Do filme do segundo dia, fez-se uma bonita longa metragem: os atores principais terão sido os TV on the Radio, Waxahatchee, Kiwanuka e Deftones.
Claquete, câmara, ação! Lá se iniciou a jornada do segundo dia do Primavera Sound de 2025. Ainda houve um ou outro chuvisco inicial, mas depois tudo se ajeitou. Neblina ao estilo sebastianista, calor quanto baste e a tarde ia começar com dois concertos mais ou menos em simultâneo. Quando assim é, corre-se de um lado para o outro e o problema fica resolvido, mesmo que apenas pela metade. A expressão mon coeur balance fez-se sentir e as três mulheres em questão, se soubessem desse dilema, teriam ficado agradadas. A dupla Anavitória e A Garota Não foram a razão de tudo isto. Puxemos o filme atrás, então.
As Anavitória são uma dupla de Tocantins, Brasil. No entanto, Portugal já as recebeu inúmeras vezes, passe o exagero, e ontem fê-lo de novo, com direito a banda completa e tudo. Vão ganhando destaque por onde passam, e onde vivem ainda mais. Caetano Veloso, mestre e deus indiscutível, mencionou-as em “Sem Samba Não Dá”, o que já quer dizer alguma coisa. E o que há a referir do concerto de ontem? “Se eu falasse o que eu penso / sem pensar no que eu falo” diria que as canções das Anavitória são caramelo puro, sem modinhas salgadas para palatos diferenciados, melodicamente calóricas, impróprias para humores frios e distantes. São novelos, todos os temas, onde é fácil sermos “a linha e o linho” dos seus enredos. Sentimentais e empáticas, as canções e as meninas são“trevos de quatro folhas”. Nós, os lusos do norte, do centro ou do sul, estamos mais acostumados a ouvir a dupla em formato acústico, pelo que ontem, quando a tarde já ia alta, soube bem perceber como crescem as músicas quando tocadas com vários músicos em palco. Que não se perca essa essência artística, nunca. É que assim “Tudo ficou bem mais bonito”, pois então. E delas irradiou também um outro encanto. Mais puro, mais genuíno, mais natural. Canções como “Ter o Coração no Chão”, “Espetáculo Estranho”, “Água-viva” e “Quero Contar Pra São Paulo” foram os temas que mais gostámos de ouvir. Para estas garotas, o nosso sim. Estava na hora de darmos outro sim, desta vez à Garota Não. Era mesmo ali ao lado.

Dos açúcares e edulcorantes das brasileiras ao sal poético nas feridas da nação foi um saltinho. Quando chegámos ao local do concerto, do microfone dizia-se “esta é para o nosso novo governo”, e foi. Não se pode decretar o fim da arte, certo? É que ela pulsa, está no sangue de tipo A (de arte) na variante D (de democracia livre e criativa). E depois, logo a seguir, a canção-arraso que fulmina as aventuras do Ventura e do seu partido, quando em bicos de pés o André pediu, há pouco tempo, uma oportunidade (“eles governam há 50 anos, dêem-nos uma oportunidade”), que, afinal, quase lhes foi dada. Por isso, como tão bem escreveu Eugénio de Andrade, cantou-se “é urgente o amor / é urgente permanecer”, da belíssima “Urgentemente”. E assim, num ápice de tempo, o concerto de A Garota Não fez-se comício, fez-se militante cada espectador, acabaram estas linhas por serem tudo isso também. Mas acabou cantando, A Garota, “calma, foi em paz que vim”. O “céu”(estava) em fogo” pelas 18.30 horas.
Waxahatchee, a garota do nome difícil e das canções bonitas, começou a horas, com pontualidade mais britânica do que americana. Alabama no Porto! O mundo é mesmo pequeno e os palcos dos festivais provam isso à exaustão. São epicentros globais. Ao ouvirmos o seu bonito concerto, não nos saiu da ideia os primeiros discos da desaparecida Michelle Shocked, que de Dallas percorreu o mundo, mas que nunca esteve no Porto, segundo julgamos ter conhecimento. No entanto, como sabemos, as almas gémeas encontram-se onde bem entendem encontrar-se. Foi esse o caso, ontem. Folk com sabor sulista, canções redondas que nos atingem com enorme facilidade, é um pouco isto a senhora Waxahatchee. E ainda bem. A poesia dos sons sabe sempre de forma deliciosa e a das palavras também, sobretudo quando nos apanham distraídos e começam a rimar connosco, quando menos se espera. Agradável, muito agradável o concerto, como quando percebemos que uma brisa se faz necessária. Foi um bom regresso ao Primavera Sound do Porto, Waxahatchee! Poderás sempre voltar.

Sintonizámos, pouco depois, nos TV on the Radio. Banda com bom número de fãs entre nós, tem surpreendido por não lançarem originais há mais de uma década. Assim, vão-se alimentando da aura mítica de Return To The Cookie Mountain e, com isso, por via da demora de novos temas, criam expectativas que tardam em ser confirmadas. Uma pena. Todos sabemos que já não vivemos os tempos do indie rock que vinha do outro lado do Atlântico para salvar a vida de muitos europeus, sempre à escuta das novidades oriundas das terras do tio Sam. Rock que dança, pulsante e bem disposto, antenado para festivais, a banda de Tunde Adebimpe e companhia sabe o que faz e o que fez foi do agrado de uma pequena / grande multidão que se estendeu pelo anfiteatro natural do Palco Vodafone. A esmagadora maioria das pessoas preferiu-os aos Los Campesinos, que no palco ali ao lado tinham apenas uma mão cheia de gente à sua frente. É que a gente urbana prefere a urbe, fugindo a sete pés dos ambientes telúricos. (Isto foi uma piada, como terão percebido.) E foi também, como se adivinhava nos betcliques da vida, um belo concerto. Os pontos mais altos (nem os pés tocavam o chão) foram “Wolf Like Me”, “Halfway Home”, “Lazerray”, “Golden Age” e “Province”, malha maior que a vida.
A soul contemporânea também teve lugar na noite de ontem. Quem a trouxe foi Michael Kiwanuka, mais um dos nomes-trava-línguas do segundo dia do Primavera Sound. Aquele cheirinho rítmico de África assentou bem ao cair da tarde, sendo que eram já quase-quase nove da noite. Não há nada como um Primavera Sound com sabor a verão. Muita gente em palco para que o som fosse mais espesso e coeso. Muitas vozes femininas, unidas num corpo sonoro quase celestial. “You Ain’t The Problem” é uma excelente canção, do igualmente ótimo e elegante álbum homónimo, de 2019. “Father‘s Child” (com aquele coro a sublinhar “walk, walk, walk”) é sublime. O violino de fundo deu-lhe contornos épicos, fulgurantes. Uma missa a céu aberto, portanto. Arrepiante momento! Nos grandes ecrãs gigantes que ladeiam o palco, via-se gente do público a chorar. “Rule the World” foi igualmente um momento gigante, assim como todo o espetáculo. Hallelujah ao grande Kiwanuka.

Gostamos de imaginar o dream-pop dos Beach House como uma banda sonora de um filme francês dos anos 70, mas que nunca foi realizado. Parece feito de sonho e algodão doce, que ao invés de se pegar aos dedos, pode pegar-se à alma. É preciso ter cuidado com eles. Diz-se que sabem da arte da hipnose, e que são cool como poucos. Quem tem em carteira álbuns como Bloom, Teen Dream ou Depression Cherry merece, pelo menos, que estivéssemos atentos e curiosos ao que iriam apresentar. E assim foi. Tivemos de lutar corpo a corpo para abrirmos caminho, até que nos instalámos em local conveniente. Posta esta breve narrativa, e como descrição do concerto, não nos elevou assim tanto a alma como pretendíamos. O quase sussurro das canções, a escuridão constante sobre os músicos em palco (até acreditamos que o mood era mesmo o certo), a falta de uma voz que nos animasse (era o que queríamos para acabarmos a já longa passagem das horas), mas nada disso foi acontecendo e fomo-nos deixando estar, sossegadamente, em silêncio, olhando para o infinito que parecia espelhado no céu, porque acreditamos sempre que ele existe, quando estamos em contemplação. Enfim, fomos espreitar Liniker.
Swing soul com resquícios da MPB djavaneana, Liniker tem feito sucesso por onde passa. Já no ano passado a havíamos visto num outro festival mais a sul de onde nos encontrávamos ontem. Samba soul, muita gente cantando os versos de “Baby 95” (“Tô derretendo na sua frente / Tô derretendo na sua frente”), o mesmo em “Pop Star” (“Que tá errado me tratar como se eu fosse / Uma nota rasa dessa melodia tão vulgar”) e por aí fora. Alguns dos temas de Índigo Borboleta Anil terão sido os mais cantados, dançados, mimados pelo público. Ao peito, numa camiseta verde brat – toda a banda vestia da mesma cor – (ah, pois é, que isto está tudo mais ou menos ligado) estava escrito Caju, alter ego da artista e título de tema e do seu mais recente trabalho. Tudo a dançar, tudo a sorrir, tudo a cantar, o que nos fez lembrar, perante toda a enchente ao nosso redor, que “gente quer ser feliz”, como há muito cantou (e canta) Caetano Veloso, assim a vida permita tal coisa. Ontem, pelo que se viu, permitiu. O fim fez-se com “Deixa Estar”, do mítico Lulu Santos. A festa foi tanta, que deve durar até agora, na cabeça de toda aquela gente que viveu instantes de autêntico delírio.
A décima visita dos Deftones a Portugal era imensamente aguardada por fãs indefectíveis, que desfilavam, com orgulho, as suas t-shirts da banda (99% de cor preta) pelo parque da cidade, desde cedo. Se na primeira noite havia duas tribos, Fontaines e Charli XcX, na segunda era Deftones a reinar.
O concerto abriu logo com duas das mais conhecidas canções da banda, “Be Quiet and Drive (Far Away)” e “My Own Summer (Shove it)”, agarrando o público pelas entranhas, e abanando-os durante hora e vinte, com o ponto alto a ser a incontornável “Change (In the House of Flies)”. As cabeças abanaram colina acima e os sorrisos reinaram no fim. Que mais se pode pedir?
Texto: Carlos Lopes com Alexandre Pires || Fotografias: Inês Silva excepto onde mencionado


























































