Numa noite em que se juntaram no mesmo palco guitarras eléctricas e violas da terra, pianos e pandeiretas, a voz cantada e a palavra dita, José Carlos Ary dos Santos foi lembrado e evocado e os seus poemas tratados com ternura
Enorme nome das palavras portuguesas, José Carlos Ary dos Santos foi poeta, declamador e letrista. Escreveu mais de 600 poemas para canções, de entre as quais quatro canções vencedoras do Festival da Canção (”Desfolhada Portuguesa” interpretada por Simone de Oliveira, “Menina do Alto da Serra” interpretada por Tonicha, “Tourada” interpretada por Fernando Tordo e “Portugal no Coração” interpretada pel’Os Amigos). Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho e Zeca Afonso também vieram a cantar os seus poemas. Em 1989, cinco anos depois da sua morte, é publicado “As Palavras das Cantigas”, um livro pensado pelo próprio Ary dos Santos para reunir os poemas que escreveu para canções.
Porque as suas palavras nos tocam como se tivessem sido escritas hoje, na passada sexta-feira, a Casa Capitão acolheu o espectáculo As Cantigas das Palavras, para a sua celebração. Com curadoria da Mesa de Cabeceira, um ciclo de programação a partir de “livros que já estiveram, livros que permanecem, livros que regressam”, onde a literatura entra em diálogo com outras formas de expressão e com o próprio tempo, o espectáculo propunha juntar artistas atuais para uma reimaginação do legado de Ary dos Santos.
A reinterpretação da canção popular, do fado e da intervenção de Ary ficou nas mãos de artistas de géneros diferentes, como que a representarem cada um dos vértices do poeta: Ana Bacalhau e Gisela Mabel, num dueto inédito, a já acarinhada parceria indie-folk de Bia Maria e Jasmim, o fado eletrónico das Fado Bicha, o manifesto dos Miss Universo e a tradição açoriana de Romeu Bairos.
O livro estava em palco a fazer a vez de setlists e partituras. Cada um dos nomes do alinhamento escolheu três poemas, sendo as suas atuações intercaladas por imagens de arquivo e gravações de Ary dos Santos a dizer outros poemas. Estávamos ali a celebrar um dos nomes maiores da poesia portuguesa contemporânea e os valores que as suas palavras representam e toda a gente estava muito feliz: os músicos, honrados pelo lugar que ocupavam naquele palco, e o público, heterogéneo, atento e curioso.
Entre problemas técnicos, letras esquecidas e atrasos na transição entre artistas, perdeu-se alguma solenidade no início do espectáculo, que se foi repondo com o avançar da noite. Ouviram-se cantigas como “Lisboa, Menina e Moça”, popularizada por Carlos do Carmo, “Meu Limão de Amargura”, de Amália Rodrigues e “Cavalo À Solta”, cantada por Fernando Tordo. As reflexões que cada artista trazia sobre o que significava para si aquela noite e o trabalho do poeta enriqueceram os poemas cantados, cada um ao estilo do nome que o tinha escolhido, contribuindo para que se pensasse o presente ao mesmo tempo que se celebrava a pessoa e o actor social que foi Ary dos Santos.
Os momentos mais bonitos da noite foram, sem dúvida, aqueles em que o público se juntou às cantigas que conhecia e em que se sentiu a sala a celebrar Ary em uníssono. “A Tourada”, interpretada pela dupla Ana Bacalhau e Gisela Mabel, foi poderosíssimo e “Os Putos”, tocada por Romeu Bairos ao cavaquinho, foi uma bonita festa.
Numa noite em que se juntaram no mesmo palco guitarras eléctricas e violas da terra, pianos e pandeiretas, a voz cantada e a palavra dita, José Carlos Ary dos Santos foi lembrado e evocado e os seus poemas tratados com ternura, essa palavra tão repetida entre sorrisos ao longo do espectáculo. A integração de iniciativas como esta na programação artística é importante pelo diálogo que promove entre gerações, estilos e públicos e nunca foi tão urgente. Estamos curiosos para acompanhar os próximos passos da Mesa de Cabeceira.
Fotografias de Filipe Gonçalves, cedidas pela organização
















































