Depois de anos a escrever em inglês, Afonso Rodrigues estreia-se a solo e em português. Uma temporada no Malawi ajudou a pôr o desejo antigo em primeiro plano. O disco cruza a escrita de cantautor com uma estética musical atual e emocionalmente exposta.
Altamont: Queria perguntar-te, antes de mais, como é que este disco nasceu. Uma das coisas que tu disseste é que tu tiveste uma temporada em África antes de começar o disco. Como é que isso te influenciou na música, na letra, na sonoridade, naquilo que fizeste?
Voltando um bocadinho atrás, só para contextualizar, eu comecei a querer fazer um disco em português praticamente ao mesmo tempo que comecei a querer escrever em inglês. É uma ideia já com muito tempo e era, acima de tudo, um desejo de concretização, meio de prova de fogo. Eu gostava de provar a mim mesmo que era capaz de o fazer, basicamente. Avançamos uns tempos, eu vou fazendo outros discos, vou escrevendo sempre em inglês, vou fazendo outros projetos, vou fazendo outras coisas e esta ideia continua sempre na parte de trás da minha cabeça. Quando chegou a pandemia, a vida da maioria das pessoas mudou radicalmente e a minha mudou também e fez com que eu passasse bastante mais tempo em casa.
Quando passei mais tempo em casa, comecei naturalmente a fazer uma reflexão sobre aquilo que tinha sido a minha vida até aí e aquilo que seria a minha vida daí para a frente. E nesse momento, voltou-se a afirmar a ideia de querer escrever em português, como uma coisa que eu queria fazer há bastante tempo, que nunca tinha dado prioridade, que nunca tinha investido tempo nem energia e, portanto, nunca tinha acontecido porque eu nunca tinha feito com que acontecesse. Então, nesse momento, começou a surgir cada vez mais clara a ideia de que, enquanto eu não pusesse isto como uma prioridade e enquanto eu não dedicasse tempo a isto, isto não iria acontecer. Ia ser só uma coisa que eu andava a namorar, mas que nunca concretizava.
O mundo voltou mais ou menos ao normal, etc., e, um tempo depois, eu dei comigo precisamente em África. E nesse momento, talvez pela distância, talvez porque quando estás longe tens uma maior objetividade e consegues olhar melhor para as coisas, apesar de eu até estar num país cuja língua principal é o inglês…
Estavas onde?
Estava no Malawi, que é um país de fronteira. Nesse momento, dá-se aquele clique de “ok, agora vou passar isto para o primeiro plano, porque estou há demasiado tempo a dizer que isto é uma coisa que eu quero muito fazer, mas enquanto não der prioridade a isto, nunca vou fazê-la.”
Portanto é um bocado aí que se dá esse clique de que, daqui para a frente, isto passa a ser o meu principal objectivo e que eu vou perseguir. Depois acabei por começar a escrever algumas canções lá (algumas delas que viriam até a integrar o disco), mas não tem nada a ver com uma influência externa musical ou poética. Tem mesmo a ver com o facto de eu estar distante daquilo que era a minha realidade normal, parar para pensar e pensar “ok, isto é mesmo o que eu quero fazer e é isto o que eu vou fazer daqui para a frente.”
Já que falaste disso, quando começaste a escrever, começaste a fazê-lo em inglês porquê? E porque não o português, já que tinhas essa vontade?
Porque na altura em que eu comecei a escrever… Eu comecei a escrever canções na faculdade e, nessa altura, as coisas que eu mais ouvia e que mais me influenciavam diretamente eram em inglês. Eu comecei a escrever ou a tentar escrever canções depois de passar um bom par de anos ouvir canções do Bob Dylan, do Leonard Cohen, do Elliot Smith, do Bill Callahan, do Will Oldham e nenhuma dessas pessoas cantava em português.
Então, quando eu comecei a tentar escrever em inglês, havia ali uma descendência direta daqueles que na altura eram os meus pais e da língua que eles falavam. A minha ligação ao português é muito anterior a isso, ela vem da minha infância e dos discos que o meu pai ouvia. Mas, no momento em que me tornei adulto e mais autónomo e fui à procura do meu mundo, percebi que as minhas referências não eram em português.
Então demorei muito tempo, apesar de eu ter aquela referência anterior de “quem me dera um dia escrever um disco como o Zeca Afonso ou como o Jorge Palma”, essa ideia foi atropelada por aquilo que era mais novo, mais fresco e mais interessante para mim na altura. Foi por isso que eu comecei a escrever em inglês. E depois de entrar nesse ciclo, tornou-se cada vez mais difícil afastar-me daí.
Eu vou ser sincera. Eu gosto mesmo de ouvir cantar em português, por isso, eu não conheço muito daquilo que tu fazias antes disto. Também gosto de Bob Dylan, também gosto de Leonard Cohen, Johnny Cash, sabes? Mas eu gosto como tu pegas um bocadinho naquilo que são as tuas influências para depois transmitir isso para o português. Quando começaste a compor em português, o que é que achaste? Era muito diferente daquilo que tinhas feito até então? Ficaste surpreendido por conseguires fazer música em português da maneira que estás a fazer?
Eu acho que é sempre difícil nós analisarmos aquilo que fazemos de uma forma muito objetiva, não é? E costuma-se dizer que ser juiz em causa própria é sempre difícil.
Tentando responder às tuas questões, que eu acho que são duas, a primeira é… Com o conhecimento que eu tinha da música portuguesa, eu achava que havia um mínimo que eu tinha de atingir, em termos de qualidade de escrita, para conseguir dizer que ia fazer um disco. Para eu me convencer a mim mesmo que ia fazer um disco, eu achava que tinha que chegar a um mínimo de um patamar, em termos de escrita. Só consegui avançar, quando eu achei que, ao escrever algumas canções que, na minha ótica — e isto é uma coisa muito subjetiva — na minha ótica, eu estava a conseguir fazer alguma coisa que tinha o mínimo de qualidade. Mas eu só conseguia aferir isso se eu encontrasse a minha voz na língua portuguesa, se eu encontrasse a minha forma de me expressar. Quem é que eu sou, o que é que eu quero dizer e como é que eu vou dizer, não é? E então, de alguma forma, eu achei que sim, que tinha encontrado isso.
Se isso se afasta muito do inglês, sim e não. Há questões sobre as quais eu me interrogo e reflexões que eu faço que provavelmente poderiam resultar na mesma numa canção em português. A questão aqui é que a construção é completamente diferente, porque a partir do momento em que tu mudas a língua, a maneira como tu organizas o teu pensamento, a maneira como tu organizas e constróis as tuas frases, a seleção de palavras que tu fazes é completamente diferente, tem um impacto completamente diferente, tanto em mim como nos outros. Eu sinto uma transparência muito maior quando estou a escrever em português.
Sentes-te mais exposto.
Sem dúvida. Sim. E acho que isso também acaba por, de forma consciente e inconsciente, ir condicionando a tua escrita. Tu vais direcionando a tua escrita de uma forma que tu encontres que seja sincera e na qual tu ponhas alguma verdade, mas, ao mesmo tempo, que tu consigas controlar também e que, do ponto de vista estético, tu dês aos outros aquilo que tu queres dar. Então eu acho que sim, acho que é diferente daquilo que eu fiz em inglês.
Se calhar não tanto na raiz do pensamento, mas na forma como construo e estilizo essa raiz de pensamento.
Eu acho que a língua portuguesa é difícil de cantar. Estamos a expor-nos mais.
A própria fonética é diferente, as métricas são diferentes, as palavras têm um impacto muito grande para o receptor, porque tu estás a ouvir uma música em inglês, tu já ouviste milhares de músicas em inglês, há uma data de frases e palavras cujo significado tu já nem sequer pensas. No português, isso não acontece tanto. Quando ouves uma palavra, sente-la na sua…
Ferem, não é? As palavras em português ferem um pouco.
Tu sente-la na sua plenitude, não é? Tu sentes exatamente o que é que aquela palavra significa e acho que isso, para quem escreve e para quem ouve, transforma a experiência, não é? É uma coisa muito diferente.
Tu também disseste que este disco cruza a escrita clássica de cantautor com uma abordagem contemporânea na instrumentalização. O que é que queres dizer com isso?
Imagina, quando eu construo essa ideia de que quero fazer um disco em português, os mínimos, em termos de escrita, que eu quero atingir para sentir que sou capaz de o fazer, eu estou a olhar para discos de pessoas como Jorge Palma, Sérgio Godinho, Zeca Afonso, Fausto, etc. Do ponto de vista da escrita, do ponto de vista da poesia para canção. Mas quando eu penso em construir um disco, a mim não me interessa construir um disco dessa maneira, do ponto de vista estilístico, musical. Então, esse cruzamento é um bocado como olhar para trás (do ponto de vista da referência, da poesia), mas olhar também para o presente, do ponto de vista da construção musical, daquilo que é a instrumentação, daquilo que são os arranjos, daquilo que é a produção, como eu acho que um bombo me deve soar em 2025 – para mim, não é interessante replicar um bombo de 1974. Então, quando eu falo nesse cruzamento, não sei se é exatamente nessas palavras, mas quando eu penso nesse cruzamento e quando esse cruzamento era uma das premissas da construção e gravação do nosso disco, era sobre isso. Por um lado, há aqui um respeito e uma admiração pela escrita de canções mais clássicas em Portugal, mas por outro lado, do ponto de vista musical, estético, de produção, etc., nós queremos que as coisas sejam contemporâneas.
Se tivesses que colocar uma etiqueta no teu disco, dirias que está no pop?
Tem que estar no pop, acho eu, não é? Eu já não sei quais são as etiquetas que estão neste momento, mas não é jazz, não é hip hop, não é rock, portanto, teria que ser pop, que é uma coisa bastante abrangente.
Mas seria um pop mais direcionado a um cantor como o Bob Dylan no início, do Bob Dylan a meio?
Eu acho que não podemos comparar nada daquilo que eu fiz neste disco com o Bob Dylan neste momento, mas acho que seria uma pop autoral, uma pop que assenta naquela palavra clássica do cantautor, não é? Da pessoa que escreve canções e que canta essas canções, que no disco foram vestidas de muitas formas, com eletrónica, etc., mas na raiz de todas aquelas canções está alguém que sentou ao piano ou à guitarra e que criou uma canção e escreveu um poema. Portanto, seria essa pop mais autoral, mais de cantautor.
E também aqui influenciado por outros cantautores, não é?
Certo, claro. Como acho que é sempre, como todos os cantautores, não é?
Imagina que alguém está a ouvir o disco pela primeira vez. O que é que esperavas que essa pessoa sentisse com a audição do disco? Quais são as emoções que queres ou que quiseste aqui despontar através do disco que querias que as pessoas sentissem?
Isso é uma boa pergunta. E não sei se alguma vez pensei sobre isso, para ser 100% sincero.
Não sei se estava à procura de despoletar alguma coisa no ouvinte. Talvez uma resposta um bocadinho simplista, e não sei se respondo inteiramente à tua pergunta, mas a única coisa que me ocorre enquanto penso no que tu dizes é que eu gostava que as pessoas se emocionassem, no sentido de sentirem alguma coisa.
E essas coisas são diversas ao longo do disco, não é? Pode ser alegria, pode ser nostalgia, pode ser paixão. Mas gostava que sentissem que aquilo que está a ser dito e aquilo que está a ser tocado é feito com sentimento. Acho que era isso. Isso é a única coisa que eventualmente eu gostaria que alguém percebesse. Felizmente tenho tido feedback de pessoas que ouvem o disco e entendem isso. Que há uma carga emocional grande naquilo que está a ser feito e naquilo que está a ser dito.