O “velho camaleão” muda mais uma vez de cor. Ou melhor, de indumentária. O outrora adolescente rebelde dos anos 90, autor do disruptivo “Loser”, troca a camisola larga e os Adidas pelo smoking e os sapatos de vela, neste aglomerado de esmagadora tristeza.
E é muito provável que alguma desta tristeza seja genuína, e venha de Beck ter percebido, tragicamente, que poderia ter sido o grande Frank Sinatra do indie.
Nesta nova coleção de temas, maioritariamente de versões, feita de uma mistura de singles, alguns conhecidos do público já há vários anos, como “Can’t Help Falling In Love”, original de Elvis Presley, e de músicas totalmente inéditas, Beck entrega finalmente o seu grave timbre ao habitat natural: canções românticas fartamente orquestradas.
Em 2002, Beck lança o seu álbum mais desolador até hoje, e talvez também o álbum mais desolador de todos os tempos: Sea Change. Aqui Beck abraça a melancolia e os acordes menores que lhe estavam destinados desde “Wiskeyclone Hotel, 1997” e produziu o que poderá ter sido o pináculo da sua carreira. Nesta grande obra, todos os temas vão de magistral para cima, e, mesmo assim, como em todos os álbuns, houve protagonismos que ofuscaram o brilho de outras músicas. Por isso quero mencionar “Round the Bend”, lado B de “Sea Change”, um tema que é todo ele Beck, que canta num registo de Deus em cima das nuvens, e orquestração pura e dura. Escusado será dizer que deu bom resultado. Forja, assim, sem dar conta, os fundamentos para a criação de Everybody’s Gotta Learn Sometime, enquanto novo pedaço da sua identidade. Porque é lá que se vislumbra, pela primeira vez, o “crooner” que dentro de Beck estava enclausurado.
Um passo ousado. Em 2002, Beck era demasiado inovador e fixe para pensar em fazer, de repente, de Julio Iglesias. Na verdade, nem parece ter sido ideia sua. Mas, sim, um conselho de um tio. De um daqueles tios que têm uma certa queda para vidente e que exercem os seus poderes sobrenaturais nos momentos mais prosaicos, como um batizado, onde disparam uma opinião arrojada, sem conexão lógica com o que fora dito antes, e que acaba normalmente por estar certa. Por isso é que acredito que no meio de uma conversa sobre bacalhau o tio de Beck lhe tenha dito: “Puto, tu tens uma boa voz. Devias era fazer versões de músicas românticas fartamente orquestradas.” E acredito que não lhe tenha dado logo ouvidos, por causa do hálito a tinto e de estar deitado no chão. Mas depois fez “Round The Bend” e percebeu. Tinha de arranjar uma farta orquestra e as músicas mais românticas que podia encontrar.
Foi o que fez e é o que temos neste novo álbum. Oito temas de chorar e pedir por mais, onde se pode aplaudir não só a performance de Beck como também a excelente escolha de músicas, que reflete o bom gosto a que nos habituou ao longo de três décadas. De reconhecidos portentos do romance como “Love”, de John Lennon, e “Michelangelo Antonioni”, de Caetano Veloso, até “True Love Will Find A Way”, do obscuro cantor romântico da música indie Daniel Johnston. Uma vasta seleção que não liga ao “número de visualizações”. “I Only Have Eyes For You”, composição de Harry Warren e Al Dubin, é, sem dúvida, a mais bem-conseguida do conjunto pela diversidade de cores e ambiente único que expressa. Entre uma hipnótica balada de Beach Boys e a megalomania de um Scott Walker de pungentes progressões de acordes. Espreita ainda um original do artista, “Ramona”, já conhecido, integrante na banda sonora do filme protagonizado por Michael Cera, “Scott Pilgrim Contra O Mundo”, de 2010, que não fica de forma alguma atrás das restantes. A maior das surpresas foi, ainda assim, o tema homónimo do álbum que, quando o ouvi pela primeira vez, podia apostar ser original de Beck, tal era a naturalidade com que se adequava à sua voz e estilo de composição. Mas é da autoria dos “one hit wonders” dos anos oitenta The Korgis. Numa possível homenagem ao mérito daqueles que, ainda que por breves momentos, foram geniais.
Todos nos lembramos da existência de um certo senhor chamado Divine Comedy? Eu só me lembrei dele há bocadinho. Por isso, podemos dizer que o título de Frank Sinatra da música indie está em boas mãos. De qualquer maneira, este álbum representa a entrada oficial de Beck no clube dos “crooners” modernos, e, a partir de agora, se estiver apertado de dinheiro, sabe que tem sempre trabalho no Casino do Estoril.