unlikely, maybe é tudo menos incertezas ou indefinições. É mais um sólido álbum que Bruno Pernadas nos oferece. Que sejamos dignos de tanta beleza e de tão vasta poesia sonora!
Para onde nos leva esta música? Em que lugar sonoro habita quem a criou? Que destino é este a que chegamos, depois de tão intensa e inquietante viagem? Parece ser uma casa muito grande, com lugares sinuosos, becos escuros, mas também com janelas abertas que dão para uma luz que nos cega, entusiasmante como poucas, nos seus inusitados brilhos e texturas. Uma casa sonora bonita, onde podemos sentir-nos, se nela entrarmos verdadeiramente, parte de uma sagrada família arquitetada pelo demiurgo Bruno Pernadas. Parece tudo isto improvável? Talvez.
Aquilo que nos surpreende costuma cativar-nos, e o que nos cativa faz de nós reféns. Já muito se cantou a beleza desse efeito. A poesia sempre foi mestra nisso, menina bem comportada dessa arte adulta e edificante. Com a música, como bem sabemos, pode acontecer o mesmo. E acontece. Bruno Pernadas faz poesia com melodias, ritmos, improvisos, criando imaginários tão particulares, quanto inusitados. Há em unlikely, maybe (que grande título para este disco, diga-se de passagem) um pouco de tudo isto. Na verdade, o recente longa duração do músico resulta como uma longa colcha sonora repleta de ricos bordados macios, outros mais ásperos, rugosos, que os nossos ouvidos terão de passar a ferro, a bem das suas melhores e mais maravilhosas revelações. Parece tudo isto improvável? Talvez.
Tudo começa com “Untitled (raindrops)”, primeiro aperitivo de uma refeição mais robusta a caminho. O tema “Juro que Vi Túlipas” percorre meridianos e paralelos num piscar de olhos. Unidos, os mundos sonoros que o tema evoca, fá-los parecer melhores, revelando diversidade e as riquezas nela existentes. É deliciosa, a voz de Maya Blandy, lá mais para o termo da faixa. Por outro lado, é cativante e faz dançar a canção “Steady Grace”, assim como a brasileiramente portuguesa “Já Não Tem Mais Encanto”, porque o mundo dos dois países pode ser Carmen Mirandizado, carnavalizando o que há de bom nesses jeitos transatlânticos que a canção abraça. É um samba, mas não à maneira dos mestres que criaram esse estilo. Complexa, cheia de recantos (aqui um sopro, ali percursões, acolá uma voz apressada e irrequieta), contrastando com a planante “Campus On Fire”, que desliza em nós sem qualquer atrito, promovendo uma lenta e deliciosa imersão. É linda de morrer, e morrer assim, afogado em tanta beleza, é o que a verdadeira arte pretende.
Todo o álbum mergulha numa espécie de retro-futurismo. Um pé no passado (imagens, filmes, bandas sonoras desses filmes) e aí, tudo é recordação de qualquer coisa indefinida e inesperada; outro pé no que ainda não se reconhece, embora pareça palpável, definida, explicada com clareza. E a pergunta persiste: parece tudo isto improvável? Talvez.
Mas voltemos aos temas do álbum, que são nove, e que ocupam quase cinquenta minutos, mas que passam, na verdade, num ápice de tempo. “His World” tem um belo refrão (se assim pudermos designar esse momento) e uma improvisação final maravilhosa, em que sobressaem belas e cortantes guitarras. Pharoah Sanders e Sun Ra deverão ficar siderados, onde quer que estejam, com “Spiritual Spaceman”, já para não mencionar (e mencionamos, pois então) a voz de cristal de Leonor Arnaut. É uma belíssima spaceship, esta em que seguimos caminho, mostrando aos monstros sagrados referidos que o caminho pelo espaço pode ser tão sideral e imenso que tudo abarca, desde turbulência quanto baste à acalmia das boas brisas sonoras. Será, juntamente com “Steady Grace”, um dos mais belos e fascinantes momentos de todo o disco. “Leo Minor” é, quem sabe, a paisagem que se pode observar das janelas da nave “Spiritual Spaceman” enquanto dura a viagem. Parece-nos uma boa definição para esse tão sereno instante. “Song In MT-65” termina unlikely, maybe de maneira mais intensa, mais musculada, digamos assim, e por instantes lá estamos nós nos cruzamentos dos tais meridianos e paralelos sempre tão ao jeito de Bruno Pernadas.
E assim se conclui mais um percurso, o quinto do músico, feito em nome próprio. Está nele tudo o que poderíamos esperar, todas as idiossincrasias de Pernadas e ainda as surpresas, muitas e deliciosas, que pontuam todas as faixas, fazendo deste trabalho um forte e inevitável (estamos em crer) candidato a disco do ano, que praticamente ainda agora começou. Parece-vos tudo isto improvável? Olhem que talvez não.