O primeiro disco de Santigold é um álbum de estreia ousado e marcante, um caldeirão de diferentes influências, que merece voltar a ser ouvido.
Santigold, o disco de estreia homónimo de Santigold, apareceu discretamente em 2008, numa altura em que imperava o rock cheio de guitarras, explodia o indie, os Arcade Fire continuavam nos ouvidos de toda a gente e bandas já com seguidores fiéis como os Sigur Ros, Deerhunter, Bloc Party ou os TV on The Radio tinham disco novo.
Por isso, quando apareceu, Santigold (inicialmente Santogold) não teve o destaque que merecia, também por apresentar um trabalho difícil de catalogar. Era pop? Era indie? Era dub? Ou era reggae reinventado? Esta mistura de estilos numa altura em que estava tanta coisa a surgir no indie rock levou a que demorasse mais tempo a que Santigold ganhasse o reconhecimento merecido. A própria figura de Santigold, eclética, misteriosa, com uma identidade irreverente, ajuda a esta construção. Com o tempo, esta mistura de new wave, dub, reggae, eletrónica e até hip hop, marcada por uma voz vibrante, tornaram o disco um dos trabalhos mais inovadores desses anos.
Desde os primeiros segundos, o disco revela uma atitude frontal e desafiante. As batidas são secas, muitas vezes inspiradas no pós-punk e na música de dança alternativa, enquanto os sintetizadores e guitarras surgem em camadas enérgicas. A produção (Diplo e Switch), é limpa e sem excessos, permitindo que cada canção tenha uma personalidade própria sem quebrar a coesão do álbum.
A voz de Santigold é um dos grandes trunfos do disco. Versátil e carismática, move-se com naturalidade entre o canto, a spoken word e roça o punk. “L.E.S Artistes”, que abre o disco, é uma faixa excelente, que ainda hoje soa muito bem. Segue-se o ritmo acelerado de “You’ll Find a Way”, seguindo-se a inspiração reggae de “Shove it”, onde conta com a colaboração de Spank Rock. Logo a seguir, outro dos momentos altos e mais dançantes do álbum, a orelhuda “Say Aha”. E assim vamos avançando, passando pelo hip hop de “Creator”, o indie de “Lights Out” e “I’m A Lady”, e, a fechar, uma outra versão de “You’ll Find a Way”.
“L.E.S. Artistes”, “Creator” ou “Lights Out” são bons exemplos de crítica social, ironia e boa pop. As letras falam sobre fama, indústria cultural, identidade e resistência, sempre com um tom provocador.
Apesar da diversidade de influências, Santigold é um disco coeso e bem estruturado, com a sua própria identidade. Tal profusão de influências tornaram este disco muito diferente do que se fazia na altura em que foi lançado e, talvez por isso, tenha sido um pouco incompreendido. Ainda assim, Santigold mantém-se surpreendentemente atual. A sua fusão de géneros, a afirmação identitária e a personalidade da sua criadora foram precursoras de muito do que se fez no meio alternativo. É um álbum de estreia ousado e marcante, que merece voltar a ser ouvido.