Sad and Beautiful World é um álbum coeso, que pega em boas músicas e transforma-as em novas músicas, tanto ou mais bonitas do que as originais.
Eu, Margarida, me confesso: ouvi falar pela primeira vez de Mavis Staples a propósito de um post do instagram de Kevin Morby, referenciando que Mavis tinha feito uma cover da “Beautiful Strangers” para o seu novo álbum. Rapidamente percebi que este (meu) desconhecimento era uma grande falha, já que Mavis tem um extenso legado histórico na música, mas também na luta pelos direitos civis, na América.
Conhecida por actuar em géneros musicais como r&b e gospel, nasceu em 1939, em Chicago, e desde os seus 20 anos que é artista. Começou a sua carreira no grupo The Staple Sisters, banda criada pelo patriarca da família, Roebuck Pops Staples, composta por si e seus filhos (Cleotha, Mavis, Pervis e Yvonne). Lançando álbuns a solo desde 1969 (Mavis Staples), este álbum é o seu 14º registo (vamos só reforçar que Mavis tem 86 anos. 86! Quem nos dera a todos ter a capacidade de conseguir produzir arte com qualquer idade, quanto mais com 86 anos!). É impressionante!
Este magnífico (e bonito) Sad and Beautiful World é o mais recente álbum da sua extensa carreira. Produzido pela elite da cena mais alternativa: Brad Cook, Jeff Tweedy, MJ Lenderman, Waxahatchee, Bon Iver, o álbum é uma preciosidade entre covers e (uma) música “própria”. Aliás, este álbum fez-me lembrar os últimos álbuns do Johnny Cash, produzidos por Rick Rubin, em que a maioria das músicas são covers, mas que ganharam uma vida própria e se tornaram músicas de Cash (o melhor exemplo é o “Hurt” em que a versão do Cash no YouTube tem 320 milhões de visualizações e a versão original, dos Nine Inch Nails, uns meros 3 milhões).
Desde Leonard Cohen (“Anthem”), passando por Tom Waits (“Chicago”), Kevin Morby (“Beautiful Strangers”), Sparklehorse (“Sad and Beautiful World”) e Eddie Hinton (“Everybody needs Love”), o álbum contém nove covers e apenas uma canção original, escrita por Hozier e Allison Russel (“Human Mind”).
É arriscado, diríamos, a não ser que estivéssemos a falar de Mavis Staples, uma artista que se apropria das músicas, de tal maneira que parece que foram criadas por ela. A plenitude com que abraça as músicas, a emoção que transmite ao cantá-las, os arranjos dos músicos que a acompanham, são tudo pormenores que fazem deste álbum um marco muito especial nesta carreira já tão extensa.
É difícil de destacar, mas a “Godspeed”, “Beautiful Strangers”, “Hard Times”, “Satisfied Mind” e “Everybody Needs Love”, são canções particularmente bem conseguidas. Os arranjos que percorrem o álbum dão-lhe uma sonoridade actual, nova e optimista, sem cair naquele cliché habitual colado aos álbuns de covers (tipicamente maus).
Sad and Beautiful World é um álbum coeso, que pega em boas músicas e transforma-as em novas músicas, tanto ou mais bonitas do que as originais. E, tal como o refrão da música que dá origem ao título do álbum, “it’s a sad and beautiful world”, é um álbum bonito e triste em iguais medidas.