Canção do dia

“Chega de Saudade” – João Gilberto

(Esta semana o tema são despedidas. Primeiro a quatro músicos que morreram este ano. E o quinto adeus é a um senhor que anunciou que vai deixar de cantar. Deixamos aqui as nossas homenagens.)

No violão de João Gilberto cabia o Brasil inteiro. Ternura, ritmo e sensualidade fizeram deste o músico mais respeitado do Brasil para as gerações que lhe seguiram, incluindo aquela que veio dar os melhores músicos pop que o Brasil já teve.

Gilberto começou a gravar em 1951, aos 20 anos, às vezes em nome próprio, outras a tocar para quem lhe pedia. Em 1958 dá-se momento definitivo da sua vida e um momento pivotal da música brasileira: munido de um violão, poema de Vinicius de Moraes e composição de Antonio Carlos Jobim, João Gilberto gravou a canção mais importante do bossa-nova – “Chega de Saudade”.

São menos de dois minutos de beleza infinita, com um ritmo inebriante e complexo composto por Jobim que serve de cama para que Gilberto desenrole por entre a sua língua e lábios as palavras de Vinicius, derretendo corações a cada segundo.

A “Chega de Saudade” seguiu-se “Desafinado” e Gilberto ficou com o Brasil na palma da mão. Milhares de jovens pegaram no violão e alguns deles até conseguiram moderado sucesso, como Chico Buarque ou Gilberto Gil, ou Caetano Veloso. Este último escreveu inclusivamente: “melhor do que o silêncio só João”.

Para o fim da carreira foi mais odiado do que amado. Quem o ia ver queixava-se por o mestre pedir que o deixassem cantar baixinho, por proibir o ar condicionado que lhe desafinava o violão e faltava a eventos. Escondeu-se em casa e acumulou dívidas.

Morreu a 6 de Julho de 2019, aos 88 anos. Nos últimos anos de vida ficou em casa a tocar para as paredes as canções perfeitas como só ele sabia fazer.

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