Ainda à boleia do seu novo álbum triplo, o veterano do country alternativo emociona o Capitólio com a sua presença.
É especialmente delicioso e reconfortante, numa noite de chuva e vento forte, ser recebido pelo cobertor confortável, de cabelos grisalhos despenteados, que é Jeff Tweedy num Capitólio que ainda precisa de ganhar algum atrito para se livrar daquele brilho muito aborrecido de algo acabadinho de estrear. Longe dos tempos do degredo, onde a pornografia fazia parte do cardápio, pelas paredes brancas do espaço, um dos fundadores dos Wilco pinta o espaço com várias pinceladas de guitarras acústicas, que embalam por um lado, e servem nostalgia de outro. Não falamos de uma nostalgia apenas por músicas de anos passados, as próprias composições mais recentes têm um sentimento de pertença a um tempo que não o presente. Prova disso é a terrina Vista Alegre do novo álbum, Twilight Override, que se dá a conhecer pelo nome de “Feel Free” – uma ode de 7 minutos cuja missão é encarar o presente com um espírito confiante de outros dias mais inocentes.
Onde há inocência, há um sentimento genuíno. E é exatamente essa a aura que encontramos em Tweedy, não tivesse sido ele o autor de um guia meio espiritual, meio prático de como escrever uma música (e uma apenas), em 2020. Pelo menos é o que parece quando Tweedy fala abertamente com o público, quando diz que é muito mais fácil estar presente quando alguém paga para isso acontecer (numa das observações mais subtilmente hilariantes da noite).
Jeff Tweedy é subtil, mas canta de forma plena. O que diz é certeiro, mas com uma voz que parece sido arraçada com uma pena de tão suave que é. É uma mistura curiosa, numa carreira que parece ser feita de contradições e meias verdades, começando pelos Uncle Tupelo, moldados entre fortes raízes country (AP Carter e todo o fenómeno à volta da música “No Depression”) como no mundo alternativo dos anos 90 (os Tupelo gravaram o álbum de estreia nos míticos Fort Apache Studios, um dos principais refúgios para malta que queria nadar contra a corrente da altura).
Voltando ao concerto, o público está com Tweedy, faz pedidos que este mesmo julga não conseguir tocar de uma ponta à outra. Quando o faz, qualquer falha que apareça é apenas mais uma força. Cada careca presente no Capitólio está cada vez mais entrelaçada numa das seis cordas de qualquer uma das guitarras de Jeff Tweedy. Ajuda o facto de Tweedy facilitar a viagem, percorrendo toda a sua carreira.
É curioso o facto de às vezes pensarmos em “concertaços” aqueles com uma chinfrineira mais aguçada e atuações mais virtuosas. Eu gosto dos meus com um toque de “não sei como é que vim aqui parar, mas isto é o que tenho para oferecer”. O próprio Tweedy admite que não sabe falar a língua e que está meio atravessado com aquele clássico jet lag.
Fusos horários à parte, mesmo entre o passado e o presente, Jeff Tweedy consegue ser sempre o homem certo, na altura certa. Até durante fases pandémicas, quando lançou um hino de amor a tudo aquilo que costumava detestar em concertos com “Lou Reed Was My Babysitter”. “The dead don’t die” canta um público inteiro. E foi nessa altura, mesmo no final, a pensar em toda a sua história atribulada, que aposto que até um edifício de tijolo e cimento como o Capitólio se conseguiu rever numa das letras de Jeff Tweedy.
Fotografias de Estelle Valente, gentilmente cedidas pela organização.















