Antes de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, os Arctic Monkeys distribuíam CD-ROMs gratuitamente nos concertos e no MySpace, intitulado Beneath The Boardwalk. Esta é a história da primeira banda verdadeiramente viral.
No início da carreira, ali entre 1960 e 1962, os Beatles davam frequentemente entre dois a três concertos por dia. Em Liverpool, à hora de almoço, iam ao The Cavern, à tarde ao Casanova Club e à noite ao Litherland Town Hall. Saia-lhes do pêlo, mas era a forma de chegar a novos ouvidos, uma ampla audiência acabou por decorar as letras. Quarenta anos depois, os tempos mudaram. No dia 27 de agosto de 2005, quando Alex, Jamie, Matt e Andy subiram ao palco secundário do festival Reading, milhares de pessoas sabiam as letras de cor – sem terem dado centenas de concertos, sem qualquer disco editado, sem editora sequer. Aquele foi um momento antológico, tão importante como foi para Elton John o concerto no The Troubadour, em Los Angeles, ou a ida dos Joy Division ao programa de TV So It Goes para tocar “Shadowplay”. “Don’t believe the hype”, dissera nesse ano Alex Turner, o frontman dos macacos. Mas estava completamente enganado: era real e vinha mudar as regras do jogo.
Antes conquistava-se fãs com singles, idas à televisão e concertos, agora tornam-se virais com cliques e dancinhas e afins no TikTok, Instagram ou outra rede social de preferência. Entre o mundo analógico e digital, existiu um momento de transição liderado por este quarteto de Sheffield. Os putos ainda tocavam na garagem e gravavam em estúdios locais, mas catapultaram-se pela internet e distribuição de CD-ROMs nos concertos, construindo um culto independente, solto de qualquer amarra de editoras. À medida que iam gravando, colocavam no MySpace, uma rede social popular na época entre bandas, onde era possível ouvir (e descarregar gratuitamente).
“Tocámos um concerto em Sheffield e, mal comecei a cantar, todo o público cantou de volta”, explicou Alex à NME nos primeiros anos de carreira. A adolescência florescente ainda não estava refém de ecrãs de smartphone, mas já acedia à música de outra forma. “É amplamente reconhecido que o sucesso dos Arctic Monkeys se deveu, em parte, à sua capacidade de aproveitar o potencial do ambiente online como banda independente”, relatou na altura a editora EMI num relatório do governo britânico sobre direitos de autor. Numa guerra aberta contra a pirataria, a indústria queria combater precisamente o que os Monkeys procuravam celebrar. Se antes copiávamos os discos dos nossos amigos em cassete e CD-ROM, o MySpace ofereceu uma plataforma para se ouvir música (e interagir com os artistas) absolutamente inovadora. Estes eram os primórdios do Spotify, Youtube e do advento dos algoritmos.
Mas os miúdos não queriam saber de editoras. Nem queriam saber de internet, na verdade. Só queriam ser adolescentes em 2003, e os adolescentes de Sheffield estavam no Myspace e, à sexta-feira, a virar canecos no Boardwalk entre concertos. De skinny jeans e cardigans, polo Fred Perry e adidas brancos, com fedoras duvidosos, à mistura queriam tocar alto como os The Strokes e cantar sobre booze, vida nocturna, cigarros e raparigas, observações do que é a adolescência filtrados pelo olho ácido de Alex Turner.
Os primeiros anos
Tudo começou no subúrbio de High Green, norte de Sheffield. É uma área remota do grande centro urbano, quase rural, então sem estação de comboios. Não havia muita coisa excitante para se fazer, era preciso inovar. Era 2002 e um grupo de quatro garotos de liceu, Jamie Cook, Matt Helders, Andy Nicholson e Alex Turner, dos seus 15 anos, tinha acabado o último exame do semestre – e decidiram formar uma banda, maioritariamente para tocar covers de Strokes. Alex e Jamie tinham acabado de receber uma guitarra pelo natal e Andy comprometeu-se a arranjar um baixo. Restava a bateria, que ficou responsabilidade do último do quarteto, Matt, que aceitou aprender a tocar para se incluir no grupo (e acabaria por se tornar num monstro do instrumento). O jornalista Ben Osborne conta esse episódio no seu livro Whatever People Say They Are… That’s What They’re Not (2013). Nessa tarde, só ficou uma coisa acordada: chamar-se-iam Arctic Monkeys, ou Macacos do Ártico, em português. Era uma exigência de Jamie. Em entrevistas, não conseguem justificar a escolha do nome. Bem, se eu tivesse de adivinhar, diria que foi resultado da mente de adolescentes irónicos, que acharam o nome suficientemente aleatório para ter piada.

Nascido no dia 6 de janeiro de 1986, Alexander David Turner cresceu no seio de uma família de professores de alemão. Vivia rodeado pelos clássicos, como Beatles, Beach Boys e Frank Sinatra. Turner recorda-se à Pitchfork em 2018 quando, ao entrar num táxi em Chicago, saber a música “Hold The line” dos Toto do início ao fim. “Eu sabia uma quantidade alarmante da letra dessa música porque a minha mãe costumava tocá-la no carro, enquanto me levava para passear na cadeirinha. Ela também punha a tocar sempre os Eagles, e é por isso que conheço todas as letras de Eagles quando passam em restaurantes norte-americanos.”
A primeira amizade macaca deu-se aos sete anos. Alex e Matt eram vizinhos (tal como Jamie, mas já lá vamos) e trocavam música. Um disco que os uniu foi (What’s The Story) Morning Glory? Chegaram a cantar a música que dá título ao álbum na escola para um concurso, com raquetes de ténis a servir de guitarra. “Com os Oasis, é precisamente essa atitude, como se fossem resistentes a tudo o resto que se passa na música. Não sei se me estou a fazer entender – é como um impulso, estás a ver? Especialmente nessa idade, não se racionaliza, apenas se pensa: ‘Isso parece fixe.’”, disse Turner à Pitchfork. Contudo, como adolescentes, eram mais do hip hop. “Naquela época, não havia muita música de guitarra no meu mundo”, acrescentou Turner. Ouviam Outkast, Eminem, Wu-Tang, usavam bonés, calças largas, rapavam na cozinha de Matt. Turner aprenderia o flow e o poder do storytelling das coisas mundanas, mas aquele sotaque embalado por guitarras rápidas de Arctic Monkeys viriam a fazê-lo soar mais próximo de The Streets do que a Dr. Dre.
Mais do que Alex, Matt já tinha um grande interesse em música. Persuadiu a mãe a comprar-lhe um teclado de 800 libras. Progrediu com rapidez, passou os primeiros exames da escola de música com boas notas, mas perdeu o interesse no instrumento. Mais tarde, quando pediu por uma bateria, os pais escolheram a mais barata, não fosse o diabo tecê-las.

Quando Alex e Matt mudaram de escola, conheceram Jamie. Era defesa direito titular do High Green Villa e tinha o sonho de ser jogador da bola. Curiosamente, era vizinho de Alex, mas só se aproximaram quando este mudou-se para a sua escola. Quando recebeu a guitarra no Natal, aprendeu guitarra ao mesmo tempo do que Turner. A vizinhança ajudava. Foi Jamie que convenceu a ser do rock, viciando-os na velocidade de Hives, nas melodia de Smiths e Coral – e claro, no novo movimento rock ‘n roll dos Strokes.
O núcleo da banda estava formada. Nos primórdios, logo em 2002, ainda escolheram Glyn Jones, colega de Stocksbridge High School, para assumir as vozes, apenas porque Alex Turner era demasiado tímido, mas saiu pouco depois. Alex, Matt, Jamie e Andy terminaram os exames nacionais e fecharam-se nas garagens uns dos outros a tocar.
O berço do indie num CD-ROM
Aprendiam o instrumento enquanto ensaiam. E ensaiaram, ensaiaram, ensaiaram. Além de escrever canções, o grande objetivo dos macacos era tocar ao vivo e pertencer ao movimento de New Yorkshire. Na verdade, o rock era divertido e uma desculpa para conviver. “Onde crescemos, havia outros miúdos que tinham uma banda, e costumavam tocar num dos pubs, e começámos a sair com eles”, recordou Alex para a Pitchfork. Entre essa malta que tocava na altura, estavam os The Harrisons, Bromheads Jacket, The Long Blondes e Milburn, alguns deles a tocar desde os 13. “Íamos vê-los, bebíamos cidra, fazíamos palhaçadas e corríamos atrás das raparigas. Depois tínhamos uma ideia: ‘Devíamos formar uma banda!’ Estávamos desesperadamente à procura de algo para fazer. E nenhum de nós sabia tocar nada…”, explicou, acrescentando que “a única ambição era tocar num pub.”

E conseguiam. Com 17 anos, Andy e Alex trabalhavam atrás do balcão do The Boardwalk, um dos bares mais emblemáticos de Sheffield. Era só pedir e conseguiam marcar uma data, mas ficavam assustados com a aura (e o tamanho) do palco. Para uma estreia, procuraram um lugar mais intimista. No dia 13 de junho de 2003, tocaram no The Grapes, um pub frequentado por outros músicos. Tinha dois pisos: um para o bar, outro para o palco, assim não incomodavam outros, pensavam. Tocaram maioritariamente covers e alguns originais, sendo que é possível ouvir algumas gravações dessa noite na Internet, músicas como “Ravey Ravey Ravey Club”, “Curtains Closed” e uma versão de “Rockafeller Skank” de Fatboy Slim. Foi tudo o que se esperava de uma banda adolescente: guitarras mais preocupadas com a rapidez e a distorção do que com pregos, poucos acordes e, claro, bateria sempre a abrir. Ganharam 27 libras nessa noite.
Se dar o primeiro concerto é um passo importante, o segundo concerto foi crucial para o crescimento dos Macacos. No The Pheasant, estava na plateia Alan Smyth, dono dos estúdio 2Fly. Tocaram nove canções, seis delas versões. Na altura, tocavam músicas de White Stripes, The Vines e Jimi Hendrix, por exemplo. Em entrevistas, Smyth disse que gostou da energia de Alex Turner como frontman e gostou do facto de não ter reconhecido ao certo que covers foram tocadas. Estavam verdes, mas tinham personalidade. Na sua própria versão da história, Smyth diz que acabou por recomendá-los a Geoff Barradale, veterano na cena de Sheffield – e que viria a ser o primeiro agente de Arctic Monkeys e um dos responsáveis pela expansão meteórica. Após uma rodada de vários concertos em pubs locais, ganharam coragem e tocaram com Milburn no The Boardwalk, em outubro de 2003.

Uma coisa é certa: é nos 2Fly Studios, de Smyth, que são gravadas as primeiras demos históricas de Arctic Monkeys. Fundado em 2001, localizado no complexo Stag Works, em Sheffield, a banda gravou 22 faixas que se tornariam o rosto da banda. Distribuídas em CD-ROM nos concertos (e ainda mais difundidas posteriormente em fóruns, no MySpace e em programas de partilha como Limeware ou Kazaa), é assim que começou o fenómeno da Internet. Intitulado Beneath The Boardwalk, o CD-ROM era tido por muitos como o primeiro disco dos Arctic Monkeys, apesar de oficialmente não o reconhecerem como tal. Tinha músicas como “Cigarette Smoke” , “Riot Van”, “I Bet You Look Good On The Dancefloor”, “When The Sun Goes Down”, “Mardy Bum”, “A Certain Romance” e “Fake Tales Of San Francisco”, entre muitos outros, que se tornariam clássicos. Mas não só: ‘Bigger Boys And Stolen Sweethearts’, ‘Dancing Shoes’, ‘Still Take You Home’, ‘Stickin’ To The Floor’, ‘Curtains Close’, ‘View From The Afternoon’, ‘Vampires Is A Bit Strong But…’, ‘Wavin’ Bye To The Train Or The Bus’, ‘Riot Van’, ‘Ravey Ravey Ravey Club’, ‘Knock A Door Run’, ‘Choo Choo’, ‘On The Run From The MI5’, ‘Cigarette Smoker’, ‘Space Invaders’, ‘Settle For A Draw’, ‘7’ and ‘Chun Li’s Spinning Bird Kick’.
Num Saab velho foram pelo Reino Unido fora, a tocar estas canções em recintos esgotados, resultado de um fenómeno boca a boca e de internet. Na primavera de 2005, durante a primeira digressão nacional dos Arctic Monkeys, os bilhetes já estavam a ser revendidos no eBay a preços inflacionados. É nesse verão que vão a Reading consagrar-se, sem disco lançado, mas com muita música cá fora. O resto é história.
