Em I Built You a Tower, os Death Cab For Cutie voltam a um território conhecido: o da melancolia, reconciliação e mudanças inevitáveis.
Crescimento pessoal é perceber que a vida não acontece num vácuo. E os artistas não são excepção – em pleno 2024, Ben Gibbard e companhia andavam há dois anos em tour mundial de celebração dos 20 anos de Transatlanticism dos Death Cab For Cutie e Give Up dos Postal Service. Como pessoa que assistiu a esse concerto em Lisboa (MEO Kalorama, 2024), posso dizer com certeza que foi um magnifico momento de nostalgia, sem ser chato, ou aborrecido. Foi sim uma celebração muito bonita e feliz, com uma banda também visivelmente contente (foi mesmo um concerto incrível).
Sabemos nós agora, por entrevistas espalhadas pela internet, que o frontman dos DCFC estava em plena rotura com a sua agora ex-mulher (com quem esteve casado 10 anos). Não terá sido fácil andar em tour, proporcionando experiências bonitas, ao mesmo tempo que o seu mundo pessoal desabava. Vida adulta é mesmo isto: ter de trabalhar, mesmo quando estamos no lodo (um aborrecimento).
Diríamos que a inspiração deste 11º álbum dos Death Cab For Cutie, é uma composição de momentos de vida que acontecem sobrepostos: um divórcio a acontecer, rotinas que se desfazem e se reinventam, vazios inescapáveis e recomeços trémulos. É um disco que parece existir nesse espaço intermédio entre o que terminou e aquilo que ainda não sabemos bem no que se vai transformar.
Com uma história que começa em 1998, com o álbum Something About Airplanes, a pressão para evoluir para um som mais maduro, mas que se mantenha fiel à sonoridade da banda é grande. Pelo meio da sua existência, criaram álbuns incríveis (Transatlanticism e Plans), mas também há uns quantos que, perdoem-me a onomatopeia, mas são “meh” (não vou nomear, oiçam vocês).
Este I Built You a Tower é um pequeno voltar às origens: mais guitarras e menos sintetizadores, com letras mais maduras (obrigada, Ben Gibbard, por conseguires nomear sentimentos de forma tão tangível como em “I tried to mend these broken fences, You claimed I’d built a wall, That I’d obstructed all your exits” de “Full of Stars”).
Há espaço para músicas mais melancólicas, como “Trap Door” (“There’s a trap door in your heart, Where everyone disappears, When they reach to pull you near”), que tem uma sonoridade mais electrónica, bem ao estilo de Transatlanticism. Ou canções mais a puxar à cena rock como “How a Heavenly A State”, ou “Punching the Flowers”, onde a voz bonitinha de Gibbard se contrapõe de forma interessante com as guitarras.
Os Death Cab For Cutie são uma banda que tem construído o seu caminho de forma meio irregular (há quem diga que a vida é mesmo assim, meia torta), mas brilham quando perdem o medo de assumir este lado mais melancólico e sincero (também há quem lhe chame emo…).
I Built You A Tower é, portanto, um álbum que se assume como uma reconciliação, tanto com o passado, como com as suas inevitáveis mudanças. É um disco maduro e vulnerável, sem ser necessariamente arrebatador. Parece-nos que é uma metáfora bastante convincente do que poderá ser a vida adulta: menos oscilações, mais tranquilidade e aceitação, e braços abertos para o que possa vir.