Acordar estremunhado, com pouca luz a chegar lá de fora, entre os buraquinhos dos estores. Erguer o corpo dorido de (mais) uma noite dormida em má posição (apesar dos mil vídeos que nos vão sendo atirados pelas redes sociais e que são vítimas de um scroll rápido, quero lá saber de almofadas xpto e os malefícios de dormir de lado). Vestir uma sweat, para compensar ter deixado os lençóis para trás. Silenciosamente arrastar-me pelas escadas abaixo, para janelas já abertas, por onde só se vislumbram nuvens e um cinzento a perder de vista.
Há dias em que o outono (ou talvez já o inverno, neste momento ainda não estou acordado o suficiente para me lembrar do dia em que estamos) se instala com uma delicadeza melancólica, de quem sabe que veio para ficar. Finalmente penso no calendário e percebo que ainda faltam um porradão de dias para a Primavera. Se bebesse café, prepararia um, para efeitos de mais um tick na lista de clichés que já para aqui vão (mas há mais a caminho).
O sofá (também cinzento, que apropriado) chama-me, mas vai ter de esperar um bocadinho, antes há todo um ritual de preparação para o momento de me deixar cair nele. Primeira tarefa: escolher um CD para pôr a rodar (sim, vinil seria mais romântico, mas também mais previsível, pelo que sejamos realistas, neste mar de pura ficção). Há muitas boas opções para acompanhar o mood do dia, felizmente, mas já não vou a este há algum tempo. Comando do leitor, livro, manta, posso sentar-me. Arrancamos assim:
“I’ll lose some sales and my boss won’t be happy
But I can’t stop listening to the sound
Of two soft voices blended in perfection
From the reels of this record that I’ve found”
Na mouche, meus caros Erlend Øye e Eirik Bøe, isto era para ser um texto de mim a falar de mim próprio, e vieram usar o mesmo subterfúgio, e falar das vossas macias vozes, misturadas na perfeição.
Passamos para “Misread”, na qual ecoa uma doce inquietação: “If you want to be my friend, you want us to get along” e é como se a própria estação do ano falasse comigo, pedindo reconciliação com a lentidão, com o recolhimento. O inverno não é só ausência de sol, é também a possibilidade de se estar fisicamente num espaço, mas imerso em objectos que nos transportam para outros espaços (e tempos), letras de canções nas quais nos revemos e nos descobrimos.
O livro ganha interesse e desligo momentaneamente das canções, para seguir as aventuras de Alex, o anão revolucionário com o seu amado golfinho Pablo, o sociólogo Hélder, dado a conspirações e teorias da recolhonização, e Catarina, uma mulher numa misteriosa missão que a obriga a saltitar entre continentes em busca de um homem muito especial. A música tornou-se paisagem, barulho de fundo a acompanhar o cenário, até ao minuto 2:15 de “Know How”, quando uma voz diferente irrompe das colunas. A deliciosa Leslie Feist faz-me levantar a cabeça da Lisboa pós-Grande Apagão Apocalíptico e volto a Riot on an Empty Street. Acompanho a descrição de um passeio por outra cidade em “Sorry or Please”:
Through the streets, on the corners
There’s a scent in the air
I ask you out and I lead you
I know my way around here
There’s a bench I remember
Chegam as minhas preferidas “Love is no Big Truth” e “I’d Rather Dance With You”, mais animadas e gingonas, deliciosas desde que lhes pus os ouvidos em cima, a dar-me reminiscências de 2004 ou 2005, não sei precisar o momento exacto, mas a viagem mental a esse tempo é saborosa.
A manhã adensa-se. O livro fecha-se por instantes, esquecido sobre o peito, enquanto a música continua a girar, paciente. Lá fora, a chuva aparece, o vento insiste; cá dentro, reina uma revolta silenciosa, na recusa tranquila de deixar que o frio me alcance. Um pequeno motim doméstico contra o inverno, vencido não pela força, mas pela delicadeza de duas vozes, e o simples milagre de ficarmos quentes por dentro.