Dois dias de música, duas salas clássicas da histórica cidade de Évora, sete bandas nacionais mais ou menos emergentes, criatividade a rodos, diversidade estética e muito amor à camisola … ou ao Capote, quero dizer!
Vocês podem não acreditar, mas eu juro que ando a tentar fugir a metáforas gastronómicas! Agora, depois do apetite despertado pela açorda que domina o fabuloso trabalho gráfico do Capote 2025, vai ter mesmo de ser! A melhor forma de descrever o que é um Capote Fest é dizer que será o equivalente musical a um menu de degustação num restaurante familiar de aldeia ou de bairro (escolham o que preferirem), onde a modernidade foi entrando com calma, sem dar cabo do que lá estava antes.
Vamos ao Menu?
The Rite of Trio ou a fritaria de que eu tanto gosto!
Este festival ocupa um lugar muito especial no meu coração por um vasto conjunto de razões, e por isso, acredito que não terá sido mera coincidência que foi na sala da Joaquim António Aguiar que me terei estreado nas maravilhas sensoriais provocadas pelas dUAS sEMIcOLCHEIAS iNVERTIDAS (2023) ou pelos Galgo (2022). Estas três bandas partilham a magia de malabarizarem de forma tão personalizada abordagens estéticas tão afastadas como o rock experimental, jazz, noise, punk, eletrónica ou que mais conseguirem encontrar. À festa dos Galgo e à liberdade pura das semicolcheias, os The Rite of Trio acrescentam às suas composições deliciosamente complexas – espreitem Free Development of Delirium (2021) e Getting all the Evil of the Piston Collar! (2015) – a carga dramática e a plasticidade capazes de tornar um concerto numa experiência filosófica! Os silêncios convergem com os yawps bárbaros, as guitarras distorcidas com a improvisação clássico-jazzística a la Third Stream, a angústia do arco do contrabaixo com uma mala cheia de sonhos estrondosos.
Cachapa & DJ Sims e arte do doce flow!
Tem cara de miúdo, mas carrega a confiança desprovida de bazófia de uma maturidade apoiada num conjunto considerável de edições e no génio gémeo de DJ Sims.
A dupla é nada e criada em Évora, mas borda malhas com a densidade e a beleza dos tapetes de Arraiolos.
São apenas dois em cima do palco, mas enchem-nos a alma com o seu talento na caneta, nos beats, no flow, nos pratos.
Uma delícia que urge ouvir, sem qualquer “mas”. Vão às plataformas e escutem, no mínimo, Desfeito (deste ano) e Detalhe (2023), que aposto que ficarão à espera do EP Magistral que já está aí à espreita!
Uma fantástica estreia do hip hop no Capote (pelo menos para mim), sem “mas” … só certezas!
A poção fresca de Clauthewitch
Confesso que os Clauthwitch foram, para mim, a maior surpresa deste Capote. Se é certo que o seu primeiro EP Begonia (2024) já contém uma série de boas indicações do som etéreo da banda, numa versão super atual de dream pop, a sua transposição para o palco com um equilibradissimo acréscimo de carga elétrica, ajuda a abrir os vários sabores escondidos em cada uma das suas canções. A banda lisboeta revela o raro dom de sintetizar várias estéticas musicais – synth pop, indie rock, shoegaze, mais uns pózinhos de post punk e umas pinceladas goth – de uma forma elegantíssima e personalizada. Que belo concerto … onde a versão de “Jackie Down the Line” caiu que nem ginjas, como diz o outro!
A Festa da Música de Zarco e Sea Angels
Sim, eu sei … juntar as bandas cabeça de cartaz no mesmo parágrafo, ainda por cima a meio da reportagem vai parecer sacrilégio e vai parecer uma data de outras coisas feias. Que se lixem essas aparências! Se no Capote tive de esperar por elas … esperem vocês também um pouco!
Os Zarco, e talvez as Sea Angels, trouxeram pela primeira vez às primeiras filas da Soir vestidos de noite e outros trajes e adornos mais “formais” do que aqueles que estaremos habituados a presenciar na mítica sala da Joaquim António de Aguiar. Isso é fantástico … e só revela a abertura de espírito estético da dupla de magos capoteanos. Apesar das diferenças e do forte carácter de cada uma destas bandas, já lá iremos, penso que não ofenderei ninguém, nem a verdade, se escrever que serão dos melhores exemplos nacionais de musicalidade, da mistura de estilos … de uma bela salada sónica de celebração.
À portugalidade sem espinhas, servida com um belo copo de branco, dos Zarco … a fazer-nos lembrar os saudosos Fausto e Trovante, as Sea Angels respondem com uma veia mais globalizadora que tanto nos enche os copos com shots de punk à anos 90, como de cocktails disco!
À sensibilidade jammy do sexteto alfacinha, que me faz desconfiar que haja para ali muita musical nerdiness, as cascalenses contrapõem com a eficiência oriental – ataques rápidos e letais!
Às belas melodias dos primeiros, as segundas respondem com outras … deixando o público de rosto sorridente e olhos cintilantes.
SiDeWalK e Danger Machine: dois de peso e duas medidas
Capote que é Capote, mete peso e mete metal … e só meterá medo quando não os tiver! Ficaram para o fim para o texto assentar melhor, mas só por isso. De um lado os maduros, de outro os putos. Da Madeira o Rock Alternativo cheio de octanas dos anos 90, de Évora a celebração Black’n’Roll dos fins dos setenta / princípios de oitenta, revisitada por uma nova geração de metaleiros com os tiques todos (é uma coisa boa), mas sem peneiras.
Os SiDeWalk fecharam a noite de sexta com uma energia e um groove guardados no fundo da garrafa de aguardente de cana, que a poncha tem que ser feita e servida na hora! Rimos cheios de músculo, riffs bem redondos e uma voz com 60 graus de potência, por vezes filtrada num velho rádio de polícia! O quarteto madeirense foi buscar aos barris de carvalho, as suas composições mais antigas e juntaram-lhes umas tantas ainda em fermentação, a tresandar a ritmos funky que desafiaram as ancas mais enferrujadas!
Sábado abriu com os Danger Machine, uma máquina cheia de pica! Um trio de putos com pelo (e corpse paint) na venta, que idolatram a velha guarda com uma devoção de fazer inveja ao mais fanático cinquentão de colete carregado de badges! Uma barulheira infernal, daquelas de fazer bater o pé no chão e abanar a cabeleira … e uma bela versão do hino “Black Metal”. Tudo o que estávamos a precisar para arrancar a noite!
Fotografias: Rui Gato



































