Carga de Ombro, o mais recente tomo discográfico do tondelense Samuel Úria, tem já bons meses de edição e várias críticas elogiosas. É um dos discos marcantes de 2016. A 02 de dezembro o músico toca no aniversário do Musicbox, em Lisboa: antes, falou com o Altamont sobre Internet, o Benfica e essa coisa sedutora chamada canção pop.
Foram “15 minutos à Benfica” de conversa no dia seguinte ao empate a três bolas do Benfica na Turquia. “Podemos falar, mas têm de ser 15 minutos à Benfica da primeira parte”, diz Úria, lamentando depois o pouco saboroso empate forasteiro do clube do seu coração. Avançamos e procuramos saber como é o dia-a-dia de um músico como Úria – Pelo menos quando não há gravações em agenda ou concertos no próprio dia.
“A vida de um músico não é tão ‘glamourosa’ como as pessoas possam pensar”, frisa. A escrita de canções é reservada “apenas para a altura”em que se pensa um disco, portanto nesta fase – sem álbum novo no futuro imediato – boa parte do tempo é passada a ler, ouvir música dos outros e recolher “apontamentos dispersos” sobre várias matérias.
“Reservo a escrita de canções para a altura em que penso um disco, até porque ainda penso sempre em fazer um disco e não um punhado de canções”, conta Samuel, o obreiro de discos conceptuais ou, pelo menos, unidos num elo comum entre as várias faixas: “Só escrevo um disco quando tenho fechada uma espécie de conceito, mesmo que para a generalidade das pessoas esse conceito possa não fazer sentido”, admite. O elo de ligação é normalmente o “curto espaço de tempo” em que compõe e grava as canções.
Hoje, Úria é escritor de canções globalmente aclamado e reconhecido, distante do obscurantismo ‘lo-fi’ dos primeiros tempos da Flor Caveira e das primeiras gravações há mais de dez anos. O “imediatismo” das primeiras canções é agora trocado por álbuns num sentido mais clássico de composição e gravação, mas o áspero dos primeiros tempos não é esquecido ou posto absolutamente de lado. Úria confessa que, pontualmente, ainda regressa a “esse processo” de maior liberdade. E concretiza: “Gosto de ter a noção de que por mais pop que seja a minha aventura atual, ou por mais público a que chegue, consigo ter um pé, autonomia e autoridade de me desmascarar e desmanchar e fazer discos espinhos e difíceis de pegar”. A Internet é palco privilegiado para mostrar pontuais gravações menos passíveis de chegar a um longa-duração numa editora como a Valentim de Carvalho, que editou o recente Carga de Ombro.
Questionamos Úria sobre as palavras de um amigo em comum que não é devoto absoluto da sua música mas que vê no cantor, compositor e cronista (é ler o portal Sapo) um ótimo “fazedor de Internet”, com comentários bem-humorados em várias páginas. Úria ri-se e faz uma analogia: “Imagino que a Internet que eu faço funcione como o professor Marcelo a ler os seus livros, ando sempre de um lado para o outro. É algo instintivo, nem publico muita coisa mas andando por lá vejo coisas que me apetece comentar e vou lá. Essa excelente internet que alegadamente faço, ao contrário dos meus discos, é complemente desprovida de conceito”, adverte todavia, entre risos.
Voltamos à música. “Acredito nos discos como objetos de uma altura e de uma maneira, com uma identidade. É uma coisa que crio já a pensar que vou deixar de ter controlo nela assim que ele sai”. O resultado para combater um eventual marasmo é tocar ao vivo. No Musicbox, como vai ser? “Vou estrear uma banda. Nenhum dos músicos é novo a tocar comigo mas aquele formato ainda não experimentei. A própria sala puxa-me para um concerto mais rock, e vou basear o alinhamento não só em canções mais elétricas como se calhar até reaproveitar algumas canções sem esse condão originalmente e reforçá-las com energia e brutalidade.”
Lá estaremos. E aguardaremos o comentário perspicaz do músico à fotografia do concerto que publicaremos no Facebook elogiando o artista, a obra e celebrando o rock no Caos do Sodré da capital.