Aos 58 anos (entretanto já fez os 59), Callahan parece menos interessado em esconder-se atrás de narradores ambíguos e mais disposto a falar de si próprio.
O que se poderá dizer mais de Bill Callahan, que não tenhamos já dito em crónicas aos seus álbuns anteriores? (estão todas no link do nome, mas dêem-me um desconto quanto ao Sometimes I Wish We Were an Eagle, crónica foi escrita na altura do seu lançamento, há mais de 16 anos, eu era ligeiramente mais jovem e desconhecia o efeito prolongado que o disco ia ter na minha vida, tendo inclusivé sido a minha escolha para melhor disco dos últimos 20 anos, já pensei por várias vezes em reescrevê-lo, mas outras prioridades impuseram-se, um dia…)
Já é mais que sabido que os altamontianos por esse mundo fora se derretem de amores pelo homem, sempre que vem dar concertos a Portugal é uma correria à primeira fila, cartazes à porta com dizeres que vão desde um clássico “Bill faz-me um filho” a um “Sing in my ear, Bill”. Se forem ver os perfis Altamont encontrarão vários com referências ao senhor. Cria-se um frenesim geral quando se fica a saber que vem lá disco (“fechem os tops do ano”), desmaios à porta da flur quando o vinil é colocado à venda, enfim, cenas dantescas que é melhor nem revelar mais, para proteger a imagem dos envolvidos.
Fait divers à parte, eis então que temos para degustação My Days of 58. Dele, já ouvi um fanático dizer que é mais arroz, uma bela receita mas pouco inventiva em relação aos anteriores, e outro a contrapôr que é mais rico em termos de arranjos, enquanto sugere carinhosamente ao primeiro a compra de cotonetes. Eu estarei no meio, junto da virtude.
O álbum arranca com uma dúvida existencial – por que razão alguém passa uma vida inteira a cantar? Em “Why Do Men Sing?”, Bill Callahan transforma essa dúvida numa espécie de manifesto tardio, a canção começa como uma reflexão tranquila e acaba num sonho improvável em que encontra Lou Reed, vestido de branco, num cenário além-vida. A resposta que recebe é simples: continuar, de preferência com passos pelo lado selvagem.
Aos 58 anos (entretanto já fez os 59), Callahan parece menos interessado em esconder-se atrás de narradores ambíguos e mais disposto a falar de si próprio. Em “The Man I’m Supposed to Be”, admite: “I’ve been living too long in my head.” A frase funciona quase como um comentário retrospetivo a uma carreira marcada pela ironia e pelo distanciamento emocional. Neste disco, pelo contrário, as canções aproximam-se da confissão — sem nunca abandonar o humor seco que sempre o distinguiu. Esse caminho começou a tornar-se visível em YTI⅃AƎЯ (2022), o disco onde a paternidade e a vida doméstica entraram definitivamente no seu universo lírico. Mas enquanto esse álbum era luminoso, quase pastoral, My Days of 58 acrescenta uma camada de inquietação: o facto de Callahan ter descoberto um cancro no seu corpo. “Quando, na canção “The Devil Inside Me”, falo de ter um demónio dentro de mim, foi por ter visto um tumor no meu cólon”, partilhou numa entrevista. Callahan revelou ainda que, mesmo apesar de ter enfrentado o melhor dos cenários, durante um tempo não sabia se iria viver ou morrer, e que, quando tudo acabou, a experiência serviu para alimentar canções novas.
Mas o álbum vai para lá da doença. Em canções como “Empathy” ou “West Texas” reflete sobre o pai, os filhos e a forma como o tempo reorganiza essas relações. Em “Computer” deambula pela necessária, mas às vezes estranha relação, que temos com o peso avassalador que a tecnologia está a ter em nós, nas nossas vidas. Por fim, numa das grandes canções do disco, “Stepping Out for Air”, o piano acompanha a necessidade de, em determinados momentos, pararmos para respirar.
No campo puramente orquestral, Bill Callahan também mostra algumas inovações. Apocalypse (2011) tinha a dimensão de uma paisagem americana clássica: arranjos amplos, guitarras e coros que davam às canções um peso quase bíblico. Dream River (2013) suavizou essa energia, mergulhando num folk mais fluido e atmosférico, cheio de sopros e deriva contemplativa. Já My Days of 58 aproxima-se de um disco de câmara. Os arranjos — guitarra acústica, pedal steel, saxofone discreto — criam uma atmosfera de intimidade, como se as canções fossem tocadas numa sala de estar. Há momentos de leveza, como em “Lake Winnebago”, onde Callahan mistura trocadilhos e memórias enquanto pensa sobre perda e legado.
No conjunto da sua discografia recente, podemos então afirmar que este álbum parece encontrar um ponto de equilíbrio, a tal, acima mencionada, virtude. Não atingindo o píncaro absoluto que foi Sometimes I Wish We Were an Eagle, mas continuando um trabalho de artesão que faz a sua manta de retalhos. Se Apocalypse era o som de um narrador a observar o mundo e Dream River o de um viajante contemplativo, My Days of 58 é o de alguém que parece finalmente olhar para trás com clareza. E talvez seja essa a verdadeira resposta à pergunta inicial: cantar não resolve a vida mas, com tempo suficiente, ajuda a compreendê-la e embelezá-la. “Por favor, nunca pares de cantar, Bill” será o meu cartaz num próximo concerto em Portugal, assistido da primeira fila.