voltei a ela e fiz essa música nessa afinação porque vi a Anaís tocar. Portanto fico bué contente que os mais novos me estejam a ensinar cenas. A pessoa fica contente de estar aqui. Eu sinto que estes putos são tão bons ou melhores do que nós eramos, o Fachada tinha muito para nos ensinar e eu não tenho nada para explicar a estes miúdos. Eles são muito bons, adoro, sou fã puro. Portanto foi o primeiro álbum em que eu consegui pegar não só em pessoal mais velho, em pessoal da Fetra, no Fachada, também acho que já roubei bué ao Jorge Cruz, Ninivitas, essas cenas, mas agora também tenho os putos para roubar e isso é fixe.
Finalmente, falámos sobre se ainda se sente em casa em Lisboa, se em 2014 eramos felizes e não sabíamos e se, afinal, dá ou não para viver na Lisa. Éme respondeu-nos citando “Bomba-canção” de Diabo na Cruz – eu sinto-me um “parolo da cidade”, sou um bimbo daqui. Claro que quando vou passar um fim de semana a um sítio qualquer mais pequeno penso sempre «aqui é que se deve viver bem», mas a cidade ainda tem muitas coisas. Eu ainda vou aos concertos, ainda vou ao cinema, a cidade não é tão grande que eu não consiga combinar um café com um amigo ou outro. São essas bolsas de gente que fazem coisas e que fazem a pessoa ter vontade de ficar aqui. Ver malta nova que pega nas coisas que vamos fazendo tal como nós pegávamos nas merdas dos que vieram antes, continuar a haver pessoal que pega nas coisas e que faz para a frente, é uma coisa inevitavelmente fixe e que me deixa contente. Mas eu tenho dificuldade em imaginar-me fora daqui, sou mesmo parolo de Lisboa.
É precisamente em Lisboa que Éme apresentará Colegas de Trabalho com a sua banda. Será no próximo dia 27 de fevereiro, na Galeria Zé dos Bois – Vamos tocar o álbum, isso é certinho, o álbum será todo tocado, portanto aquelas pessoas que depois vêm e dizer “nunca tocas esta”, se curtirem o álbum e quiserem ouvir alguma específica, agora é o momento para vir. Vamos tocar mais algumas de Éme e Moxila e do Disco Tinto e vem a banda toda. Para abrir vamos ter duas primeiras partes, a Sallim e a Orca e também a banda Felizes Para Sempre que junta pessoal dos GRAVV., é a Carol, a nossa baixista, o Diogo (c-mm) e o Jarda (Heroína, Máquina de Fumo), e depois DJ set até à noite, vai ser uma noite bem completa. Estou excitado, a banda está boa, acho que as coisas resultam bué bem com a secção rítmica, o Kellzo é muito diferente da última vez que tínhamos tido secção rítmica, que era a Júlia [Reis]. A Mariana e a Francisca conseguem fazer ali uma cena de violino e de flauta bué bonita. Está bué diferente do outro formato banda, mas estamos prontos, acho que vai ser incrível, por favor venham!
Em Colegas de Trabalho conseguimos sentir a evolução artística de Éme, que tem conseguido, sem se repetir, manter-se fiel à sua matriz e construir sobre ela. Que bom é ouvi-lo, juntamente com o conjunto de pessoas talentosas de que sabe sempre rodear-se, a cantar as suas crónicas e a tecer os seus refrões que, mesmo passados tantos anos e tantos discos, continuam a conquistar-nos. Ansiamos por ouvir os arranjos da banda completa ao vivo e por cantar com eles as canções novas e as antigas com igual entusiasmo. Lá estaremos todos nós, os parolos da cidade, para ouvir estes simpáticos colegas de trabalho.
Fotografias de Raquel Montez Raimundo cedidas pelo artista