Ao fim de 7 anos, John Maus está de regresso. Em disco e ao vivo, no próximo novembro. Quanto a Later Than You Think, vale mesmo a pena ouvir o que tem para nos dizer.
John Maus é uma voz única no panorama musical dos últimos tempos. Quanto ao homem, todos sabemos que é, ao mesmo tempo, um conceituado professor universitário e um angariador de polémicas várias. Mas é em estúdio e no palco que melhor se revela: um retro-futurista-synth-punk que ou nos prende, ou que simplesmente o rejeitamos. Para nós, só a primeira hipótese é válida, e por isso seguimo-lo desde os primórdios do seu surgimento, sobretudo com mais atenção desde o notável Screen Memories (2017), embora a bom rigor tenhamos de atrasar um pouco mais a data, até 2011, ano em que lançou We Must Become the Pitiless Censors of Ourselves. Agora, no entanto, há um álbum novo e um concerto a caminho, no Capitólio, com o selo Primavera Sound, o que só indicia coisas boas, lá para o final da segunda semana de junho, na invicta cidade do Porto. É difícil desejar melhor. O novo trabalho discográfico de John Maus mostra-se, uma vez mais, revelador da sua mais intrínseca essência e dá pelo nome de Later Than You Think. Já o ouvimos com atenção e estamos prontos e capazes de sobre ele dizer o que pensamos. É só seguir os próximos parágrafos.
Aristóteles e Platão terão sido unânimes na ideia de que a filosofia nasceu do espanto. O filósofo John Maus, por sua vez, não deixa de nos espantar, mesmo quando vai fazendo discos que o revelam mais ou menos da mesma maneira, com as idiossincrasias que há muito lhe reconhecemos. Ainda assim, ele não deixa de nos espantar (lá está), tanto pelas letras, como pelos sons e ritmos agregados às palavras que sussurra e canta com a sua voz tão particular. Later Than You Think, podemos dizer, é mais do mesmo, e ainda bem. Por vezes, o melhor é não inventar muito, não mexer mais do que o necessário. Para mais, John Maus mexe bem connosco, uma vez que as 16 canções nele incluídas são reveladoras de uma alma inquieta, tão inquieta como os ritmos de algumas das faixas do disco em apreço, mas também pelas emoções, pelas excentricidades que tornam a estar presentes no que faz. São canções fortes e duras, sem maneirismo piegas, vão diretas aos assuntos que tratam. O baixo inicial de “Because We Built It” ( e depois a bateria, os sintetizadores, a voz) dizem tudo. A faixa de abertura do álbum esclarece-nos sobre as restantes. Tudo vai ser intenso e festivo. O corpo vai abanar, como John Maus se abana quase até cair, quando está em palco. “Shout”, por exemplo, segue-lhe a pisada, embora de forma não tão urgente. O mesmo acontece em “Came & Got”, “Out of Time”, “Tonight” e “Losing Your Mind”. Mas não só das instância frenéticas vive Later Than You Think. Há um lado mais soturno, mais embrionário, que não grita extroversão a plenos pulmões. Há qualquer coisa bubbling under em canções como “Theotokos”, “Let The Time Fly”, “Pick It up” e a derradeira “Adorabo”, evocado de tempos e vozes místicas vindas de uma qualquer igreja medieval perdida nos confins das nossas emoções. É de uma enorme beleza, acreditem, a última gota musical de Later Than You Think.
Tudo bem espremido, o mais recente trabalho do homem de Austin, Minnesota é um caleidoscópio de muitas coisas, diverso e unido (sim, exatamente isso) e que nos deixa espantados (o espanto, de novo) perante cenários upbeat, mas também cinematográficos, perante sensações esotéricas e outras de ordem profana, mesmo que pelo meio se grite (ou cante) “I Hate Antichrist”. Uma coisa parece certa: ninguém ficará indiferente perante os sons de John Maus.
- a ordem das faixas mencionadas no texto é a do spotify, não a do disco em vinil.