Dois dias depois do seu regresso triunfal aos discos e do seu sexagésimo nono aniversário, morreu David Bowie. Batalhava há 18 meses contra o cancro, sucumbindo na noite fatal de 10 de Janeiro.
Augurou mais mudanças do que qualquer outro na música popular. Começou como um cantor de folk que vestia vestidos. Anunciou-nos a perda do querido herói Major Tom. Foi depois um extraterrestre de cabelo laranja chamado Ziggy Stardust, que tocava rock pesado e sentimental e que se metamorfoseou em Aladdin Sane. Foi também o Thin White Duke, um homem que vivia num mundo a preto e branco e obcecado consigo mesmo – “a nasty character indeed” diria Bowie sobre o Duke. Foi The Man Who Fell To Earth no filme de Nicholas Roeg’s. Viveu em Berlim na década de 70, onde se operou uma gigante mudança na sua música, em parte graças a Brian Eno e Tony Visconti. Foi Pierrot em Ashes to Ashes, Jareth, o Rei dos Goblins e não deixou escapar a oportunidade de ser o Elephantman na Broadway. Nos anos 90 não passou de “Just The Singer in Tin Machine”, um cantor numa banda como tantos outros e no final da década tornou-se numa estranha personagem que mergulhou no Drum n’ Bass e na música industrial, com Trent Reznor. No final tivemos Bowie, o homem, em The Next Day e Bowie, o jazzman em Blackstar. Desde os anos 60 e para sempre, teremos Bowie, o Camaleão.
Cantou-nos Brecht, foi actor de cinema e teatro e cantou na Broadway. Fez-nos acreditar que o drama pode ser tão importante como a música e que há sempre espaço para nos reinventarmos. Nicholas Ray fez História do cinema ao realizar o filme “Bigger than Life”. Nenhum título se adequa mais a Bowie que este.
Até sempre.
