Já sabíamos que Ana Frango Elétrico era um talento raro na canção brasileira. Ei-la, agora, num glorioso balanço, livre, leve e solta, a maestrina mais sofisticada da ginga-pop atlântica, a fazer da transa e do desejo matérias-prima de uma música explosivamente colorida.
O Brasil tem a melhor música popular do mundo, afiançou-me, há uns anos, um dos melhores escribas desta casa, Carlos Lopes de seu nome. Poderia ser uma laracha de quem não sabe exatamente do que fala, alguém a mergulhar para fora de pé, mas acontece que o Carlos Lopes é uma espécie de enciclopédia ambulante da música brasileira. Ele sabe bem do que fala. E neste 2023 que está à beira de terminar, uma carioca de 26 anos esforçou-se muito para dar razão ao meu amigo Carlos.
Umas breves informações biográficas digitais e umas quantas entrevistas dão-nos algumas pistas sobre Ana Faria Fainguelernt, a menina-mulher que com humor fonético inventou o nome artístico Ana Frango Elétrico e que em 2023 editou aquele que para o Altamont é um dos melhores discos do ano (para este que vos escreve, já agora, é ainda mais do que isso: é o melhor disco do ano).
Ana é, ao que parece, muitas coisas: cantora, escritora de canções, multi-instrumentista, produtora musical, artista plástica, poeta. A fiar na internet, o contacto com a expressão artística aconteceu cedo: o pai é artista plástico, aos seis anos já Fainguelernt estava numa escola de música e aos sete já sabia ler partituras e tocar recitais de piano clássico.
Geek musical, com indícios de geniozinho e interesse por teoria musical, escalas e afinações, foi razoavelmente precoce também nos álbuns: há cinco anos, portanto aos 21, já contava com um disco editado em nome próprio, Mormaço Queima. O primeiro grande sinal de que a sua identidade musical começava a solidifcar-se, revelando-se original q.b., imaginativa e eternamente encantadora veio logo um ano depois, com Little Electric Chicken Heart, um disco de “pós-MPB” e “bossa-pop-rock decadente com pinceladas de punk”, em que a canção íntima e delicada se vestia de sopros jazz, ritmos da América Latina e guitarras rock para grandes canções como Promessas e Previsões, Se no Cinema e Tem Certeza?.
Esse álbum, o seu segundo, valeu-lhe uma nomeação para um Grammy Latino, na categoria Melhor Álbum de Rock/Alternativo em Português. Nada mau para uma garota daquela idade – o que é que o caríssimo leitor andava a fazer da vida aos 22 anos? As soluções melódicas e líricas (“ah, se no cinema / se sentisse a temperatura / do amor / do casal da tela, do sexo dela / o cheiro da cor”, ouvíamos-lhe em Se No Cinema) já mostravam que era uma miúda desempoeirada, livre, a atirar aquele novo-velhíssimo arquétipo do “bela, recatada e do lar” borda fora.
Depois, veio o trabalho de produção em alguns discos de mão cheia: esteve na cabine de som a colaborar com a banda Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo (nos últimos dois discos do grupo), com os Bala Desejo no celebrado SIM SIM SIM, com Bebé Salvego em Bebé e com Rubel em As Palavras, Vol. 1 & 2. Até que chegou Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua, um portento de álbum.
Logo à primeira canção, uma Electric Fish que pede bola de espelhos e que é capaz de fazer qualquer cético rever a sua aversão à disco, percebe-se que a confiança cresceu, Ana Frango Elétrico libertou-se dos solos de guitarra sujos, usou e abusou do baixo, fez da libido matéria-primo, pincelou o erotismo e utilizou o desejo, a identidade queer e não binária como motores criativos.
A segunda canção, pela maneira como incorpora diferentes vozes, mostra dedo de boa produtora (de alguém que domina como ninguém o som e as possibilidades e tradições do formato canção) e conhecimento dos ritmos clássicos brasileiros. Como não? O ritmo acalma mas o balanço é bom, e daí em diante este navio segue em bom porto. O suspense e os quase sussurros – a dado momento, quase gemidos – de Nuvem Vermelha são um bombom. Coisa Maluca traz uma ginga brincalhona irresistível (e novamente o jogo de diferentes vozes utilizado na perfeição, uma constante no álbum) e Boy of Stranger Things assegura um regresso feliz ao balanço em línguas de Shakespeare.
Camelo Azul traz novos sons e versos deliciosos, proferidos com uma coolness blasé de quem procura baixas rotações [seu cabelo brega / sua jaqueta amarela / me deixa transar… com você (…) seu cheiro me lembra / meu lado… feminino / mas hoje sou… menino], Insista em Mim foi um single perfeito e é uma das grandes canções de 2023, Let’s Go To Before Again é uma ótima jam eletrónica, Debaixo do Piano volta a trazer uma disco muito própria, luminosa e livre, e Dr. Sabe Tudo é uma extraordinária canção de encerramento: apetece cantar para sempre esta letra final, “é que eu sou o dr. sabe tudo / discutindo o amor / não me iludo / para quê sustentar / o amarelo / num sorriso tão pé / de chinelo”.
Um ano depois do portentoso Mil Coisas Invisíveis, de Tim Bernardes, e no ano em que Rubel se dedicou a tentar fazer coexistir graciosa e ambiciosamente a nova canção do Brasil (o funk) com o passado da canção brasileira, em que Júlia Mestre se posicionou como legítima herdeira de Rita Lee em Arrepiada, em que Zé Ibarra se revelou um intérprete, cantor e artista invulgar em Marquês, 256., em que Gabriel Milliet fez da serenidade e do detalhe que desarranja a paz motores de canções apaziguadoras em UM, Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua conseguiu elevar o nível, exibindo-se em todo o seu esplendor: um disco de uma artista total, completa, a melhor maestrina da pop e da ginga dançante do Brasil, capaz de materializar os mais coloridos sonhos musicais. Aqui está a prova de que é preciso conhecer a música, dominar a técnica, ter a riqueza do conhecimento para que a desconstrução da tradição surja assim, gloriosa. Bravo, Ana.