Disco imaculado do princípio ao fim, Talkie Walkie não foi a revolução de 1998 e de Moon Safari, mas foi o consolidar pleno dos Air como fazedores maiores de canções pop de base eletrónica.
Ouvido à lupa duas décadas volvidas sobre a sua edição, Talkie Walkie não perdeu nenhum dos triunfos que, em 2004, cimentaram a posição dos Air no espectro indie: as canções deste disco em particular são elegantes, concretas e redondas, e, como de costume nos Air, possíveis segmentos de bandas-sonoras para filmes nunca realizados – ou, lembremo-nos de “Alone in Kyoto” em “Lost in Translation”, felizmente concretizados.
Talkie Walkie é um dos discos mais conceituados dos Air e ofereceu aos franceses um punhado de clássicos: “Venus” é uma abertura perfeita, “Cherry Blossom Girl” e “Surfing on a Rocket” singles evidentes, que ainda hoje não cansam, há um mundo de subtilezas pop por descobrir e há, lá está novamente ela, a seminal “Alone in Kyoto” no encerramento.
A jornada que os Air nos ofereceram em 2004 manteve, em boa parte do tempo, a toada introspetiva e melancólica do costume, mas aqui e ali era já alguma a luz a querer espreitar: oiça-se “Alpha Beta Gaga” e aquele assobio, numa canção que parece pop soalheira num ‘western saloon’ futurista. Imperdível também.
A boa notícia, que avançamos sem medo após um par de anos sem lhe tocar, é que Talkie Walkie continua um grande disco. A menos boa notícia, é que será provavelmente o último enormíssimo disco dos Air – mas sobre os tomos que se seguiriam, novas prosas poderão ser consultadas em breve.