Comecemos pelo princípio, que é sempre uma boa maneira de começar. Ouvi a voz de Elza Soares, pela primeira vez, no já distante ano de 1984. Ela surgiu aos meus ouvidos sem que estivesse à espera, ou sequer preparado para ela. Na última canção do disco Velô, o imprevisto álbum roqueiro de Caetano Veloso da década de 80, e no tema “Língua”, o poder vocálico da sambista carioca disparava versos como “Flor do Lácio Sambódromo / Lusamérica latina em pó / O que quer / O que pode / Esta língua?” de uma maneira totalmente inusitada, sobretudo por via daquele fricativo frasear enrolado que tão bem a caracteriza. Depois, e durante muitos e muitos anos, nada mais soube dela nem da sua carreira. Mas, para dizer a verdade, ficou-me uma certa curiosidade sobre essa enigmática figura que aterrou no disco do meu adoradíssimo baiano e que tanto me impressionou naquele tão longínquo momento referido. Fui, já neste novo século, sabendo que se mantinha ativa, até que há dias (e novamente com grande surpresa) chegou-me aos ouvidos A Mulher do Fim do Mundo. A voz parece a mesma, embora com a aspereza que o tempo inevitavelmente vai trazendo. Elza está de volta, e dificilmente se poderia esperar um disco assim de uma artista com 86 anos de idade e 56 de atividade discográfica.
Elza Soares teve tudo menos uma vida fácil. Para que se tenha uma pequena ideia, aos 20 anos Elza tinha já 5 filhos. Mais tarde, quando se relacionou com o histórico Garrincha, os problemas continuaram. Foi acusada de ter casado por interesse, e teve de aguentar alguns anos em que até ameaças de morte recebia por parte de parte da sociedade brasileira. No entanto, a voz do milénio, como chegou a ser considerada pela BBC, resistiu a tudo e foi continuando viva, bem viva, como o seu trabalho deste ano mostra de maneira inequívoca. Tão inequívoca, que não hesito em considerá-lo, desde já, um álbum histórico.
A Mulher do Fim do Mundo é um disco denso, mal comportado, sujo, rasgado, avesso a delicadezas, tanto no som como na palavra usada. Samba, rock, rap, mangue, tudo se encontra nas 9 canções do álbum. É um trabalho muito urbano, claustrofóbico por instantes, agressivo no jeito sonoro que apresenta e nos temas que convoca, como a violência doméstica, por exemplo. “Cê vai-se arrepender de levantar a mão pra mim”, da canção “Maria da Vila Matilde (Porque Se a da Penha É Brava, Imagine a da Vila Matilde ) é um verso que sintetiza algum do horror de certas vivências urbanas. Já em “Luz Vermelha”, o inferno que se adivinha é mais do que evidente, e pode muito bem ser enunciado assim: “O mundo vai terminar num poço cheio de merda”. O que se percebe é que Elza, como quase sempre, volta para cantar as favelas e as vidas que nelas (sobre)vivem. Elza volta para cantar o espaço que tão bem conheceu, o espaço que a (de)formou, o horrível espaço sem horizontes de futuro, e por isso não seria de esperar um disco certinho e cheio de brilhos e purpurinas. Antes pelo contrário. A sonoridade surge distorcida, indevida, sombria, com palavras feias, como se pode perceber pelo título da canção “Pra Fuder”. Mas o disco diz-nos também do passado da raça negra, que vem sofrendo desde sempre, que vem de longe em forma de “navio humano, quente, negreiro, do mangue” (“Coração do Mar”), a faixa de abertura de A Mulher do Fim do Mundo, que é também título da mais bonita canção do álbum.
Elza Soares continua a ser o furacão que sempre foi, só que agora aparece mais amarga do que nunca. Curiosamente, esse azedume é uma das coisas mais doces que fui ouvindo este ano, trazidas do outro lado do oceano.