Por mais que o tempo passe e por mais idade que se lhe some, Marling continuará a surpreender na sua maturidade, na sua capacidade de traduzir em letras o que a maioria de nós teima em não aceitar e processar, na forma leve como parece explicar a todos nós, leigos, de que é, afinal, feita a vida.
Antes de tudo, o som de passos, de risos, de um bebé, de um casal. São sons de casa, que se entrelaçam com os primeiros acordes da guitarra acústica que vai tocar o disco inteiro. Um disco que é casa de alguns dos sentimentos mais profundos da humanidade, tão comuns e tão difíceis de digerir em simultâneo, tão pessoais e tão comunitários, tão antigos quanto o tempo e tão novos para quem os sente pela primeira vez. “Child of Mine”, possivelmente a música mais bonita da já longa carreira da sempre jovem Laura Marling, abre Patterns in Repeat, quase em tom de pré-aviso para o peso pesado que paira sobre nós a partir do momento em que carregamos no play.
Sempre jovem porque, por mais que o tempo passe e por mais idade que se lhe some, Marling continuará a surpreender na sua maturidade, na sua capacidade de traduzir em letras o que a maioria de nós teima em não aceitar e processar, na forma leve como parece explicar a todos nós, leigos, de que é, afinal, feita a vida.
Song For Our Daughter, disco lançado em 2020, foi escrito antes de Marling ser mãe e Patterns in Repeat, lançado no passado dia 25 de outubro, durante os primeiros três meses de vida da sua filha. De um um álbum para o outro, deixou-se cair a percussão e acrescentou-se o questionamento que apenas uma experiência transcendental — no caso, a maternidade — comporta. Se Marling já se mostrava astuta e curiosa em trabalhos anteriores, agora pensa sobre a sua presença no mundo do ponto de vista de quem tem responsabilidade por uma nova geração; o que resulta, em última análise, numa viagem pela sua família, pelas suas relações e pelas várias formas que pode assumir o amor.
Com algumas excepções, o álbum é composto por guitarra acústica, violinos e coros que acompanham os poemas sinceros que Marling declama como se de uma confissão se tratasse. Em parte gravado em casa, transporta o ouvinte para a sua ideia de casa e aconchega-o desde o primeiro acorde. Essa primeira faixa, que tira imediatamente o chão a quem por ela passar distraído, é, mais do que uma carta à sua filha, uma carta a esta sua nova descoberta, a maternidade e a consequente forma de amor mais profunda, fácil e poderosa que existe. “Lullaby” é mesmo uma canção de embalar, cantada por uma mãe para uma filha, com todo o mundo que cabe nos seus braços.
De melodia simples, a segunda faixa, “Patterns” reflete sobre como toda a humanidade se baseia em padrões que se repetem continuamente, seja pelos traços genéticos e sociais que se vão reproduzindo entre gerações, seja pela vontade inerentemente jovem de romper com esses padrões e pela tendência de conformação que se estabelece com o avançar da idade — e por mais padronizado que tudo isto esteja há milénios, não há nada que nos impeça de continuar assim. No fim do álbum, porém, Marling promete à sua filha, em “Patterns in Repeat”, quebrar com os padrões geracionais que não lhe fazem sentido continuar. Há, sobre isto, um exercício curioso que Marling traz para o álbum. “Looking Back” foi escrita pelo seu pai, há mais de cinquenta anos, imaginando-se velho e preso a uma cadeira. Agora, de facto velho, ouve-a como parte de um álbum cheio de questões existenciais da juventude da filha.
As melodias mais bonitas do disco, sem grandes acontecimentos mas perfeitamente pensadas, pertencem a “Your Girl” e a “Caroline”. Ambas têm também letras especiais, como não podia deixar de ser, sobre os adultos que continuam a precisar do colo dos pais para enfrentar o mundo dos crescidos e sobre um amor antigo do qual pouco resta e ao qual dificilmente vale a pena voltar, com todo o peso que cada um destes assuntos traz para cima da mesa. Já “Interlude (Time Passages)” é uma faixa instrumental de profundidade e leveza em partes iguais, que parece um ecossistema inteiro. Deve ser assim que se vive na cabeça dela, em constantes contrastes e multitudes simultâneas.
Patterns in Repeat é uma composição inteira sobre o amor que se sente, sobre a vida que nos surpreende, sobre os padrões que se repetem ancestralmente e que, ainda assim, continuam a ser novidade. Laura Marling tem a maturidade emocional de uma pessoa que já viveu muitas vidas e a gravidade dos seus sentimentos é palpável através das suas letras sinceras e das suas melodias simples, mas potentes. Parece uma pessoa de camadas infinitas de quem nunca se saberá tudo, por isso dissecamos as suas canções, na esperança de desvendarmos alguns segredos. No fim, convencemo-nos de que vale a pena continuar a lutar por encontrar a beleza da vida.