Se Lennon passou, na altura, o cabo dos trabalhos por ter dito que os Beatles eram mais famosos do que Jesus Cristo, Cobain meteu-se num sarilho maior: tornou-se o próprio Cristo. Um Cristo apunkalhado, é certo, mas os cabelos louros compridos, os olhos tristes e uma crucificação com a devida quota-parte de culpa colectiva não deixam margem para dúvida. Pelo menos para a minha geração, que se define essencialmente por três atributos: (1) sabermos o nome dos três “moscãoteiros”; (2) sabermos todos que a faixa 7 do Nevermind se chama “Territorial Pissings”; 3) lembrarmo-nos todos do dia em que Cobain morreu, o que provavelmente aconteceu no secundário com a notícia a espalhar-se de camisa de flanela triste em camisa de flanela triste, e uma estranha sensação de orfandade a pairar no ar (nota: se falhaste pelo menos em um dos três atributos, estás no link errado: não são aqui os artigos de fundo sobre os Smiths ou os Arctic Monkeys). A angústia adolescente espelhada nos filmes do James Dean ou na voz do Ian Curtis não contavam para nós. Não tínhamos nascido ainda, ou tínhamos nascido há pouco. Seria angústia postiça. Só Cobain era o nosso. A vulnerabilidade que víamos nos seus olhos, a raiva que ouvíamos nas suas canções e o sentimento de desadaptação que percebíamos em cada gesto seu era a nossa própria vulnerabilidade, raiva e desadaptação.
Mas comecemos pelo princípio. Cobain cresceu numa pequena cidade rural chamada Aberdeen nos arrabaldes de Seattle (a periferia de uma cidade periférica), perseguido pelos fantasmas de um pai distante e autoritário, e um divórcio dos pais que nunca conseguiu digerir emocionalmente, sempre com uma Aberdeen cinzenta e em declínio económico como pano de fundo. Cobain não se encaixava naquela mentalidade estreita de small town americana, e fez questão de bem cedo o expressar publicamente: “God is gay”, escreveu numa carrinha, o que lhe valeu umas quantas noites na prisão. Não era apenas tristeza e isolamento o que sentia: a sua depressão era Moby Dick e tê-lo-ia engolido mais cedo não fora ter encontrado na cultura punk o seu porto de abrigo. Ficou deslumbrado quando assistiu a um concerto dos seus conterrâneos Melvins e, desde então, descobriu o que queria fazer na vida: ter uma banda de punk rock. A sala de ensaios dos Melvins passou a ser a sua segunda casa, cumplicidade que partilhava com Krist Novoselic, de quem fica amigo. Afinal não estava sozinho: havia mais malta que não partilhava o ócio mental daqueles madeireiros machistas, homófobos e racistas de Aberdeen, e, pior ainda, fãs dos Cinderella e dos Motley Crue. Em 1987 Cobain convidou Krist para formar uma banda. Cobain na guitarra e voz, Krist no baixo, não sei quem na bateria. Nasceram os Nirvana. Ano 0 da geração X.
Primeiro passo: fugir da claustrofóbica Aberdeen em direcção à grande cidade. Coordenadas musicais: a cena hardcore estava a agonizar, o thrash. em ascensão não lhes dizia nada, era preciso reinventar de novo o rock. É aí que aparece a Sub Pop, a editora independente de Seattle que ao aglutinar bandas como os Mudhoney, os Soundgarden e os Nirvana no mesmo chapéu musical, acabara de inventar o grunge. Em 1989 gravaram o seu primeiro álbum, Bleach, num início tão promissor como incipiente: a produção era descuidada; o baterista (Chad Channing) era ainda um simples ser humano e não Dave Grohl; e sobretudo faltava-lhe a melodia (a melódica “About a Girl” é uma ilha perdida no meio de um encantador mar de ruído). O disco já tinha uma energia tremenda (que vontade ainda hoje tenho de partir centros comerciais sempre que ouço a “Negative Creep”) mas estava muito colado às suas referências hardcore, com Cobain a sentir ainda pudor em desenvolver o seu lado mais pop, o pior dos pecados para a contracultura indie de que fazia parte. Nesta fase, os membros dos Nirvana viviam na mais profunda miséria, habitando nas casas mais esquálidas, passando fome. Mereciam-no inteiramente. Ainda não tinham feito Nevermind.
Até que chegou ’91, e um conjunto de circunstâncias felizes se reuniu para que os Nirvana fizessem a sua obra-prima e conquistassem o mundo.
Circunstância nº 1: Cobain finalmente saíra do armário musical, assumindo as suas tendências pop anteriormente reprimidas. Neste passo, a influência dos Pixies foi decisiva: Kurt encontrava no território musical da banda de Boston – com a sua mescla de melodias cativantes e guitarradas agressivas – o seu habitat estético natural. O jogo de contraste entre um verso sussurrado e um refrão explosivo foi também gentilmente roubado à quadrilha de Frank Black. Ponham os Black Flag e os Beatles numa moulinex: eis os novos Nirvana. E que incrível escritor de canções era afinal Cobain.
Circunstância nº 2: não se subestime o impacto que a entrada de Dave Grohl para a bateria teve nesta transformação: Grohl era provavelmente o melhor baterista de rock & roll desde que John Bonham se asfixiou no lastro deixado por quarenta shots de vodka. Depois de tantos erros de casting, finalmente os Nirvana tinham uma secção rítmica irrepreensível: coesa, versátil e esmagadora.
Circunstância nº 3: Butch Vigg, então um ilustre desconhecido, revelou-se um produtor do outro mundo. Das suas mãos foram produzidos, mais ou menos na mesma altura, três álbuns perfeitos definidores da nossa adolescência: Nevermind, Dirty dos Sonic Youth e Siamese Dream dos Smashing Pumpkins (a next big thing depois dos Nirvana saírem de cena).
Circunstância nº 4: pessoal com bom gosto da David Geffen Company espreitou as demos do disco e gostou do que ouviu. Os Nirvana assinaram, então, por uma major, com toda a diferença que isso fez a nível da promoção e da distribuição.
Ainda assim, ninguém esperava o hype absolutamente avassalador que aconteceu: “Smells Like Teen Spirit” a aparecer nas rádios e na TV a toda a hora, concertos dos Nirvana a esgotarem-se em poucos minutos, e milhares de discos a venderem-se em poucos segundos. A minha geração tinha acabado de encontrar um hino, um porta-voz e riffs perfeitos para pormos no volume máximo sempre que os nossos pais nos voltassem a chatear.
Tudo mudou então nos circuitos de produção e distribuição da música. Graças aos holofotes apontados aos Nirvana, toda uma geração de rock alternativo antes escondida nas condutas subterrâneas da indústria musical pôde subir à superfície e banhar-se no seu quinhão de visibilidade mediática. Soundgarden, Pearl Jam, Alice in Chains, Stone Temple Pilots, Smashing Pumpkins, Faith no More, todos tiveram direito a vídeos na MTV em horário nobre; não, meus senhores, nunca mais vai haver um mainstream assim! Este desvio dos focos de atenção da indústria deixou na sombra o aberrante e decadente hair metal, dominante nos anos 80, e essa foi a grande realização histórica dos Nirvana: enterrar definitivamente a música empacotada dos anos 80, abrindo espaço para um som mais orgânico e autêntico que prevaleceu nos anos 90. Era justo. Se tínhamos passado a infância a gramar com as baladas intratáveis de Bon Jovi, Scorpions e Europe, era com malícia que saboreávamos a ironia de nos pertencer agora a nós o “final countdown” da sua extinção.
Mas não há bela sem senão. Se o sucesso de Nevermind foi uma bênção pública, foi também a pior das maldições privadas. Cobain era demasiado frágil para conseguir aguentar com a pressão da fama, e depressa as pedras começaram a ser arremessadas de todos os lados. Os media sensacionalistas esfocinhavam na vida privada de Cobain: casamento com Courtney Love, gravidez, dependência de heroína, traumas do passado, tudo era escalpelizado por vampiros sedentos e sem escrúpulos, para posterior transacção no mercado dos escândalos. Por sua vez, a contracultura indie de onde Cobain provinha – moralista e mesquinha como toda a contracultura tende a ser – acusava-o de se ter vendido, como se assinar por uma major e ter sucesso fosse um acto de deserção.
Em 1993 sai cá para fora o terceiro disco, In Utero: um álbum zangado com Nevermind e o seu maldito sucesso envenenado. As primeiras palavras da primeira canção não deixam dúvidas: “Teenage angst has paid off well / Now I’m bored and old”, um desabafo dirigido contra o mundo mas sobretudo contra si próprio. A produção foi entregue a Steve Albini, com o propósito deliberado do som ser sujo e despojado, sem os truques de produção de Nevermind. Era como se Cobain quisesse fazer tudo ao seu alcance para afastar a horda de fãs que o estava a matar aos poucos. Não o conseguiu. O álbum, aplaudido pelos fãs e pela crítica, chegou outra vez a número um. As pressões e a culpa continuavam a trilhar o seu caminho. E a sombra de Moby Dick crescia de dia para dia. Quando alguns meses depois Cobain disse ao produtor do concerto “MTV Unplugged in New York” que queria velas negras espalhadas pelo palco, Coletti perguntou-lhe atónito: “Como num funeral?”. Kurt respondeu: “Isso mesmo. Como num funeral.”
Em 8 de Abril de 1994, foi encontrado o corpo inanimado de Cobain com a cara completamente esfacelada por um tiro de caçadeira. Ao seu lado, uma carta de despedida que acabava com os versos de uma canção de Neil Young. “It’s better to burn out than to fade away”.
Acabo com uma breve resenha do percurso “post-mortem” dos sobreviventes dos Nirvana. Dave Grohl armou-se em “frontman”, fez uma banda de estádio de grande sucesso (os Foo Fighters), com os seus sete álbuns tão irrepreensíveis como irrelevantes; e assinou boas parcerias com o Josh Homme dos Queens of the Stone Age: baterista nos Them Crooked Vultures e em dois discos dos Queens, entre os quais o icónico Songs For the Deaf. Pat Smear, o segundo guitarrista dos Nirvana nos seus últimos seis meses de “tour”, participou em quatro álbuns dos Foo Fighters e ainda por lá anda. Krist Novoselic foi mais “low-profile”, criando e participando em vários projectos pouco conhecidos do público: os Sweet 75, o “country punk” dos Eyes Adrif (com malta dos Meat Puppets e dos Sublime) e a honrosa participação num álbum de uma das bandas “punk” que mais influenciaram os próprios Nirvana e todo o som de Seattle: os Flipper. Se nenhum dos três sobreviventes envergonhou alguma vez o nome dos Nirvana com os seus projectos pós-1994, também é verdade que nunca mais chegaram outra vez àquele raro lugar onde a música é de tal forma intensa que se confunde com a nossa própria vida. Teria que ser assim. Cobain foi sempre o motor criativo e emocional da banda que inventou os anos 90.