O dia derradeiro do Meo Kalorama 2026 não perdoou, satisfazendo qualquer fã de música pesada.
Não é por ser domingo que vai haver abébias. Com nomes como Peaches, Clipse e Turnstile, este prometia ser um dia em que ninguém iria parar de dançar, entrar em moches ou levantar as mãos no ar. Quando chegámos ao recinto, os Travo estavam a abrir as hostilidades com os seus riffs rápidos e vozes distorcidas. A banda de Braga, catapultada graças à sua sessão na americana KEXP, tornou o Parque da Bela Vista num vortex sonoro, com os seus ritmos motorik e solos de guitarra incessantes a garantir que ninguém sairia do moche vivo. Com um disco novo numa nova editora prestes a sair, a banda tocou com a ginga de quem está pronto para conquistar o mundo. Uma excelente maneira de abrir aquele que, provavelmente, foi o dia mais pesado do festival.

Porém, não era rock pesado o que mais queriamos ver a seguir. Uma das bandas que mais curiosidade suscitava no “dia do rock” eram os Pelados, banda de indie rock de São Paulo, que começaram no Kalorama a sua primeira digressão pela Europa. Na mala traziam o seu terceiro álbum, Contato, onde brincam com o experimentalismo do hiper pop e da música electrónica, mas era foi mal, de 2022, o disco que mais esperávamos ouvir. Abriram com “os pelados sabem demais” e pareceu-nos que Manu Julian, a vocalista e frontwoman, deu concertos em festivais toda a sua vida, tal era o à vontade com que encarava a plateia, sem ter sequer um instrumento por trás do qual se esconder. Ao longo do concerto fomos ouvindo também Helena Cruz (baixo), Vicente Tassara (guitarra) e Luiz Martins (sintetizadores), ora a cantar ora a acrescentar momentos cómicos nas canções brincalhonas da banda. Se gostam de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo (as duas bandas partilham, aliás, dois membros) não deixem de ir espreitar os Pelados. Se já gostávamos do que ouvíamos em disco, o bem disposto concerto que deram no Kalorama só nos convenceu de que são uma banda que merece toda a atenção.

Com o punk dos High Vis ainda em fundo, voltámos a subir ao palco Sagres onde, mais uma vez, o indie rock falaria mais alto, desta vez com o concerto de Wednesday. Os americanos não vinham a Portugal desde que tocaram no Vodafone Paredes de Coura de 2024 portanto era a primeira vez que ouviríamos ao vivo o disco Bleeds, de 2025. Foi precisamente este trabalho que dominou o alinhamento, ao longo do qual foi possível testemunhar o talento vocal de Karly Hartzman, os dotes na guitarra de Jake “Spyder” Pugh, que neste momento substitui MJ Lenderman, e a sonoridade hipnotizante da guitarra lap steel de Xandy Chelmis. Entre invocações de Dolly Parton (antes de tocarem uma canção mais country) e incentivos à formação de moches (afinal, tínhamos de aquecer para os pits de Turnstile e Deftones), o concerto foi energético e satisfez a nossa vontade de reencontrar os Wednesday.

Enquanto a banda de Karly Hartzman acabava o seu concerto, já Peaches pisava o palco MEO, numa sobreposição esquisita que ainda não tínhamos experienciado no festival. A artista canadiana de 59 anos atuou na primeira edição do festival, em 2022, no palco secundário, sendo o concerto no palco principal antes das duas cabeças de cartaz uma grande promoção que nos deixava curiosos sobre se Peaches estaria à altura. Claro que estava. Ainda assim, não lhe facilitaram a vida. É inegável que a autora de “Fuck de Pain Away” faz música pesada, mas é provável que não corresponda exatamente ao tipo de música pesada que quem viu High Vis e esperava Turnstile aprecie. Por essa razão, Peaches enfrentou uma plateia que, pareceu-nos a nós, demorou a aquecer, não se deixando convencer (logo) pelos figurinos bizarros da artista e dos seus bailarinos andrógenos. Porém, é impossível ficar indiferente a um concerto de Peaches, onde o objetivo é provocar, chocar, confundir, e até enojar. Não conseguimos parar de olhar, como se de um louco acidente de carro se tratasse, e à medida que vamos pensando “mas o que é que será que ela vai fazer a seguir” e vamos lendo as mensagens profundamente políticas e necessárias (“Direitos Trans Já” e “Palestina Livre”), damos por nós a não resistir a saltar com Peaches ao ritmo das suas alucinadas músicas. Quem estava mais perto do palco também não teve muita escolha se não “play along”, uma vez que Peaches andou literalmente pelas mãos do público e passou bastante tempo no fosso a obrigar até os mais indiferentes a conectarem-se com o seu espetáculo. Canções de No Lube So Rude, lançado este ano, dominaram o concerto, mas foram os hits “Boys Wanna Be Her” e “Fuck the Pain Away”, com a participação de Brendan Yates dos Turnstile, que mais entusiasmo despertaram na plateia. Praticamente sozinha em palco, Peaches agarrou o MEO Kalorama pelos cabelos e obrigou-o a encarar de frente temas desconfortáveis: sexo, direitos das pessoas queer, o direito das mulheres ao seu corpo e o envelhecimento. Tudo enquanto nos pôs a dançar. Uma força da natureza.

Parar é morrer e, por isso, de Peaches fomos a correr para o concerto seguinte no palco Sagres. Não é raro encontrar Freddie Gibbs em Portugal. No concerto até brincou com a ideia de se mudar para cá. Com The Alchemist a acompanhá-lo, o repertório focou-se maioritariamente nos excelentes Alfredo e Alfredo 2, regra geral, dois discos mais relaxados do que o gangsta rap a que o rapper nos habituou. De resto, é difícil dizer algo de um concerto de Freddie Gibbs que não tenha sido dito já. O rapper cantou com o entusiasmo a que nos acostumou, fez questão de gritar “Fuck Police” várias vezes e trocou muitas piadas com Alchemist. Talvez a única coisa a realçar seja a fraca qualidade da voz de Gibbs, com uma falta de definição que tornava difícil por vezes perceber que palavras estavam a sair da boca do MC.

Já há algum tempo que os Turnstile têm andado a dar que falar. Depois de um concerto glorioso no Primavera Sound do ano passado, a banda americana fez uma victory lap no Parque da Bela Vista com um concerto de 99 octanas. Depois de, inexplicavelmente, passarem “O Corpo é Que Paga” de António Variações nos altifalantes, a banda entrou em palco e mal nos deu tempo de descansar na hora seguinte. Ao som de “Birds” do excelente Never Enough, o público começou um moche que não acabou até à última música. Enraizados na tradição do hardcore mas com uma sensibilidade moderna, são o tipo de banda que sabe “partir chão” como pessoas crescidas, mas não têm qualquer pudor em baixar o volume e ceder à melodia, como aconteceu com a faixa-título “Never Enough”, um final verdadeiramente emotivo para aquele que foi um dos melhores concertos do festival.

De volta ao palco Sagres e ao gangsta rap, foi com entusiasmo que recebemos os Clipse, o duo constituído por Malice e Pusha-T. Com Let God Sort Em Out ainda fresquinho nos nossos ouvidos, pudemos ouvi-lo praticamente todo vindo diretamente da fonte. Tanto Pusha como Malice mostraram-se agradecidos com o público fiel que, apesar de jovem, conhecia as letras todas, inclusive “Grindin’” uma música que conta com quase vinte e cinco anos. Só é pena que, como tem acontecido com os concertos de hip-hop neste festival, a qualidade de som tenha deixado muito a desejar. Por baixo das vozes dos MCs só se ouviam graves e, muito lá em baixo, a mais parca sombra de um instrumental.
Provavelmente o momento mais esperado da noite foi o regresso dos Deftones a Portugal. A banda, encabeçada por Chino Moreno, saciou qualquer pessoa que ainda tivesse sede de rock depois de Turnstile, num concerto repleto de hinos bem conhecidos do público. Como boa banda veterana que são nesta altura do campeonato, os Deftones passaram a sua carreira em revista, tocando músicas de quase todos os seus discos, à semelhança do que fizeram da última vez que cá estiveram, no Primavera Sound 2025. O público, ainda a recuperar de Turnstile, fez o possível para acompanhar a energia irresistível do grupo. Quando os Deftones tocam, é como se estivéssemos a assistir ao momento mais importante das nossas vidas, em que tudo está em jogo e temos tudo a perder. Esta sensação é realçada pelo jogo de luzes e efeitos que conferiram ao concerto uma atmosfera psicadélica, apesar de ligeiramente datada. Glorioso.
É estranho ver a quantidade de artistas deste tipo de música rock a encabeçarem um festival de música. Parece que guitarras e guitarradas voltaram a estar na moda, e ainda bem. O Kalorama fechou a sua edição de 2026 com um dia que, apesar de desconexo musicalmente, conseguiu agregar vários tipos de música pesada para garantir que na segunda-feira seguinte chegaríamos todos tarde ao trabalho.
Texto por Ana Lúcia Tiago e Miguel Moura
Fotos por Inês Silva








