Há festivais que vivem do cartaz; outros que se constroem na procura do desconhecido e na descoberta de novos artistas. Há também os que encontram na geografia um gesto de irreverência e os que assumem, cada vez mais, o papel essencial da descentralização. O Tremor reúne tudo isto.
Dia 1
Na primeira noite de festival, o destaque vai para Yerai Cortés e para o seu espetáculo Guitarra Coral, que transformou o Coliseu Micaelense, em Ponta Delgada, num verdadeiro tablao andaluz. Dir-se-à que Cortés segue uma corrente dita mais tradicional do flamenco: não o reinventando no sentido mais moderno da palavra como C. Tangana em El Madrileno, ou até mesmo Rosalía em El Mal Querer, mas cunhando-o com uma linguagem refinada e identidade própria, sem nunca se desviar das raízes do género, encontrando novos espaços dentro da tradição. O resultado: um concerto que não depende de artifícios. O espetáculo vive da presença discreta do artista em palco e do seu rigor e técnica de guitarra irrepreensíveis. Vive da mise-en-scène que muda a cada par de canções e nos parece querer introduzir às que aí vem. Vive do coro feminino que o acompanha ao longo de toda a exibição. Vive dos silêncios e do seu permanente contraste com os momentos de explosão ora da guitarra a solo, ora do coro, ora de ambos a uma só voz.
Dia 2
No segundo dia de Tremor, foi na Ermida de Nossa Senhora da Paz que encontrámos Vera Morais, depois de uma caminhada de cerca de meia hora ao longo da encosta até ao topo, onde se abre uma vista privilegiada sobre Vila Franca do Campo e o seu ilhéu. A artista experimental apresentou uma performance minimalista, com pouco mais de vinte minutos, sustentada por um rufar contínuo de pratos que se estendeu num efeito de drone ao longo de todo o concerto. Sobre essa base densa e hipnótica, surgiam vocalizações estranhas e delicadas ao jeito de artistas como Marina Herlop.
Ao final do dia, chegava o primeiro Tremor na Estufa. E foi de frente para a ilha de Santa Maria, na costa sudeste de São Miguel, do alto do Miradouro do Pico dos Bodes, que se encontrava montado um cenário cuidadosamente desenhado para o que se seguiu. Jup do Bairro trouxe flores e uma generosidade desarmante, estabelecendo um diálogo provocador e constante com o público, tanto por via das suas letras urgentes, como através das frases soltas ditas de improviso e com aparente leveza, entre canções, mas carregadas de intenção. Acompanhada por Fuzo, fez da palavra e da sua voz frágil, por vezes imperfeita e até pouco afinada, mas profundamente expressiva e cheia de alma, o verdadeiro centro gravitacional da atuação, sobrepondo-se, na grande maioria das vezes, às batidas mais indomáveis dos seus instrumentais. Um concerto que se fundiu com um pôr-do-sol prolongado, de céu nublado, ao mais típico jeito insular.
A noite ficou marcada pelo regresso de Vaiapraia ao festival. A banda voltou a integrar o cartaz depois do concerto pujante e vigoroso que deu em 2023, na Black Box do Centro de Artes Contemporâneas. Desta vez, coube a Rodrigo e à sua banda inaugurar o palco da Sala 1 das Portas do Mar, num arranque que conciliou energia e cumplicidade imediata com o público mais jovem e próximo da linha da frente da plateia. A entrada fez-se ao som do rapper açoriano Espama Trincana, num gesto simbólico, quase de homenagem, que antecedeu a chegada da banda ao palco. O concerto abriu com “Fogo Fera” e construiu-se, sobretudo, a partir de uma sucessão de temas que já se afirmam como hinos do seu repertório, seja do mais recente Alegria Terminal, seja dos seus trabalhos anteriores. “Kolmi”, “Ulucrudador”, “Tupperware Furado”, “Eu Quero eu Vou”, entre tantas outras, desenharam um concerto direto e profundamente honesto. Não há duas sem três e como o próprio disse em palco, o desejo é claro: que Vaiapraia se tornem os Shellac do Tremor. E é difícil não querer o mesmo.
Dia 3
Ao terceiro dia de Tremor, um iraquiano e dois belgas entram num bar. Aliás, numa piscina. O segundo “Tremor na Estufa” aconteceu no Complexo Municipal de Piscinas da Lagoa e podia facilmente ser o cenário de uma house party de um coming of age americano do início dos anos 2000, ou algo digno de um palco MTV Beach House. Com o público disperso em redor e dentro do tanque, os Use Knife entregaram um concerto surpreendente e vibrante. Algures entre Acid Arab e Yasmine Hamdan, os Use Knife pautaram-se por um concerto que foi conquistando a plateia pouco a pouco. O público deixou de ser mero espectador, mas sim parte integrante do próprio concerto.
Pouco depois, na sala 2 das Portas do Mar, começava o concerto de Aya Sinclair, aka AYA. Set pesado e direto, com humor ácido à mistura. Aconteceu às 21h45, mas podia ter acontecido às 9h45 de um after no dia seguinte. AYA fala na primeira pessoa, crua, sem filtros, e constrói um discurso a diferentes vozes. Fala de forma direta e frontal, encara a plateia de frente, mesmo quando não está a cantar, fazendo do silêncio uma provocação. Há qualquer coisa desconfortável e magnética na sua presença: um jogo constante entre tensão e catarse, onde o corpo acompanha a distorção da sua voz entre batidas industriais e momentos mais celestiais.
Uma hora mais tarde, na sala ao lado, já cheia, aguardava-se pelo último concerto: Arsenal Mikebe ft. HHY. Aqui, a energia transformou-se novamente, mas assumiu uma nova forma: vozes hipnóticas, percussões insistentes numa pulsação quase tribal que rapidamente tomou conta do espaço. Se AYA nos tinha colocado num estado de tensão um tanto introspectiva, Arsenal Mikebe e HHY empurraram-nos para o movimento, num concerto que cresceu em intensidade, camada sobre camada e culminou numa espécie de transe coletivo.
Dia 4
O dia 4 do Tremor arrancou com o conjunto bracarense Amijas, no Mercado da Ribeira Grande, para o último “Tremor na Estufa” deste ano. E há algo particularmente único aqui: fechar uma secção especial festival no palco mais comunitário possível. Um espaço onde festivaleiros, habitantes e comcerciantes locais se encontram e sem barreiras partilham a mesma plateia. É precisamente neste ponto que o lema “Tremor é Amor”, inscrito em cada pulseira do festival, deixa de ser apenas um slogan bonito e ganha sentido. Que outra escolha que não Amijas para completar este cenário de convivência e partilha? O palco não poderia ter sido mais adequado a uma banda que se constrói tanto a partir do colectivo: no espírito que evocam, na afirmação feminista que atravessa cada verso cantado. Podemos, musicalmente, apontar alguma simplicidade ou até uma certa crueza nos instrumentais, mas seria redutor ficar por aí. O verdadeiro impacto da banda não reside na complexidade das suas composições, mas na urgência da mensagem que partilham e na forma como o fazem. Sete em palco (mais Tricla) foram suficientes para rapidamente multiplicar vozes. O que começou como um espetáculo transformou-se, sem esforço, numa manifestação coletiva, musical, política e emocional, bem fiel ao ADN da banda. Shout out para o dj-set de ASCA que serviu aquecimento bem suado no intervalo entre o concerto de Amijas e MONCHMONCH.
Há um certo frenetismo no rock brasileiro que apesar de lhe ser intrínseco é difícil de explicar. A obra de MONCHMONCH não se sustenta apenas no flow hiperativo da voz, nem vive só das guitarras ruidosas. Também não se sustenta exclusivamente na secção rítmica, embora ela tenha um papel determinante. MONCHMONCH é uma soma de tudo isto e embora o faça à distância, junta-se à cena rock brasileira que vive um bom momento. Bandas como Varanda, Terraplana (estes últimos que este ano se apresentam no Vodafone Paredes de Coura), ou Exclusive Os Cabides, são uma ínfima amostra dessa vaga de jovens artistas brasileiros carregados de talento e vontade. Lucas Monch apresenta-se em palco rodeado da sua super banda: Luís Barreto (800 Gondomar, Triunfo dos Acéfalos) e os integrantes dos Tédio FC. Vestidos a rigor, as indumentárias goofy e arriscadas, parecem escolhidas para amplificar o frenetismo do instrumental e assim ajudar à envolvência no espetáculo. O set que trouxeram ao Tremor abriu com “Parede Pedra”, single proveniente do seu primeiro disco “GUARDILHA ESPANCA TATO”, e seguiu por músicas como “Ruínas”, “Vampira”, “Merda”, “Netuno” e a mais aguardada “JEFF BEZOS PAGA UM PÃO DE QUEIJO”, onde a subida ao chafariz do mercado, tão espontânea quanto inevitável nos concertos de Monch, serviu de cereja no topo do bolo e final apoteótico perfeito.
Diretamente do Bairro do Fim do Mundo, no Estoril, La Familia Gitana abriu as hostes das Portas do Mar ao quarto dia de festival. Num tom quase envergonhado, mas carinhoso, houve um cuidado mútuo desde o primeiro momento: uma banda que acolhe e um público que responde na mesma medida. Mas a festa e calor humano aconteceram, sem resistência. Entre palmas, refrões partilhados e uma energia que crescia de canção para canção, o concerto foi-se transformando num espaço de comunhão entre a plateia e os jovens músicos de Cascais.
Durante o changeover, um cenário bem diferente do anterior ganhava forma. À frente, dois “frigoríficos” Ampeg 4×12 e atrás dois stacks line array, antecipavam um espetáculo promissor, quase criminoso, auditivamente falando. E assim foi. The Bug + Warrior Queen não vieram para subtilidades. Graves para lá do limite do suportável, uma batida densa, quase física, e um nevoeiro cerrado a fazer lembrar o concerto de Tim Hecker em Lisboa, na Culturgest, em 2023. Havia ali algo de apocalíptico. A marina tremia, literalmente. E para quem cresceu com referências como a série Skins, este foi um reencontro magistral, embora sofrido.
Dia 5
Na Sala 1 das Portas do Mar, os Angine de Poitrine abriram o último dia de festival, com direito a sala cheia e com o peso de quem é apontado como sensação do momento. À volta da banda, cresce a discussão nas redes sociais: será só hype ou há matéria para durar? Há quem desconfie e aponte o dedo ao mistério. Certamente essa ambiguidade alimenta o fenómeno e ainda bem. Num ecossistema saturado de informação, Angine de Poitrine parecem operar no sentido inverso: pouca exposição, identidade desconhecida, para já, e uma estética quase hermética que obriga o público a responder e a projetar o seu significado. O hype não nasce apenas da música, mas da forma como a banda se posiciona no espaço público. Em 2006, o jovem Alex Turner dizia no videoclip oficial de Arctic Monkeys para “I Bet You Look Good on The Dancefloor”: “We are the Arctic Monkeys. This is I Bet You Look on The Dancefloor. Don’t believe the hype”. 20 anos depois o fenómeno hype parece ser mais curto e efémero, mas no caso particular da banda canadiana, mais do que uma estratégia promocional, soa a sintoma de um tempo que valoriza o enigma. Musicalmente, é impossível entrar no território da música microtonal contemporânea sem pensar no álbum Flying Microtonal Banana dos King Gizzard and The Lizzard Wizzard, ou nos próprios Altin Gün. Angine de Poitrine não fogem a essa linhagem, ainda que a filtrem à sua maneira com uma abordagem mais matemática e cerebral. O seu concerto foi directo: 45 minutos certos, sem pausas de uma execução irrepreensível e domínio técnico evidente. Impressionante até para quem ainda está a tentar perceber exatamente o que está a ver.
Mais tarde, no Ateneu Comercial, seguiram-se Housepainters directamente de Amesterdão e com uma identidade bem definida. Synths gordos e coloridos, vozes bem à frente na mistura, bateria simples e marcada, tudo a apontar para um imaginário anos 80 mas adaptado ao presente. Dos Siouxsie and the Banshees, aos Happy Mondays, sem esquecer as norte-americanas Automatic e os Squid, são claras as referências de Housepainters. Atrás da banda, em palco, uma pintura de OVNIs a sobrevoar o Porto de Ponta Delgada criou um enquadramento inesperado. A música parecia dialogar taco a taco com aquele cenário como se tudo fizesse parte do mesmo universo.
Cate Le Bon trouxe um concerto sereno e etéreo, fiel ao seu registo habitual. A sua voz hipnótica, a guitarra a sustentar o esqueleto rítmico, o saxofone oitavado e o synth a desenhar o restante espaço, foram o suficiente para fazer daquele um dos concertos mais tranquilos e belos do festival. Numa fluidez quase contínua, a artista galesa serviu-se sempre de cada salva de palmas para transitar para a canção seguinte, como se o concerto fosse uma peça única, sem cortes. Uma narrativa que se desenrolava sem pressa e sem grandes novidades em palco. Curiosamente, do lado de cá, o público nem sempre acompanhou. Alguma distração e desconcentração tornaram, em certos momentos, o ruído da plateia mais alto que o som do próprio concerto.
Coube a Angry Blackmen o papel de encerrar a Sala 1 das Portas do Mar e consigo a dupla natural de Chicago trouxe o oposto do concerto anterior. Batida pesada e flow intenso sem espaço para respirações. Sente-se em Angry Blackmen um cruzamento entre o punk, o industrial e o hip-hop bem ao estilo de Ho99o9. Em palco aliam o peso das suas canções à sua presença, atitude e discurso. O clímax chegou cedo quando a menos de metade do concerto Brian Warren abriu o público ao meio, e de bandeira LGBTQIA+ em punho, deambulou entre palco e plateia enquanto cantava.
Assim se cumpriu mais uma edição do festival, que provou, novamente, ser um lugar de encontro e descoberta. Que continue a afirmar-se como um momento único, que celebra a arte despida do conteúdo mais fútil e lógicas de consumo capitalista. Que nunca perca a rara capacidade de transformar um território único e tantas vezes esquecido, numa experiência comunitária envolvente. Longa vida à música em todas as suas formas. Longa vida ao Tremor.
Confira as restantes imagens do Festival em terras açorianas:
Texto de Luís Toscano e Fotografias de Gonçalo Nogueira































