Bob Dylan, o poeta, o sofredor, o porta-voz, o mestre da língua e das suas fronteiras. Este era Bob Dylan até New Morning, álbum que acrescentou uma nova face à sua identidade.
Se entre 62 e 67 os holofotes apontavam para as letras, agora, em 70, residem na música. Bob sempre escreveu boas melodias, contudo, são raros os casos em que as notas se sobrepuseram às palavras. A maioria das suas canções até ali estavam muito presas à tradição folk e mantinham instrumentais sem grande destaque – reitero, com as suas exceções: a partir de 66 já começava a existir um tratamento diferente da parte melódica.
Mas, em New Morning, de 1970, Dylan inicia um culto dos arranjos e uma consequente evasão do rótulo de cantor folk. Esta nova fase começou, aliás, em 1969, com Nashville Skyline, um agradável episódio country da sua discografia onde se vê um Bob Dylan mais económico nas suas palavras e mais audaz nos arranjos. Mais audaz para o que era seu costume, digo eu. E em New Morning chega a confirmação.
Bob tornara-se mais musical. Cada tema de New Morning conta com detalhados instrumentais, ricos em piano ao estilo blues e guitarras elétricas suaves como os primeiros raios de sol de uma “nova manhã”. O título remete para o próprio renascimento de Dylan: uma nova manhã de oportunidades, após alguns anos de conflito e afastamento do seu público, que exigia uma voz que Bob não queria assumir.
As letras são de um falar honesto e coloquial, os temas são muitas vezes mundanos e as metáforas de cariz popular (“Went to See the Gypsy”, “If Dogs Run Free”). Até posso dizer que todos os temas têm o seu quê de ditados populares, lacónicos e sábios, como se Dylan tivesse escrito este álbum numa aldeia de Trás-os-Montes e
lhe tivesse juntado instrumentais ao estilo dos seus velhos amigos The Band – certamente uma influência na produção, ainda com saudades deles.
É engraçado, pois este foi o primeiro álbum de Dylan que ouvi e estimei. Não largava “The Man In Me” e “If Not For You”, e apenas pela música. Esta era, no fundo, a única imagem que tinha dele: um tipo descontraído, com algum jeito para fazer letras, e que cantava sobre amor e desamor. Tão inocente. Foi uma agradável e curta ilusão – seguia-se The Freewheelin’ Bob Dylan. Entretanto, já mais letrado no seu vasto corpo de trabalho muito sério, continuo a voltar a New Morning. Porque apesar de conhecer o génio, sinto-me sempre mais próximo da pessoa.