Earl Sweatshirt agraciou-nos com a sua presença pela terceira vez em Portugal para a chamada “3LWorldTour” depois de passar em 2022 no Primavera Sound Porto e em 2024 no LAV.
Desde a chegada ao LAV que foi claro que havia uma expectativa muito grande para receber o artista e celebrar o excelente álbum Live Laugh Love (2025).começando logo pela fila (quase) interminável de pessoas que chegava para lá da entrada do espaço, chegando à Avenida Marechal Gomes da Costa.
Com uma casa bem cheia, o concerto começou com a primeira parte a cabo de Jadesea, um rapper londrino, a saber aguentar um público expectante, com um set curto e intenso, sempre a puxar pelo público, com muitos “Lisboooon” pelo meio.
Ao assistir ao concerto, pensei “haverá assim tantas diferenças entre um concerto de rock e um de hip hop?”. Não, um concerto é um concerto. O sentimento é o mesmo: catarse coletiva. Pode não haver guitarras em distorção, há uma mesa de mistura e um DJ de serviço, não vimos mosh pits furiosos, mas houve comunhão, refrões partilhados e apreciação mútua entre artista e plateia.
Assim que Jadesae termina, sob aplausos, Earl entra sem demoras (ainda mais aplausos). Arranca logo ritmado, com “gsw vs sac” (Live Laugh Love), de forma segura e confiante. A sua presença em palco não é muito expansiva, há uma contenção, mas é forte e entusiasma o público.
A voz de Earl Sweatshirt (grave, de barítono sólido) continua a ser o instrumento central, acompanhado por um DJ que segue o seu ritmo, sem perder um beat. Ao vivo, confirma-se a densidade que marca os discos: cadência arrastada, dicção clara, uma entrega que parece pesar cada palavra antes de a largar. Não é um performer explosivo; é um comunicador introspectivo.
O público sabe as letras. Todas. Não há hesitação nos versos mais densos, nem nos refrões menos óbvios. A setlist é composta sobretudo por músicas do mais recente álbum, mas também há espaço para recuperar músicas de Voir Dire (álbum com the Alchemist), Doris e Some Rap Songs.
Assistir a um concerto de Earl Sweatshirt é assistir a alguém a se expor com uma vulnerabilidade crua, rappando (cantando?) sobre demónios universais verbalizados com clareza quase clínica. A julgar pelo entusiasmo do público, mesmo quando se notava algum cansaço por parte do artista (relembrando que era o último concerto de uma World Tour), foi uma experiência feliz para todos.
Num panorama onde o hip hop ao vivo parece ser cada vez mais um espetáculo hiperproduzido, o que assistimos nesta noite, com esta contenção e simplicidade, confiando apenas nos beats, melodia e voz, foi uma experiência mais crua e, talvez por isso mesmo, mais verdadeira.
Fotografias de Vera Marmelo














