Basta uma singular escuta para aceitar que o segundo single de Vespertine, o primeiro disco do presente século da misteriosa cantora islandesa, é o seu derradeiro magnum opus. “Pagan Poetry” perfura o coração de uma forma da qual o ouvido não se consegue fartar. Desde a melodia de caixinha de música, aos baixos que fazem estremecer tudo em redor, à harpa delicada – e, principalmente, àquele que é o maior trunfo da cantora: a sua voz, que ultrapassa o seu aspeto franzido e inofensivo, uma voz maior que nós todos, uma voz que nunca mais ninguém conseguirá reproduzir por muito mais que os anos passem e se continue a fazer música.
Quando, ao segundo verso, Björk explica “he offers her…a handshake”, a sua voz treme e faz com que as cabeças do público se inclinem para a frente, agitados de medo e de curiosidade para compreender o significado desta frase quase sussurrada. Mas a música cresce, cresce, cresce, explode, e, perto do final, Björk perde a timidez e deixa para trás os sussurros: não se limita a gritar – a sua voz assemelha-se mais a um animal selvagem a uivar a lua, urra com todas as forças, sentimos as suas cordas vocais a estalar de uma fúria não identificada, perdidos nesta canção que reúne em menos de seis minutos uma enciclopédia de amor, exotismo, sensualidade, medo, curiosidade, emoção. E pensamos: quem canta poemas tão bonitos de uma forma tão extraordinária nunca se devia calar.