Foram precisos cinco discos para os Talking Heads acertarem em cheio, com Speaking In Tongues.
Depois de The Name of This Band Is Talking Heads, de 82, este trabalho mistura perfeitamente as influências pelas quais a banda de David Byrne ficou conhecida, e o resultado é um álbum emblemático.
Arranca em cheio com “Burning Down The House”, um tema new wave com muito funk à mistura, que foi alvo de covers por várias bandas e estilos, e que na sua versão original, ainda hoje é extremamente dançável, com o seu solo de percussão. Ao longo de todas as canções, nove no total, os Talking Heads mostram-se mais leves e menos densos que antes. Talvez como consequência de não terem trabalhado com Brian Eno neste disco, isso os tenha levado a experimentar coisas distintas. O certo é que querem dançar.
E que Byrne, Tina Weymouth, Chris Frantz, e Jerry Harrison também aproveitaram o tempo entre este disco e o anterior para desenvolver os seus outros projetos. Ainda por cima Weymouth e Frantz tinham andado a tocar como Tom Tom Club, o que também explica muito do som algo africano, algo latino, que começou a permear cada vez mais os Talking Heads.
Em termos de composição, o vocalista explicou que o processo foi cantar coisas e sílabas sem sentido, algo que teria aprendido com Eno, e depois construir algo com sentido. Daí chamar a este trabalho Speaking In Tongues.
O álbum é todo ele um tiro certeiro, com cada canção a conseguir ficar contida no seu espaço, mas a dar ao disco uma sensação de continuidade e acima de tudo de boa disposição. É impossível não lembrar a performance de David Byrne em palco, quando ouvimos uma “Making Flippy Floppy” ou “Girlfriend Is Better”. Esta última que é, sem dúvida um dos pontos altos. Os sintetizadores sinuosos a pontuar, meio a servir de efeitos sonoros, em conjunto com a excelente linha de baixo fazem deste um tema incrível.
Em “I Get Wild/ Wild Gravity” abranda um bocado o ritmo, numa onda mais minimalista, mas que dá uma mudança de tom ao disco, antes de voltar a animar mais ligeiramente com os hi hi hi de uhuu de Byrne em “Swamp”, faixa com algo a atirar a um blues moderno, com o espírito do delta do Mississipi.
“Moon Rocks” acaba por ser vítima do sucesso, ou seja, é uma canção bem conseguida, mas quando há no mesmo disco pérolas como “Burning Down The House”, “Girlfriend Is Better” ou “This Must Be The Place (Naïve Melody)”, esta acaba por ficar esquecida. Ainda assim é uma daquelas a descobrir depois de várias audições de Speaking In Tongues.
Se há um problema com Speaking in Tongues, este é “Pull Up The Roots”, que se estende demasiado e acaba por não ter a mesma foça de outros temas. Mas a competição é feroz e nem todas as canções podem ocupar o número um do nosso coração.
E a rematar este disco, temos “This Must Be The Place (Naïve Melody)”, momento brilhante do álbum. E sim, naïve como indica o título, mas nem por isso menos apelativa. Sobre um sentimento introspectivo de pertença, leva-nos de forma quase hipnótica ao final do disco.
É certo que podemos argumentar que este é um trabalho que puxa menos pelo experimentalismo que os anteriores, mas não quero saber porque estou a abanar a cabeça desde que comecei a ouvir o disco. E vou voltar a tocá-lo do início. Speaking in Tongues tem o dom de nos pôr bem-dispostos e com energia, na sua mistura funk, new wave, afrobeat e até de blues que faz dele um dos discos mais importantes dos anos 80.