O coletivo artístico e editora Gravv decidiu celebrar a periferia, colocando os artistas no centro … da cidade e do Musicbox. C-mm, Joana Guerra e Bruno Brites espalharam Gravvilha pela sala e dela sacaram notas, acordes e poesia.
Ao entrar na ainda vazia sala do Musicbox, saltam à vista os instrumentos espalhados pelo chão, ali mesmo à frente do palco … onde me costumo “instalar” para fotografar as bandas. Não, não cheguei cedo demais, nem a coisa está atrasada. É mesmo assim! A disposição é essa, e não sabendo se terá esse o objetivo, a experiência resulta num ambiente mais acolhedor.
A noite Gravvilha arranca com Bruno Brites instalado num dos lados daquela instalação, atrás de uma mesa com alguma maquinaria eletrónica e um pc que ostenta a enigmática etiqueta “Sala de Reuniões”. O ambiente é, felizmente, muito menos formal que o das reuniões com computadores, nem há cá lugar para coisas remotas … o público está ali … no imo com o artista. Como anunciado logo à partida, Bruno Brites divide a sua atuação em duas partes. Primeiro, dois temas instrumentais, de cariz eletrónico e ritmado – na senda dos trabalhos publicados nas plataformas digitais, como o EP Musgo, editado em 2023 com o selo da Gravv. – que ajudam a soltar os corpos da audiência que lentamente vai compondo o Musicbox. Depois, 2 temas à guitarra e voz, que alguns dos presentes conhecem cantando a letra baixinho, fechando os olhos e meneando lentamente o corpo.
Assistir a atuação de Joana Guerra é sempre uma maravilha, uma delícia para os ouvidos, um assombro para a mente! Tudo serve para este anjo sónico tecer a sua trama pejada de texturas, cambiantes, sombras graves e realces agudos – um fio solto do arco a passear pelas cordas, o espigão do violoncelo a dançar pelo chão, a voz usada como instrumento … tudo … ao ponto do prato de choque da bateria dos C-mm querer participar, reverberando a dança dos baixos mais profundos do universo. A música de Joana funciona como um filme e respetiva banda sonora dos nossos sonhos (acordados ou latentes) em que cada um constrói a sua narrativa. Sublime!
A proposta dos C-mm é arriscada … juntar um fundo instrumental a um registo dramático na voz não é propriamente original, nem tem de o ser, mas continua a ser incomum, mesmo em plena maré cheia desta nova onda de post-punk que recorre amiúde à palavra falada. Tal como acontece com as (minhas) referências mais óbvias – Mão Morta e Sereias – a fórmula é interessante e cativante, até porque os C-mm conseguem misturar de forma tremendamente empolgante laivos de free-jazz, noise e indie rock. A bateria do João é uma louca, a guitarra do Diogo uma vagabunda e o baixo do Gui é uma rocha … e, de alguma forma, o trio harmoniza-se e flui com facilidade e leveza … mesmo nos momentos mais estridentes. E é neste fundo que as histórias contadas por Matilde vão entrando, com uma aparente segurança e uma imponente presença. Confesso que aqui, estranhei a coisa. Em contraste absoluto com a atmosfera criada pela Joana Guerra, estas narrativas são diretas, brutas (o que me apraz), mas demasiado diretivas. É uma questão de estética, tenho consciência, ou até de estados de alma e experiências de vida… e aí terão que ser a vossa, os vossos e as vossas a decidir. Os C-mm acabaram de deitar cá para fora o EP Dar a Volta (pela Gravv.) e agora cabe-vos a vocês ouvirem e assumirem as vossas sentenças.













