O público estava em modo culto. Toda a gente à volta da banda, focadíssimos no que estavam a ouvir e a fazer aquela dança típica com a cabeça que se assemelha a um aceno. Havia músicas em que os fãs cantavam, outras em que ninguém cantava e quase fechavam os olhos para ouvirem melhor.
Houve um tipo de Lisboa que me falou de uma banda icónica do Porto chamada Sereias, dizendo que iam atuar num espaço perto da Baixa. Nunca tinha ouvido falar e, como me assumo uma expert em tudo o que é produto da Invicta, decidi ir lá ver e ficar a conhecer. Sem pesquisa prévia, sem conhecimento nenhum sobre o assunto. Completamente às cegas. É assim que começa esta história.
A Lovers & Lollypops é uma daquelas salas muito específicas que honestamente não se encontram em qualquer lado: underground, mas aconchegante, como se alguém tivesse transformado uma cave em algo que se sente quase como um segredo partilhado, mas bem guardado. Sabia perfeitamente da existência deste espaço, mas nunca tinha ali estado. Foi uma ótima primeira impressão.
Quando cheguei, escolhi o sítio da sala onde queria assistir ao concerto e comecei a fazer aquilo que faço melhor: observar. Logo à primeira vista, havia um grupo de jovens pequeno a conversar em círculo e a comer maçãs, o que me pareceu um sinal de alguma coisa, embora não soubesse bem de quê. E continuei sem saber, mas achei interessante.
Os elementos dos Sereias foram chegando à sala aos bocados. Reconhecia as caras de todos e, portanto, não fazia sentido nenhum não conhecer a banda e continuou a não fazer durante toda a noite. De vez em quando puxava pela cabeça para tentar perceber onde é que já tinha visto cada um deles, mas, no fundo, também achei piada que isso permanecesse uma incógnita. A sala estava longe de estar cheia quando começaram. Mas mal se ouviu a música, encheu. Isto, penso eu, é a definição prática de reputação.
O que se seguiu é difícil de descrever a alguém que não esteve lá e provavelmente também é difícil de descrever a alguém que esteve. O vocalista não cantava tanto como declamava: poesia raivosa, política, às vezes incompreensível, às vezes perfeitamente cirúrgica. “Venham ter comigo, eu queimei a Bíblia”, dizia. “A hipocrisia deles mete-me nojo, meu amor.” A certa altura percebi que ele estava literalmente a ler a letra, papel na mão, como se estivesse num palco de teatro do século XIX. Funcionou. Mais tarde, durante uma pesquisa, vim a perceber que este é todo o intuito e conceito do género musical deles.
O som dos Sereias é difícil de arrumar numa prateleira para mim. Há punk, claramente, mas há também qualquer coisa de um fado épico na forma como o vocalista carrega as palavras. Não na melodia, mas no peso. As músicas alternam entre momentos de caos total, em que a guitarra e a bateria parecem querer destruir o sítio, e outros quase contemplativos, onde sobra espaço respirar e para as letras aterrarem. É música que não pede licença.
Havia um trompete. Não estava à espera do trompete. Havia também um instrumento que desconheço completamente, mas que me pareceu uma muito pequena vuvuzela e que me fez pensar em feiras medievais, o que achei sensacional. Percebi muito rápido que aquele não é um concerto para fracos. Aliás, dar um concerto assim devia, no mínimo, ser um desporto de alto rendimento, porque a entrega de cada um dos elementos ao momento é, literalmente visível e algo que garantidamente não se encontra em qualquer concerto.
O público estava modo culto. Toda a gente à volta da banda, focadíssimos no que estavam a ouvir e a fazer aquela dança típica com a cabeça que se assemelha a um aceno. Havia músicas em que os fãs cantavam, outras em que ninguém cantava e quase fechavam os olhos para ouvirem melhor.
Havia três crianças lá dentro, todas com auscultadores noise-cancelling. A menina tinha daqueles auscultadores com orelhas de gato e umas sapatilhas que davam pequenas luzes coloridas. Estava completamente na dela no meio de toda aquela energia punk e apocalíptica. Olhei para ela e percebi que parecia uma metáfora minha naquele concerto: fascinada pelo espetáculo, sem pertencer exatamente àquele mundo mas a querer saber mais.
Em altura de celebrações da liberdade e em véspera de 25 de abril, o vocalista dedicou uma boa parte da noite a discursos revolucionários. Se eu tivesse de explicar a alguém como seria uma reunião das FP25, então talvez pensasse em mostrar um vídeo do concerto. Foram dados recados a políticos portugueses e a um senhor alaranjado das Américas, partilhadas opiniões sobre questões como o pacote laboral (com uma sugestão anatómica específica sobre onde o meter), sobre Che Guevara e Fidel Castro e sobre a uma potencial inevitável revolução. “Que venha a revolução e que venha bem depressa”, disse António Pedro Ribeiro, como um último apelo não a quem o estava a ver e a escutar naquela sala, mas ao mundo inteiro.
Saí do Lovers & Lollypops sem saber o nome de uma única música, sem ter percebido algumas partes das letras, e completamente convicta de que tinha assistido a algo genuinamente mítico. Tal como indica o nome deles.
O tipo de Lisboa tinha razão.
Texto de Rita Matos Braga, Fotografias de Jorge Resende
























