Afonso Cabral transportou para o Lux o ambiente do estúdio louva-a-deus, onde gravou o seu segundo álbum a solo, para nos apresentar as suas novas canções exatamente como elas foram feitas para serem ouvidas, com banda completa e cheias de luz
Estávamos a meio de “Contramão”, canção que não pertence ao álbum que Afonso Cabral e a sua banda tinham ido ao Lux apresentar, quando se deu aquele “clique” mágico, em que banda e público se alinham perfeitamente e é quebrado o gelo inicial. “Contramão”, lançada em 2019 em Morada, começou bem, mas foi depois do seu pequeno interlúdio em que se ouve uma gravação lo-fi (fiel à versão do disco) que a banda entrou em velocidade de cruzeiro. A banda, essa, não era pequena e, apesar de serem todos extraordinários músicos – todos com currículos que falam por si – e de se conhecerem já bastante bem (todos participaram na gravação de Demorar), não há de ser tarefa fácil garantir que Afonso Cabral, Pedro Branco, João Correia, António Vasconcelos Dias, David Santos, Margarida Campelo e Inês Sousa estão perfeitamente alinhados (embora eles o fizessem parecer). Mas voltando à canção e à sua segunda parte brilhante, a secção rítmica vincada guiou os restantes enquanto coros cheios obrigavam a plateia do Lux a juntar-se à festa, na discoteca solar que o design de palco perfeito ajudava a criar. No fim, foi a guitarra distorcida de Pedro Branco que deu ao momento o seu ar de rock, ainda mais solta e inventiva do que está no disco, dando-nos ali a certeza de que é em momentos como aquele que o guitarrista brilha. Estava o aquecimento feito e a partir dali seria sempre a subir, como, aliás, já estávamos à espera.
Não sabemos se terá sido para garantir a sala perfeita ou a disponibilidade de todos os membros da sua superbanda que Afonso Cabral adiou para o fim de fevereiro a apresentação do disco que lançou em novembro do ano passado. Demorar, sucessor de Morada, de 2019, encantou com os seus singles coloridos e com uma sensibilidade melódica ainda mais apurada que o disco anterior, tendo ficado muito bem colocado em várias listas de discos nacionais do ano, incluindo a do Altamont. Era por isso grande a expectativa de ouvir ao vivo as novas canções e de re-encontrar as antigas, ainda por cima tocadas como devem ser ouvidas, com banda completa, e depois do delicioso aperitivo que foi a sessão “Afonso Cabral ao vivo no louva-a-deus” disponibilizada 1 mês antes do concerto.
O dia tinha começado escuro e a chuva que encheu de água as estradas da capital quase levou consigo a nossa vontade de rumarmos a Santa Apolónia ao fim do dia. Ainda assim não deixámos que a chuva nos demovesse e a nossa perseverança foi recompensada com uma abençoada aberta. O plano prometia: jantar de amigos num restaurante perto do Lux, onde seria o concerto, ouvir finalmente ao vivo o disco novo do Afonso Cabral e ainda, para fechar, Pedro Ramos atrás dos pratos para mais dois dedos de conversa, uma cerveja, e quiçá um passinho de dança, antes de regressar a casa. Chegados à tasca combinada, lá estava a mesa reservada, o ambiente castiço esperado – “olhe eu vou querer o bacalhau à brás, ah já não tem, então venha uma alheira” – e está também toda a banda e respetiva entourage (adoramos Lisboa!). Findo o repasto saímos, depois dos artistas claro, e a noite continuou deliciosa com “Celulite” de Conan Osíris a acompanhar-nos enquanto subíamos as escadas que levam ao piso principal do Lux, naquele momento animado pelos DJ Louva-a-Deus, o estúdio/agência fundado por Afonso Cabral e Francisca Cortesão. O ato principal da noite seria, porém, no piso inferior, aonde rumámos sem demora para garantir um bom lugar.
O alinhamento da primeira metade do concerto manteve o equilíbrio entre canções de Demorar – o single “Indivisível”, “Tanto / Tudo / Tanto / Tudo” e “Manel” – e de Morada – “Verso e Refrão”, “Inércia” (que bem que estávamos ali com eles a torrar ao sol), e “Contramão” (de que já falámos). A superbanda encarregou-se de fazer com que cada faixa soasse tal como foi gravada – cheia, texturada e certeira – acrescentando, aqui e ali, pequenos apontamentos de caos controlado, quando os interpretes permitiam que os seus instrumentos fossem um bocadinho mais além. Isto viu-se tanto nos improvisos elétricos meio-rock-meio-jazz de Pedro Branco como nas teclas sofisticadas de António Vasconcelos Dias, e até nas interessantes variações que Afonso Cabral consegue com o seu timbre vocal.
A meio do concerto, Afonso ficou sozinho com a sua Gretsch e ouvimos “Tremor”, a doce canção que fecha o álbum novo, numa versão (ainda mais) despida e que tornou o andar de baixo do Lux num espaço íntimo e quentinho. Seguir-se-ia o “ventriloquismo musical”, como lhe chamou Afonso, de interpretar “Demorar”, originalmente cantada a duas vozes com Manuela Azevedo, sozinho (só acompanhado pela guitarra de Pedro Branco, que se lhe juntou). “Paraíso”, “Morada”, “Entre as Palavras e os Actos” e “Pronto Para Mais”, com Afonso e António a trocarem de lugares em palco, deixaram-nos perto do fim do concerto cedo de mais, mas faltava ainda “Confusão”, o segundo single de Demorar que Afonso Cabral gravou com o artista japonês Shugo Tokumaru. Tal como Manuela Azevedo, este não conseguiu marcar presença no concerto, mas, desta vez, não foi preciso recorrer ao ventriloquismo de Afonso. Isto porque Margarida Campelo e Inês Sousa assumiram corajosamente (e de forma brilhante) a tarefa de cantar, não só em japonês, como em uníssono os versos de Shugo Tokumaru. Naquilo que foi uma excelente representação da essência do álbum e daquele concerto, “Confusão” soou certeira e luminosa, transcendendo a versão original nos momentos certos. O irresistível build up instrumental já perto do fim certificou-se de que toda a plateia deixaria a sala a dançar e garantiu total adesão quando Afonso pediu ao público que ajudasse a cantar o refrão, num coro simbiótico que podia ter durado mais tempo, já que parecia que nem banda nem público desejava ir embora. “Resistir” era a canção de Demorar que faltava e foi no desejado encore que apareceu, dançante, solar e cheia, com banda e público a celebrar em conjunto o disco novo e as coisas bonitas que conseguem fazer em conjunto.
Há um grande sentido de comunidade na música independente em Portugal, talvez porque os poucos artistas que se atrevem a fazer da música vida se veem obrigados a desdobrarem-se em vários projetos, talvez porque se trata de um meio muito pequeno e toda a gente se conhece, ou talvez seja um pouco das duas hipóteses anteriores. Independentemente da razão, parece haver neste mundo uma grande dose de companheirismo e amizade, que faz com que não seja incomum ver as mesmas caras em concertos diferentes, por vezes em cima do palco, noutras a apoiar os amigos na sua vez de tocar, e isso é comovente. Foi esse o ambiente que se sentiu no Lux na apresentação de Demorar, uma noite pensada por amigos e para amigos – os que fizeram o disco, os que o promovem pelos meios ao seu alcance, os colegas de profissão e os fãs, que vão orbitando esta esfera, acarinhando-a e apoiando-a como podem. Estiveram muito bem, Afonso Cabral e a sua banda, e foi uma alegria ouvi-los a mostrar a música que claramente têm muito gozo em fazer. No fim, e depois de ouvir um pouco do digestivo que foi o DJ set de Pedro Ramos, rumamos a casa com o vinil de Demorar devidamente protegido da chuva, felizes por poder também fazer parte, à nossa maneira, deste universo.
Alinhamento:
- Indivisível
- Tanto / Tudo / Tanto / Tudo
- Verso e Refrão
- Inércia
- Manel
- Contramão
- Tremor
- Demorar
- Paraíso
- Morada
- Entre as Palavras e os Actos
- Pronto Para Mais
- Confusão
Encore
- Resistir
Fotografias de Vera Marmelo cedidas pela organização








