Em 2000 A.D. temos Samuel Úria no seu melhor, com um álbum que o situa entre os mais importantes compositores portugueses atuais.
O caminho foi longo mas com passadas certas para Úria. Desde o seu início underground com a Flor Caveira até à sua passagem por todos os festivais portugueses e se tornar um nome mainstream às cavalitas de canções como “É Preciso Que Eu Diminua” ou “Lenço Enxuto”, o cantor foi cimentando o seu merecido lugar entre as mais interessantes e consistentes propostas musicais dos últimos vinte anos. E onde entra este novo álbum, 2000 A.D. nesta história? Será só mais um lançamento para o manter na cabeça das pessoas ou será que há aqui sumo para espremer?
O Altamont já tinha acompanhado o processo criativo deste disco, editado quatro anos depois de Canções do Pós Guerra, onde transparece que Úria se sente confortável com a sua forma de criar canções e a sua própria linguagem. Em 2000 A.D. estão como sempre as muitas referências biblícas e o disco é muito mais rock, mais de palco, talvez. Não necessariamente menos intimista, com temas como “Um Adeus Português”, “Quem me Acende a Voz”, “Daqui Para Trás” e obviamente “Xico da Ladra”, mas a lembrar muito As Velhas Glórias ou mesmo Em Bruto, de 2008, com temas como “Era de Ouro”. Já a faixa-título, por exemplo, vai mais buscar a Carga de Ombro ou a O Grande Medo do Pequeno Mundo.
Este álbum consegue tocar todos os pontos e – chamemos-lhe idiossincracias – das composições de Úria, e é por isso que é tão bom. Fazendo um paralelismo a Chico noutra ocasião: Tem coros gospel, tem; tem órgão eletrónico, tem; tem refrão pegadiço, tem (se não passarem o resto deste ano e do próximo a cantar “Não há problema em ter o coração na boca, o problema é termos a boca na boca” vocês é que estão errados) e tem colaborações, com Carol e Margarida Campelo, que funcionam muito bem, em estilos completamente diferentes. Tem também uma homenagem sentida a outro Xico, o da Ladra, figura mítica dos últimos 20 anos da cena musical lisboeta. E tem composições bem construídas, criando uma homogenidade neste disco bastante heterógeneo de canções.
2000 A.D. habitua-nos mal. A um Úria que devia lançar discos mais vezes porque nos deixa com vontade de ouvir mais.