Tales Of Mystery And Imagination, além de um clássico de culto, é um disco que vale a pena ouvir nos dias de hoje.
Alan Parsons foi engenheiro de som em alguns dos melhores discos de sempre, Abbey Road e Let It Be dos Beatles e Dark Side Of The Moon dos Pink Floyd. Em 1975 quis focar-se no seu próprio projeto musical a que chamou Alan Parsons Project, onde Parsons, em conjunto com Eric Woolfson e vários músicos e cantores de estúdio, faziam e editavam as canções, mas o grupo não atuava ao vivo, algo mais ou menos inédito na época, pelo menos em bandas desconhecidas do público.
Este Tales Of Mystery And Imagination – Edgar Allen Poe é o primeiro disco do grupo, e é que Parsons começou em grande, com adaptações de textos de Edgar Allen Poe num disco conceptual que se tornou um clássico do rock progressivo. Diretamente por causa desde trabalho, e ao tratar tão bem o tema de um autor conceituado, os Alan Parsons Project foram catapultados para um estatuto de topo, perto do grande público e com maior escrutínio público.
Este primeiro disco é de culto, pela referida aproximação temática, pela excelente produção e qualidade de gravação e pelas participações de Arthur Brown (The Crazy World Of Arthur Brown), John Miles ou Terry Sylvester (The Hollies). Em 1987 com a remasterização, foi incluída a voz de Orson Welles, no início, na primeira parte de “The Fall Of The House Of Usher” e no final do disco.
O álbum é algo desequilibrado na estrutura, com o lado A a ter mais canções isoladas tipo single, ainda que todas com ligação sonora entre elas, e o lado B a ser dominado por “The Fall Of The House Of Usher”, com cinco canções interligadas dedicadas a este trabalho do autor de Baltimore. E também, apesar de ser considerado um marco do prog-rock, aproxima-se ao orquestral muitas vezes, especialmente neste lado B.
Neste caso com acesso à remistura de 1987, mais cheia e atmosférica que a de original de 76 (e claro, pela narrativa de Welles), tem grandes canções prog como “(The System Of) Doctor Tarr And Professor Fether”, cantada por John Miles, mas também pérolas como a negra “The Cask Of Amontillado”, que conta com uma parte incrível em que o baixo dá lugar a uma secção de sopros, com um coro de fundo e depois uns sublimes violinos que transformam esta peça em algo para ouvir uma e outra vez.
As canções são todas adaptações de textos de Poe, com passagens, claro, mas sem os seus textos integrais. A canção “The Raven” conta com uma das primeiras instâncias da utilização de um vocoder (a primeira vez que se utilizou e gravou um vocoder digital) e é praticamente uma transcrição do poema que é conseguida através de um excelente uso de mudanças de velocidade e de humor, pontilhada por uma agressiva e aguda guitarra num solo rock puro e cantada pelo ator Leonard Whiting. E “The Tell-Tale Heart” com Arthur Brown a dar tudo como no seu clássico “Fire”, tem uns brutais tambores e é digna de uma ópera rock. Não admira que tenha sido escolhida na altura como single, com “The Raven” como lado B.
O lado B deste Tales Of Mystery And Imagination, como já referi, é ocupado com uma enorme peça instrumental (dividida em cinco faixas nas plataformas de streaming e no cd) e com partes brilhantes como “Arrival” e “Pavane”, já que as outras são praticamente de transição entre temas, com influências de Pink Floyd e Genesis do tempo de Peter Gabriel, com melodias capazes de aguentar a canção sem a intrusão de uma letra, que neste caso tiraria alguma da força a estas peças sonoras.O disco termina com “To One In Paradise” cantada por Terry Sylvester e com um toque do que seria sonoramente o som de Alan Parsons Project mais nos anos 80 com hits como “Eye In The Sky”, com etéreos sintetizadores.
Tales of Mystery And Imagination é um produto do seu tempo sonoramente, e sendo sobre um autor de clássicos negros, a verdade é que podia ser mais tenebroso e atmosférico em algumas partes, mas o trabalho transporta-nos para o mundo de Edgar Allen Poe e isso é mais que suficiente para que este seja um bom disco conceptual. A gravação e masterização estão ao nível dos discos mais conceituados na altura e de sempre, com os sons a encontrarem todos o seu espaço sem causar ruído desnecessário.
E para terminar, deixo aqui uma passagem de Orson Welles, que se pode encontrar no início de “The Fall Of The House Of Usher”: “Since the comprehension of sweet sound is our most indefinite conception / Music, when combined with a pleasurable idea, is poetry / Music, without the idea, is simply music“.