O segundo disco de Hayden Anhedönia (Ethel Cain) é considerado uma prequela do trabalho de 2022, Preacher’s Daughter, e assume-se como um trabalho de gótico sulista, denso, lento, obscuro e melancólico.
Pensem em estradas poeirentas, calor, campos de milho até perder de vista, partículas douradas no ar, mosquitos, igrejas de madeira, alpendres pardacentos debaixo de um sol abrasador, com uma pitada de conservadorismo, religião e uma pitada de racismo. Juntem este ambiente opressivo de gótico sulista, que podia sair de um romance de Faulkner ou Harper Lee, uma guitarra lenta, voz arrastada e dolorida, relatos de opressão e descoberta da sexualidade, confusão religiosa, fatalismo, tristeza e emoção. Misturem tudo e eis Ethel Cain.
A artista norte-americana, nascida e criada na Flórida, filha de um diácono, constrói este universo triste e doloroso, lento, quase com a cor comida pelo sol escaldante, como uma fotografia antiga, logo no seu primeiro trabalho, Preacher’s Daughter, de 2022, para depois o continuar neste Willoughby Tucker, I’ll Always Love You, que considera uma prequela do seu primeiro disco.
Há muito para dizer sobre a vida pessoal e polémicas em torno de Ethel Cain mas vamos dar apenas o resumo para nos mantermos no essencial: participou desde muito cedo no coro da igreja batista onde o seu pai era diácono, o que naturalmente marcou os seus anos formativos na música, escrevendo canções cristãs; estudou em casa e iniciou-se na composição aos 17 anos. Com a reedição do seu primeiro álbum em vinil chegou ao top10 do US Billboard 200, sendo a primeira artista transgénero a conseguir esse feito. Relativamente às polémicas, a artista deixou uma série de comentários inflamáveis, e entrou num conflito com a cantora Lana del Rey, também nas redes sociais.
Voltando ao álbum: o disco é verdadeiramente Southern Gothic, com uma lentidão suada, poeirenta, de pés descalços e faces sujas, triste, fatalista, opressivo e perturbador. As canções têm narrativas fortes e pesadas – não há uma faixa mais ligeira, de tal forma que a tensão se vai acumulando e aguardamos pelo momento em que ela se libertará, mas esse momento não chega.
Desde a primeira faixa, “Janie”, e avançando para “Nettles”, que pisca o olho à balada country, passando para a pesadíssima “Willoughby’s Interlude”, o peso adensa-se em “Tempest” (excelente faixa de 10 minutos), já quase no fim do disco e alivia ligeiramente em “Waco, Texas”, a última faixa, com 15 (!!!) minutos de duração. Só sentimos alguma leveza em “Fuck me Eyes”, o mais perto de pop que podemos esperar neste disco.
O disco é coeso e conta uma história, como se fosse um filme: tem pausas instrumentais, ritmos pausados que apelam à contemplação (novamente, amarelada e desbotada, como se víssemos uma fotografia antiga). Porém, tanta coesão torna-o também um pouco repetitivo, sobretudo devido à longa duração de algumas faixas, tornando o disco um pouco sufocante, como se estivéssemos debaixo de água – temos de parar para respirar.