Não estávamos à espera disto. Nem tão pouco estávamos preparados. Uma colaboração inédita, destinada inicialmente ao palco para umas poucas apresentações ao vivo, mas que se tornou num projecto incontornável.
“A fama é uma forma falsa de sair à rua!”
Estas palavra, vociferadas furiosamente por Salvador Sobral a meio de uma canção, representam bem um dos trunfos deste disco. Este curto monólogo – o lamento dum artista a querer livrar-se do fardo de ter encantado e comovido um país inteiro – é declamado no final de “Tu y yo”, música com quase 7 minutos, e entra vindo do nada, quando a canção já tinha dado outras voltas. E esta é uma característica que distingue este álbum, nenhuma canção acaba como começa, todas seguem caminhos inesperados e nada óbvios. Só por aí, já nos agarra.
A Residência é um trabalho conjunto dos First Breath After Coma e Salvador Sobral, que se fecharam na Casa Varela, em Pombal, e trabalharam sofregamente num projecto que começou por ser pensado para o palco, o disco só veio depois. Durante duas semanas viveram juntos, confraternizaram, criaram e, talvez sem se dar conta, elaboraram um dos discos mais impactantes da música nacional dos últimos anos. Os FBAC já tinham mostrado que são dados a colaborações, já tinham feito uns concertos e gravado uns singles com Noiserv, chegaram a gravar um álbum com a Banda de Música de Mateus, mas nesses casos trabalhavam em cima de canções já existentes. Agora fizeram tudo, de raíz, em modo colaboração. O que dali saiu não é um álbum típico de First Breath After Coma, nem de Salvador Sobral, é a resposta a uma equação em que um-mais-um é igual a mais-que-dois.
Salvador Sobral reafirma que é um exímio e versátil intérprete, os First Breath After Coma consagram-se como fabricantes de ambientes envolventes, em igual dose misteriosos e libertadores. O disco, A Residência, é uma esplêndida simbiose de todas estas mentes criativas e mãos habilidosas, que conseguem sair das suas peles habituais e fundir-se harmoniosamente num único ser: orgânico, vibrante, expressivo, magnético.
O disco está concebido com a clara intenção de nos transportar até àquela residência – ao início até se ouve uma porta a ranger, abrindo-se lentamente para nos deixar espreitar. Não está escancarada, mas entreaberta. Ouvimos as primeiras notas de “Intro”, instrumental, lânguida, que logo nos aguça a curiosidade. Perscrutamos mais um pouco e ouvimos cantar em francês, “Je Galère”, e a partir daí já não conseguimos fugir. Há, ao longo de todo o disco, uma força gravitacional que nos faz ficar colados ao chão. Não vale a pena tentar resistir. Ficamos sim. Não queremos – nem podemos – ir a lado nenhum. Cada nota cantada requer a nossa atenção plena, cada acorde tocado precisa que não desviemos os olhos nem por um segundo. Porque – e voltando lá atrás a “Tu y yo” – cada música é uma odisseia, que começa com delicadeza e vai crescendo até rebentar numa explosão, ora contida ora transvazada, depois volta atrás, dá uma guinada, muda de rota, não sabemos para onde irá mas sabemos que nunca irá tomar o rumo mais evidente, mas faz um ciclo completo. E é esse mergulho no desconhecido que nos faz ficar grudados.
Com laivos de pós-rock (acenando a uns Godspeed You! Black Emperor), com pompa orquestral (dizendo olá a uns DeVotchKa), criam-se ambientes que nos absorvem por completo, nos envolvem num abraço morno que retribuímos graciosamente. Queremos ficar ali, imóveis, de peito aberto e mente desligada, num local onde esperamos que o tempo não passe.
Mas passa. Ao todo, 41 minutos da primeira à última canção, que têm mesmo de ser vividos de uma só vez, não há cá singles nem saltar músicas que faça justiça a esta obra-magna, que em apenas oito músicas nos canta em cinco idiomas (francês, castelhano, catalão, inglês e português) e, quando chega ao fim, obriga-nos a ficar ali mais um momento, quietos e em silêncio, a tentar perceber que torrente foi esta que nos caiu em cima. A resposta está logo ali, à distância de um play para começar tudo outra vez!