Fez, há dias, cinquenta e cinco anos o mais delicioso disco de Carole King, o icónico Tapestry. Decidimos, em boa hora, soprar-lhe as velas, em forma de justíssima homenagem.
Tapestry não é uma manta de retalhos. Nem sequer é um título enganoso, como talvez possa parecer. É uma melodiosa odisseia pela vida adulta, pelo lado feminino da existência, sem cedências a visões oníricas de qualquer ordem. Aqui, nada se fantasia. É como se a solidão das paisagens urbanas de Edward Hopper estivesse povoada por uma voz que canta as vulnerabilidades de um tempo que não se restringe a datas ou locais, porque diz respeito à fragilidade perene da condição humana. Como se percebe, um disco desta particular dimensão deve ser ouvido com a estima e o respeito que merece. Para mais, fez cinquenta e cinco anos no passado mês de janeiro, pelo que, parece-nos perfeita a ocasião e a perspetiva de podermos celebrá-lo durante os meses que se seguem.
Tapestry é, todo ele, icónico. Nada lhe falta, desde a capa até ao último suspiro de “(You Make Me Feel) Like a Natural Woman”, a faixa derradeira do álbum. Em cinco décadas e meia, muita memória se perde ou se transforma, mas também acontece o contrário. Há imagens que persistem gravadas a ferro e fogo nas nossas mais recônditas emoções, como a recordação exata da primeira vez que vi Tapestry. A beleza sombria da fotografia de Jim McCrary tirada na casa de Carole King, em Laurel Canyon, agrada-me até hoje. Nela está a artista, descalça, junto a uma larga janela. Depois, há a expressão fixa de Telemachus, o gato da compositora, olhando para a câmara, olhando para nós. Uma mulher, um gato, ambiente à média luz, ingredientes que sugerem uma bela história e um belo disco.
O piano marca presença em todas as canções de Tapestry, assim como alguns solos de guitarra, como bem se notam na inicial e cheia de groove “I Feel The Earth Move”. Irresistível, aquele “tumblin’ down” que logo depois se esvazia um pouco, em “So Far Away”, para dar lugar a uma maior solenidade, a uma mais clássica composição, tão à maneira de Carole King. Em “It’s Too Late” volta a haver mais espessura (a parte instrumental é linda!), enquanto se canta sobre o fim (sem culpas ou culpados) de uma relação. Quanto a “Home Again”, toda ela é perfeita, mas faça o que lhe dizemos (quase em segredo), para que seja só nosso esse momento: ouça em repeat os trinta e três segundos instrumentais, lá para o meio da canção, e nunca mais se esquecerá deles na vida. Depois, o quase cansaço físico e emocional de “Home Again”, por estranho que possa parecer, revitaliza qualquer um. “Beautiful” reconhece a importância de acordar com um sorriso na cara, mesmo que o mundo nos exija o contrário. É um hino à capacidade que temos de seguir em frente, por muito que isso custe, até porque “you’re beautiful” e isso, por vezes, é já o bastante. “Way Over Yonder” é blues visceral com uma pitada de gospel bem disfarçada, sobretudo pelo coro que mal se ouve durante algumas partes do tema. Sobre “You’ve Got a Friend” pouco haverá ainda a dizer, tirando o óbvio facto de ser ainda mais clássica do que qualquer outra canção de Tapestry. Não será a amizade uma intemporal manifestação de amor supremo? Claro que sim, e a canção é sobre isso. Sem rodeios ou metáforas supérfluas. “Where You Lead” é enérgica e mais um hino a uma espécie de liderança emocional que se sente quando se ama alguém. E o que dizer dos dias seguintes, dos dias após os mais marcantes momentos de intimidade? Ouça-se “Will You Love Me Tomorrow” e saberão a resposta de Carole King, que pode ser – é melhor avisar – inquietante e intimidante, ao mesmo tempo. “Smackwater Jack” é espirituosa, alegre, algo contrastante com a maior parte dos temas de Tapestry, ben-u-ron que mitiga um pouco as dores da existência. Depois, o penúltimo tema, que dá nome ao disco, intenso, contemplativo, filosófico, como se a voz que nos conta e canta fosse Cloto, a deusa que tece os fios das vidas que inevitavelmente se entrelaçam, mais cedo ou mais tarde. E, como se costume dizer, não há duas sem três, neste caso em referência aos hinos, anteriormente mencionados. “(You Make Me Feel) Like a Natural Woman” encerra Tapestry mostrando que o amor, na perspetiva feminina, é sempre mais forte do que possa parecer, sobretudo porque revelador de uma identidade que não se submete a qualquer outra, antes prevalece, orgulhosa, do percurso traçado.
Tapestry faz-se de tudo isto e de tantas outras coisas que o tornam um clássico absoluto. E quando é disso que falamos, podemos sempre lembrar Calvino, que escreveu um dia que os clássicos “nunca acabam de dizer o que têm a dizer”. Agora, é transferir a ideia literária para a música e verão que é o que acontece com esse monumento sonoro chamado Tapestry.