A literatura já tem, a partir de hoje, o seu poeta verdadeiramente popular de dimensão universal! Mais do que ter “criado novas formas de expressão poéticas”, Dylan sempre foi um autor de textos repletos de inquietações das mais variadas espécies e proveniências. Para quem conhece a obra em questão, e para quem sabe que a boa literatura sempre viveu e sempre viverá da capacidade de provocar no outro uma boa dose de desassossego, perceberá que o Nobel deste ano está bem entregue. Como estaria se tivesse ido parar a outras mãos, às mãos dos “verdadeiros escritores”.
Mas desenganem-se os que pensam exclusivamente assim, até porque a vitória de Bob Dylan é também, e ao mesmo tempo, a vitória da cultura popular e a derrota de um certo preconceito e sobranceria que ainda vingam nos tempos que correm. No entanto, vemos nesta sonora atribuição uma prova de que os tempos, esses, “they are a-changin’, e isso parece-nos bastante importante, mesmo que eventualmente ilusórios. Que nos perdoem os enormes romancistas, poetas e dramaturgos que tanto amamos, mas este ar fresco de outono que nos chega da Suécia num ano que já soube extinguir fisicamente alguns dos nossos maiores ídolos da música popular, este ar fresco, repito, soa-nos muito bem aos ouvidos e ao coração. Se a literatura coloca o homem no centro do mundo e através dela podemos conhecer muito do que a nossa simples e curta vida nos esconde, as canções e os textos que elas cantam não o fazem menos. Fazem-no é de forma diferente, e é sobretudo essa diferença que festejamos hoje com a atribuição do Nobel da Literatura a Robert Allen Zimmerman!
Uma coisa que sempre distinguiu o Nobel é que é capaz de servir como uma oposição à dominação anglo-saxónica, promovendo a literatura em outras línguas que não o inglês. Nada contra a atribuição do prémio a um “cantor” (sem dúvida uma forma de literatura), mas alguém consegue imaginar que fosse entregue a um Dylan que cantasse em romeno, ou grego, ou chinês, ou russo, ou português?