A cantora americana dá-nos um disco com várias canções muito fortes e que explora novas rotas no seu caminho de descoberta.
O mundo reparou em Cassandra Jenkins em 2021, aquando da edição do seu segundo álbum, An Overview on Phenomenal Nature. O mundo e nós, que de tal forma ficámos conquistados que votámos esse mesmo disco como o melhor do ano.
O que é curioso é que esse trabalho foi uma espécie de último esforço antes de Jenkins desistir de uma carreira na música e se dedicar a qualquer outra coisa que lhe pagasse as contas. Mas algo nesse disco bateu fundo nos ouvintes mais atentos, e os planos, felizmente, mudaram de imediato. “Estava a canalizar o que conhecia nesse momento, o sentir-me perdida. Quando esse disco saiu e as pessoas começaram a responder ao que eu tinha escrito, os meus planos para desistir foram derrotados da forma mais inesperada e generosa. Pronta ou não, isso revigorou-me”, explicou a cantora na sua página de Bandcamp.
Agora que a temos connosco para ficar, a expectativa era naturalmente alta. Seria o disco anterior uma espécie de jóia fortuita, uma combinação irrepetível de factores? Ou algo de substancial em termos do que poderiamos esperar desta nova voz da canção americana?
A resposta chega agora com My Light, My Destroyer. Que, diga-se desde já, não nos conseguiu arrebatar da mesma maneira que An Overview on Phenomenal Nature, mas nos sossegou noutro sentido: não há dúvida, temos aqui artista para continuar a seguir por muitos e bons anos.
A primeira coisa que nos salta à vista é um menor domínio do registo alt-folk do trabalho anterior, dando lugar a uma maior proliferação de estilos. Isto vem acompanhado com uma produção claramente mais cuidada, sente-se mais “presença de estúdio”, até nos arranjos, algumas vezes a lembrar toques dos anos 80. Não se assustem: primeiro estranham-se, depois entranham-se, e nunca chegam a ser foleiros.
Temos aqui canções pop no melhor sentido do termo; temos rock a cheirar a 90’s, uma novidade; temos pop-ambient; temos os costumeiros e adoráveis interlúdios jazzísticos e incorporando gravações de conversas ou da natureza; e temos até uma canção que lembra o melhor que Taylor Swift já fez (agora é que os críticos indie vão ficar zangados!), na balada “Omakase”.
Cassandra Jenkins já tinha começado a escrever o seu terceiro disco, mas as coisas não estavam a sair. Por isso, parou, regressou a Nova Iorque, deixou-se inspirar e depois tudo saiu de forma fluida. Apesar das mudanças e do relativo sucesso do segundo álbum, há sem dúvida uma continuidade emocional face ao que veio antes. Jenkins é magnífica na escrita de músicas e letras que nos falam de solidão, contemplação e espanto perante as coisas grandes e pequenas deste nosso mundo. É como se nos estivesse sempre a conduzir – sem pressas nem afirmações demasiado directas – pelos caminhos dos seus sentimentos, com uma imagem marcante: uma mulher, de costas, só, olhando o horizonte.
Os grandes destaques são o arranque, com a lindíssima e tipicamente Cassandra Jenkins “Devotion”, uma canção desarmante de simplicidade folk com arranjos subtis e muito inteligentes; o pop-rock de “Clams Casino”, uma verdadeira “canção pop” como não a tínhamos ouvido fazer; a estranha beleza de “Delphinium Blue”, toda ela lenta, plástica e digitalmente sombria, um exercício de ambient-pop inteligente e de bom gosto a cheirar à 4AD dos anos 80; a enorme canção alt-country de “Aurora, IL”, a cidade onde interrompeu uma digressão quando apanhou Covid, em 2022; e a pérola de cantiga pop que é “Only One”, com direito a refrão direitinho e viciante e tudo, repleta de sensualidade e que se desdobra, bonita e insinuante, lentamente, à nossa frente.
Em termos de músicas, canções pura e duras, My Light, My Destroyer é talvez até mais forte que o seu magnífico disco anterior. Mas a dispersão estilística também traz perda de coesão e um ou outro tema menos conseguido. Mesmo para nós, que somos fãs, este é um trabalho que – para lá das canções fortes, verdadeiras âncoras – leva mais tempo para nos conquistar. Mas chega lá, sem dúvida, e as recompensas valem bem o caminho.
Temos artista, temos voz, temos uma personalidade que, com este álbum, mostra que tem muitos caminhos à disposição do seu talento. Cá estaremos, com gosto, para continuar a segui-la.