No período mais fértil da sua vida, chega-nos o disco que melhor condensa as várias facetas de um Bob Dylan em busca determinada pela sua liberdade artística.
Em Julho de 1965 chega às rádios e aos ouvidos da América “Like a Rolling Stone”, o single de avanço do aguardado disco seguinte de Bob Dylan. Cinco dias depois, dá-se o famoso episódio no festival folk de Newport, em que o músico chocou a audiência (e a organização) ao fazer um set eléctrico, em vez de apenas acompanhado pela costumeira guitarra acústica. A 30 de Agosto, chega às lojas Highway 61 Revisited, o disco que faria sentido de tudo isto e um dos mais importantes da música moderna.
Na verdade, esta não era a primeira aventura eléctrica de Dylan, o rapaz que, nos primeiros discos, foi aclamado como a voz que iria, mais uma vez, salvar a folk engajada e bem intencionada. Nesse período extraordinariamente acelerado e produtivo para o músico, já em 1965 havia sido editado Bringing It All Back Home, que trazia sons eléctricos e acústicos em pacífica convivência. E mesmo este Highway 61 Revisited tem esses dois lados do mesmo artista, a cara e a coroa, ainda que talvez traga um Dylan mais confiante, mais desbragado, mais decidido a trilhar o seu próprio caminho.
“Like a Rolling Stone”, de certa forma, mudou tudo. Não foi o primeiro sucesso de Dylan, já então famoso, mas bateu como uma bomba, trazendo em si ecos de uma revolução juvenil, eminentemente eléctrica e “mal comportada” que não tardaria a desabrochar por toda a América e com ecos em todo o mundo. E que, através de Dylan, contagiou também os letrados universitários e não apenas os putos rufias em busca de rebeldia e drogas rápidas.
É o tema mais forte do disco e é, de certa forma, uma espécie de manifesto. Ao sexto disco, um trabalho que abre com uma declaração de intenções que abarca a mitologia do rock n roll, da viagem e da estrada, casando-a com o mundo dos beats (que Dylan adorava), sem olhar para trás.
Mais do que o “primeiro disco eléctrico de Dylan”, este é sobretudo umas espécie de “Dylan total”, uma montra de todas as componentes que construíam, em tempo real, este mistério que viria, décadas mais tarde, a ganhar o Nobel da Literatura.
Temos o blues acelerado e sujo de “Tombstone Blues”, outro clássico; o blues movido a piano de “It Takes a Lot to Laugh, it Takes a Train to Cry”; o rock de “From a Buick 6”; e a balada negra e arrastada de “Ballad of a Thin Man”, outro clássico a fechar o Lado A.
O Lado B não consegue acompanhar a força do seu antecessor, e não seria fácil fazê-lo, admita-se. “Queen Jane Approximately” começa com uma variação melódica de “Like a Rolling Stone” mas mascara-se de placidez onde aquela se vestia de revolta e de desafio; “Highway 61 Revisited”, a faixa-título, é outro blues desbragado, servido por um boogie irresistível nos teclados; segue-se “Just Like Tom Thumbs Blues”, que ganha vida sobretudo quando a harmónica de Dylan volta a aparecer; e, quando damos por isso, estamos no fecho, com a épica “Desolation Row”, uma espécie de Springsteen antes de haver Springsteen para o mundo, uma demonstração de virtuosismo lírico, uma letra extensa e intrincada, que mistura mitos, a Bíblia, a segregação racial e o surrealismo de que Dylan sempre gostou. Este tema, um longo exercício acústico a fechar o disco, acaba por ser o template original que o músico viria a repetir algumas vezes, uma música algo repetitiva que dá praticamente todo o palco à letra e à história que ele quer contar.
A auto-estrada que dá nome ao disco é aquela que vinha do norte e passava por Duluth, no Minnesota, onde Dylan nasceu, e seguia para sul acompanhando o curso do rio Mississipi, passando por território sagrado do blues até New Orleans. Foi também numa encruzilhada dessa estrada que, diz o mito, o músico de blues Robert Johnson vendeu a sua alma ao diabo em troca da destreza que demonstrava na guitarra.
Highway 61 Revisited é, assim, como uma estrada. Que parte e chega aos blues, sim, mas que guarda espaço e tempo para os desvios que Dylan procurava, em busca da sua liberdade artística, que estava, agora, completamente afirmada, com um músico cheio de confiança nas suas capacidades, no meio do período mais fértil da sua carreira e determinado a explorar tudo aquilo que a música lhe poderia trazer.
Este é, para muitos, o melhor disco de Bob Dylan. Seremos mais cautelosos, dizendo que talvez seja aquele que, numa rodela, melhor define o que é o indefinível Bob Dylan. Cronologicamente, fica no meio da trilogia “sagrada” do músico, entre Bringing It All Back Home e Blonde on Blonde, também enormes obras por mérito próprio.
Alguém escreveu que, com Highway 61 Revisited, Dylan inventou os anos 60. Isso talvez seja excessivo. O que é mais consensual é que Dylan foi o primeiro a mostrar que rock, folk, blues e country podem e devem conviver, e que é possível usar a música popular enquanto entretenimento mas que ao mesmo tempo tenha mensagem e letras de qualidade literária.
A sua influência estende-se até hoje.