Lisboa assistiu à estreia do segundo disco dos Cara de Espelho: punhos no ar e música intensa, numa sala inteira incapaz de desviar os olhos do palco. Na Culturgest, a solenidade habitual deu lugar a uma noite de festa.
A união de talentos nos Cara de Espelho resultou numa das bandas mais pertinentes da atualidade em Portugal. Colocam o dedo na ferida. E há tantas feridas abertas e purulentas na nossa sociedade que o papel da banda se torna, simplesmente, fundamental.
A Culturgest quase esgotou para o primeiro grande concerto no novo disco B, e sala era uma mistura de pessoas diferentes, mas, no fundo, todas ali pelo mesmo motivo. A banda chegou e o palco já estava carregado de instrumentos, sobretudo flautas e outros inventos de Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, e uma cadeira branca. A cadeira acabou por ter um papel cénico decisivo: assim que entra, Mitó chuta-a. Um aceno às célebres quedas de cadeiras que, em tempos, mudaram o rumo do país?
Os novos temas sucederam-se sem palavras desnecessárias pelo meio a distrair. Tal como no disco anterior, este trabalho não precisa de mais do que as palavras dos poemas que acompanham cada música. Mas ainda, houve espaço para alguns temas do primeiro disco, recebidos com entusiasmo por um público que claramente já os conhecia de cor e os pedia internamente.
As canções dos Cara de Espelho, obras de arte da cabeça de Pedro da Silva Martins, têm, para além de estrofes rendilhadas e complexas, refrães que vivem de repetições e que se tornam quase manifestos dentro de nós. Ao vivo, essas palavras ganham uma força capaz de derrubar a solenidade da Culturgest. Vieram punhos no ar, coreografias que faziam corar alguns na sala e até quem se levantasse para dançar, porque, como diz a banda, “triste é quem fica a ver dançar”. A energia do público refletia-se na música, ou vice-versa, e a densidade por vezes quase caótica desta, aliada aos movimentos dos músicos em palco e às poses teatrais da grande Mitó, tornava impossível desviar os olhos do que ali acontecia.
E como se mede um grande concerto? Pelo número de encores. Aqui foram três. Ninguém deixava a banda sair do palco, e o último encore acabou por ser uma repetição. Também isso é sinal de uma grande noite.
Com as luzes já acesas e o público ainda em êxtase, a voz-off assumiu-se, lançando recomendações em tom de piada em várias línguas. Risos e aplausos ouviram-se na sala, encerrando a noite com a mesma energia e irreverência que os Cara de Espelho trouxeram ao palco desde o primeiro minuto.
Fotografias gentilmente cedidas por Vera Marmelo









