Love and Theft é o primeiro disco de Dylan no século XXI, mas a paisagem sonora remete mais para os anos 40 e 50 do século XX.
Quando a banda da Never Ending Tour se reuniu em estúdio para as sessões de Love and Theft descobriram que Bob Dylan tinha dado instruções de que desejava gravar sentado a um canto da sala de gravações e de costas para a banda, inspirado pela capa do disco King of the Delta Blues Singers Vol. II, de Robert Johnson. Mas durante a primeira sessão decidiu largar a guitarra e sentar-se ao piano, pedindo à banda que mudasse de tom e tocasse a um ritmo diferente. “Parecia um cão que tinha de dar umas voltas na cama antes de se poder sentar”, relatou o guitarrista Larry Campbell à Rolling Stone em 2016.
A adaptação rápida dos temas faz com que as canções de Love and Theft soem menos trabalhadas do que as de Time Out of Mind. Mas apesar da aparente simplicidade, os músicos contratados por Dylan não falharam.
A melhor canção deste disco é “Mississippi”, um tema nascido durante as sessões de Time Out of Mind e regravado pela banda que trabalhou com Dylan neste disco. É um tema poderoso e dirigido uma linha de baixo pulsante, enquanto o narrador conta uma história de aventura, marcada pela idade de quem canta. “You can always come back / But you can’t come back all the way”, podia até ser uma metáfora para esta fase da carreira de Dylan. Ele pode tentar voltar a ser o músico de blues que já foi, mas nunca será igual. Pela idade, pelas vivências, pelas limitações.
Love and Theft é o primeiro disco de Dylan no século XXI, mas a paisagem sonora remete mais para os anos 40 e 50 do século XX do que para aquilo que os cantores-compositores mais novos faziam. Enquanto Johnny Cash, Tom Waits ou Neil Young procuravam novas sonoridades, Dylan tentava regravar a tradição. E é por isso que temos blues sujos “High Water (for Charley Patton)”, jazz de lamentos (“Summer Days”) ou o folclore americano (“Tweedle Dee & Tweedle Dum”).
O disco termina com “Sugar Baby”, uma balada quase apocalíptica que fez as delícias dos dylanólogos dos fóruns. O disco saiu no dia 11 de Setembro de 2001, dia do ataque às Torres Gémeas nos Estados Unidos, e os mais fanáticos fãs viram no final do disco uma “prova” de que Dylan previu o “fim da sociedade norte-americana de então”. Mas como o próprio Dylan admite em “Floater”: “I’m not quite as cool or forgiving as I sound”.